Cresce o número de jovens infectados pelo HIV no Brasil

O último relatório da Unaids revela que 35% dos novos casos são de pessoas com idade entre 15 e 24 anos.

Enquanto avanços são feitos no campo da pesquisa para o tratamento da Aids, os esforços para a prevenção da doença têm se mostrado insuficientes para conter o número de novas infecções. Segundo a última pesquisa divulgada pelo programa da Organização Mundial da Saúde (Unaids), estagnou o número de infecções no mundo, porém, no Brasil, houve um aumento entre 2010 e 2015. Em 2010, aproximadamente 43 mil novos casos foram registrados no Brasil. No ano de 2015, este número subiu para 44 mil, representando 40% das novas infecções. Além disso, a partir de estimativas, o estudo aponta que cerca de 830 mil pessoas vivem com Aids no Brasil atualmente, apresentando um aumento de 18% em relação aos dados apurados na pesquisa realizada na virada da década.

Este é a primeira grande elevação desde 1996, quando, com o Sistema Único de Saúde (SUS), o Brasil conseguiu apresentar uma queda considerável na taxa de mortes associadas à Aids, passando a ser referência no tratamento da doença – hoje em dia, o país apresenta uma das maiores coberturas para o tratamento antirretroviral (TARV) entre os países de baixa e média renda: 64%, 18% a mais que a média global. No entanto, o recente surto da doença entre os jovens brasileiros tem preocupado os órgãos de saúde. As pesquisas apontam que menos de 40% do grupo com idade entre 15 e 24 anos usam preservativo nas relações sexuais, sendo o nicho social com a situação mais alarmante.

images (3)Ainda de acordo com a Unaids, das 5.700 novas infecções registradas em 2015, 35% ocorreram nessa faixa etária. O epidemiologista Fábio Mesquita, diretor do Departamento de DST, Aids e Hepatites virais do Ministério da Saúde, acredita tratar-se de uma questão geracional. “Esta geração é muito mais liberal na sexualidade do que as anteriores e não viveu aquele momento histórico da epidemia dos anos 1980 começo dos 1990, quando era quase impossível ter esperança. Ninguém desta geração teve seus heróis morrendo de Aids, como os cantores Cazuza e Fred Mercury, ou mesmo contraindo Aids, como o jogador Magic Johnson”, explica. Mesquita também acredita que, para a juventude de hoje, a Aids parece uma coisa distante e viver com HIV, neste momento, é ter uma doença crônica manejável que não assusta tanto como antigamente. “Vale ressaltar que o crescimento de Aids na juventude é um fenômeno mundial”.

O epidemiologista ainda afirma que o não uso de preservativo é um problema influenciado por diversos fatores. “Desde da falta de noção da importância até não gostar do uso ou mesmo conhecer outras formas de prevenção que dispensem a camisinha, sobretudo a masculina, que foi posta como única solução durante quase três décadas”, lembra. Ele também destaca o crescimento do conservadorismo como um termo de peso nesta equação. “Impede a discussão de sexo nas escolas ou mais recentemente até em exposições de arte”. E indaga:

Se você não pode falar sobre sexo com a juventude, como pode esperar diminuir o índice de gravidez na adolescência ou aumentar o uso de camisinha nas relações sexuais dos jovens?”

Além disso, existe o medo e o preconceito em relação à doença. O Ministério da Saúde estima que, atualmente, 112 mil brasileiros ainda não sabem que têm a sorologia positiva e 260 mil sabem, mas não estão em tratamento. Mesquita afirma que, quanto mais cedo for feito o diagnóstico e se iniciar o tratamento, maior será o benefício não somente para o indivíduo, mas também para a comunidade. “Se o tratamento for iniciado cedo, será impedida uma série de alterações da fisiologia que ocorrem com a multiplicação do vírus no organismo, e evitará complicações como avançada imunodeficiência (Aids) ou mesmo complicações clínicas que só ocorrem se o vírus se multiplicar em grande quantidade e por muito tempo”. O epidemiologista ainda salienta o impacto do medicamento antirretroviral (ARV) na prevenção da disseminação do vírus, uma vez que ele derruba a carga do vírus circulante no organismo, tornando-a indetectável, assim, o vírus não circula mais no sangue, no esperma, na secreção vaginal e no leite materno, que são os quatro fluidos que podem transmitir o HIV.

