Brendow Christian: ‘Eu sempre quis ser um atleta’

A trajetória do paratleta amazonense recordista brasileiro e das Américas no lançamento de dardo.

País do futebol, sede de duas Copas do Mundo (1950 e 2014) e dos Jogos Olímpicos de 2016. Com um currículo desses, era de se esperar que o Brasil fosse um país com muito incentivo ao esporte, investimento em novas práticas esportivas, apoio às federações esportivas e um defensor dos direitos trabalhistas dos atletas. No entanto, a realidade de quem pratica modalidades menos conhecidas pelo público não é nada fácil. Difícil também para atletas paralímpicos.

Nascido no interior de Manaus, Brendow Christian, 22 anos, sempre teve o sonho de ser atleta. O futebol foi o primeiro esporte escolhido. Aos 10 anos, mostrando habilidade no domínio da bola, conquistou seu espaço na escola de futebol local e chegou a atuar no meio de campo com a camisa 10. Seu percurso, no entanto, foi alterado quando sua visão começou a apresentar problemas. Não conseguia enxergar direito os adversários e o seu desempenho em campo já não era mais o mesmo.

O paratleta Brendow Christian. Foto: Patrícia Sá

Brendow Christian exibe algumas das suas medalhas. Foto: Patrícia Sá / AgênciaUVA

O embaçamento na vista aumentava a cada dia, mesmo depois de ter começado a usar óculos. Nos diferentes consultórios que visitou, a orientação dos médicos era sempre a mesma: precisa aumentar o grau. Enquanto isso, a visão de Brendow só piorava. As pessoas ao seu redor tornavam-se vultos, distinguidas umas da outras apenas pela cor da roupa que vestiam. Também não era fácil identificar os seus companheiros de equipe e os adversários no futebol.

Quando minha visão começou a piorar, eu passei a errar muitos passes, porque não sabia aonde estavam meus companheiros de time. Então, elaborei uma estratégia para identificá-los. Me guiava pelas cores do uniforme e, sempre que via essas cores, passava a bola.

Brendow estava ficando cego. Ao chegar à adolescência, uma oftalmologista, enfim, conseguiu diagnosticar o que estava causando a perda da visão. Ele tinha ceratocone, uma doença de origem genética, que causa má formação na córnea e faz com que o paciente perca aos poucos a amplitude da visão. Sua incidência é rara, cerca de uma a cada 20 mil pessoas no Brasil sofre da doença.

Com apenas 10% da capacidade da visão, já não havia como reverter o quadro. No entanto,era possível tentar impedir o avanço da doença por meio de uma cirurgia, orçada em R$ 10 mil. Era preciso operar logo, mas o pai de Brendow estava desempregado e a mãe não ganhava muito como vendedora de doces e salgados. Para tentar levantar a quantia, o rapaz teve a ideia de alugar sua bicicleta. Paralelamente, ajudava a mãe a preparar os doces para a venda e ainda trabalhava como ajudante de pedreiro.

A cirurgia custava R$ 10 mil; R$ 5 mil para cada olho. Com o aluguel da minha bicicleta para as crianças da vizinhança, consegui levantar R$ 10. E mesmo com a minha mãe trabalhando dobrado, não tínhamos chegado nem perto. Foi só com a ajuda de doações que conseguimos levantar R$ 5 mil.

Com metade da quantia obtida, a família retornou à oftalmologista que havia feito o diagnóstico e se surpreendeu quando ela disse que arcaria com o restante das despesas médicas. O atleta lembra com detalhes de toda a cirurgia: da forma que o olho ficava aberto, enquanto a médica realizava a raspagem da retina, intercalando com a lubrificação do olho com colírio, repetidas vezes. Após o procedimento, Brendow foi mantido em um quarto escuro por cerca de três meses; saía apenas à noite. Também passou a utilizar uma lente de vidro. Mesmo depois de todas essas medidas, não era garantido que ele estava livre da ceratocone; seu gene ainda carregaria a doença e havia a preocupação das córneas voltarem a ser afetadas.

O paratleta Brendow Christian. Foto: Divulgação

O paratleta Brendow Christian. Foto: Divulgação

Mas apesar de todos os contratempos do pós-operatório, o jovem ainda sonhava em seguir a carreira esportiva. Saiu do futebol e abraçou a natação, esporte com o qual se identificava pela infância passada nadando nos rios do interior de Manaus. Sua progressão no esporte estava em alta mas um atraso na inscrição de seu nome o tirou do campeonato estadual de natação.

Com 15 anos queria praticar natação, mas as vagas para a competição tinham se encerrado. Daí fui para a luta, mas as várias lesões me tiraram do esporte.

O atletismo surgiu meio por acaso. Um treinador da equipe amazonense de lançamento de dardo percebeu a boa estrutura física do rapaz e o chamou para treinar. Com os treinos, vieram as vitórias, os títulos e o reconhecimento. O bom desempenho lhe garantiu uma vaga na equipe paralímpica do Sesi (Serviço Social da Indústria) de São Paulo, em 2016.

Em abril (2017), Brendow Christian lançou 43,37 metros e quebrou o recorde das Américas da modalidade no Athletics Open Championship Brasil, realizado no Centro de Treinamento Paralímpico Brasileiro, em São Paulo. O recorde anterior era de 42,27 metros e a melhor marca dele na carreira era de 41,01 metros. Em agosto, fez história ao chegar à marca dos 47,25 metros, durante o Circuito Brasil Loterias Caixa de Atletismo, também em São Paulo. Quebrou seu próprio recorde na classe F12 do lançamento de dardo, de 44,95 metros, obtida nos Jogos Paralímpicos Universitários, mas que não tinha sido homologada.

Agora, Brendow Christian é conhecido como “Demolidor de recordes”. O sonho de ser atleta foi conquistado e novos objetivos foram estabelecidos. Quer disputar os Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2020,  quebrar o record da modalidade e se tornar o primeiro no ranking mundial. Depois de conhecer a trajetória desse recordista, quem duvida que ele chegará lá? Provavelmente, ninguém.

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Brendow Christian  na Universidade Veiga de Almeida, Campus Tijuca. Foto: Patrícia Sá / AgênciaUVA


Gustavo Barreto – 6° período

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