Diagnosticado como HIV positivo em 26 de março 2016, o ator e youtuber Gabriel Comicholi, 22 anos, teve de aprender a conviver com o vírus. Morador de Curitiba (PR), ele conta que sempre se preocupou em usar preservativo, mas em algum momento deve ter cometido um deslize e acabou contraindo o vírus. “Sempre me cuidei muito em relação a isso, nunca tive relações sexuais ‘inteiras’ sem camisinha. Imagino que tenha sido esse o meu erro”. Gabriel também relembra que nunca havia se submetido ao teste antes de começar a sentir sua saúde ser afetada. “Eu tive um inchaço nas glândulas salivais e um dia de febre baixa. Desconfiei que fosse caxumba. A médica me pediu uma bateria de exames e um deles era de HIV”.

O youtuber destaca a falta de informação sobre o vírus – o que influenciou sua reação ao receber o diagnóstico de sorologia positiva. “Tive todo tipo de reação possível. Por não conhecer muito sobre o vírus, acho que não fiquei muito apavorado, depois fui ler um pouco sobre e aí que achei que morreria logo. Só estudando mais um pouco que me tranquilizei”. Assim como Gabriel, a família do jovem também não sabia muito sobre o vírus. A notícia foi um choque. “Minha mãe achou que eu estava com Aids, é o que todos pensam de início”, conta, referindo-se ao fato de a Aids ser o estágio terminal da doença, nível a que se chega quando o indivíduo infectado não recebe tratamento. Depois do susto inicial, recebeu todo o apoio da família.

Eles me ajudaram muito a manter calma e a seguir em frente”.

A falta de conhecimento geral sobre o HIV motivou Gabriel a expor publicamente a sorologia positiva. “Eu tinha vontade de quebrar um tabu da sociedade. Sempre fui uma pessoa bem resolvida comigo mesmo, então, me expor não foi um problema para mim, foi uma solução”. Ele explica que este é seu meio de ajudar as pessoas, de transmitir o que sabe sobre o vírus, passo a passo do tratamento, novas descobertas. “Infelizmente, ainda existem muitas pessoas com uma ideia errada sobre o vírus e é isso que eu tento quebrar com o canal”. E, apesar de estar falando sobre um assunto tabu na internet, considerada uma “terra de ninguém”, Gabriel afirma não sentir preconceito. “Sei que ele existe, mas não o sinto. Fui muito agraciado em ter uma família e amigos muito abertos e livres de preconceito. Isso faz com que, pelo menos na minha bolha, eu não passe por preconceito algum”.

Apesar da evolução dos medicamentos desde o AZT – uma das primeiras medicações usadas para o tratamento do HIV durante os anos 1990, mas que causava muitos danos à saúde –, por exemplo, deve-se ressaltar que os tratamentos para o HIV ainda podem apresentar efeitos colaterais, pelo menos a princípio. “Nos primeiros dias de tratamento, tive um tipo de tontura, ficava meio mole, falando engraçado. Hoje em dia, não tenho nenhum efeito colateral, mas sempre tenho o cuidado de tomar o medicamento de estômago cheio, faz diferença para mim”. Para Gabriel, a falta de informação somada à evolução dos tratamentos faz com que os jovens não se preocupem com o HIV como deveriam. “Como eles vão se prevenir de algo que eles não conhecem? Escuto muita gente falando que os jovens sabem que o tratamento é ‘tranquilo’ e por isso não se cuidam. Isso é consequência do tabu que colocam em cima do sexo, uma coisa tão normal”.

Ainda segundo Gabriel, as ações de prevenção realizadas pelo governo e órgãos de saúde são ineficazes. “Ninguém vê os números diminuindo! Isso prova que falar sobre HIV/Aids uma vez por ano não é o bastante. O HIV existe o ano todo”, declara. Por isso, o jovem conta, criou um canal no YouTube, o Canal Gabriel Comicholi (Hdiário), que, de acordo com ele, é o seu próprio canal de conscientização. “Criei o canal para passar todas as informações que eu sei e que aprendo. Lá, eu não preciso esperar a aprovação de ninguém para levantar esta bandeira, eu a levanto diariamente!”. E, desde a criação do canal, conta que muitos aspectos da vida dele mudaram. Ele dá palestras, faz aconselhamento e recebe muitas mensagens diárias de outros jovens, mães, adultos, querendo tirar dúvidas e saber mais sobre o assunto. “Isso me deixa muito feliz, ver que um projeto que começou apenas por uma vontade minha de quebrar um tabu tem dado certo. Não tem preço”.

O epidemiologista Fábio Mesquita explica que as ações governamentais de prevenção mudaram muito nos últimos anos. “Historicamente, a resposta brasileira à epidemia de HIV/Aids é considerada um modelo para o mundo. A questão é que o Brasil tem mudado muito rápido no último ano e meio e a área da saúde tem perdido prioridade. Vamos torcer para que o Brasil não perca esta liderança”. E acrescenta: “contamos com um poderoso e combativo movimento de luta contra a Aids que faz seu papel de controle social nas políticas públicas de saúde, bem como com profissionais de saúde em todo Brasil comprometidos com os princípios do SUS”.

Estigma e iniciativas

Por muitos anos, desde a epidemia da doença, no começo dos anos 1980, foram estabelecidos os chamados “grupos de risco”, ou seja, nichos que estariam mais expostos à contaminação. Atualmente, não se fala mais em grupo de risco, mas em comportamento de risco e contexto de vulnerabilidade social – moradores de rua e usuário de drogas são exemplos deste último. Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), o desuso do termo “grupo de risco” também é uma forma de tentar acabar com o estigma, pois muitas pessoas não iniciam o tratamento por medo do preconceito. Porém, Mesquita afirma que são casos raros. “Uma vez que a pessoa tenha acesso ao diagnóstico, a recusa ao tratamento é muito baixa, apesar do estigma e da discriminação ainda existirem”.

Portador do HIV, o publicitário Lucas Raniel, 25 anos, sofreu com o estigma da doença. Morador de Ribeirão Preto (SP), descobriu que tinha o vírus em dezembro de 2013 e, hoje, possui carga viral indetectável. O jovem acredita ter sido infectado três meses antes por um rapaz que conheceu em um aplicativo de relacionamento. Ele conta que, após chegar embriagado de uma festa, conheceu este rapaz, com quem conversou por algum tempo. Os dois resolveram se encontrar naquela mesma noite. “Foi um descuido da minha parte e creio que também de maldade do rapaz com quem me relacionei naquela noite. Eu estava sob efeitos de bebida e mal conseguia responder com alguma reação corporal para pará-lo naquele momento”.

Lucas afirma ter se preocupado sempre em usar preservativo e que nunca pensou em contrair uma doença por via sexual. Porém, após começar a ficar doente, o jovem foi a uma consulta com um proctologista, que pediu uma bateria de exames, entre eles o de HIV. “Foi o meu primeiro e único teste de HIV antes de saber que tinha a sorologia positiva”. Ao receber o diagnóstico, Lucas conta que pensou em suicídio pela primeira vez, mas o apoio da mãe o fez desistir. Ele também contou com a ajuda dos demais parentes e dos amigos. “Todos ficaram muito tristes e preocupados, mas não saíram do meu lado em momento algum. Devo isso muito a eles”.

Infelizmente, portadores do vírus ainda sofrem com a discriminação e o estigma. Lucas conta que foi espalhado um boato na internet sobre transmissão intencional do vírus. “Esse foi o pior momento, pois é péssimo quando inventam algo de você, e você não consegue se defender, principalmente por conta dos boatos terem surgido de pessoas com perfis fake (falsos)”. Hoje, o publicitário afirma não ter rancor dos responsáveis por espalhar as mentiras. “Eu me tornei quem sou por conta dos boatos e fofocas, então peguei tudo o que havia de negativo circulando com o meu nome, e transformei em algo bom e que ajuda diariamente várias pessoas”, explica.

Este foi um dos motivos que fizeram Lucas revelar a sorologia positiva em um post no Facebook. “De início, eu só queria parar com as fofocas e olhares de dúvida das pessoas, porém, com o tempo, percebi que isso fazia muito bem para as pessoas que passaram e passam por isso também”, relata. Com isso, o paulista começou a se interessar mais em falar sobre o assunto, explicar, divulgar locais de tratamento e testes. “Ainda tem muita gente desinformada e preconceituosa na nossa sociedade”, declara Lucas, que afirma ainda sentir o preconceito, o qual acredita ser oriundo da falta de informação. “Algumas pessoas até se interessam sobre o assunto, querem saber, entender. Outras simplesmente querem ‘tapar o sol com a peneira’ e continuar suas vidas, e esquecer que passei pela vida delas”.

O caso de Lucas se difere do de Gabriel, pois o publicitário acredita ter sido vítima de uma transmissão intencional do vírus HIV. No entanto, ele optou por não denunciar o rapaz, pois, segundo ele, não há como provar que foi proposital. “Justamente pelo fato do burburinho que isso iria gerar na época. E eu já estava com a cabeça num turbilhão de coisas, por conta do diagnóstico. Então, depois de ter procurado o rapaz e ele sumir e me deletar de todas as redes sociais, simplesmente resolvi seguir, sem mágoa no coração”, afirma, apesar das consequências pelas quais teve de passar, como, por exemplo, os efeitos colaterais que sofreu no início do tratamento. “Tive vários pesadelos, falta de apetite, tonturas, alergias. Já alterei minha medicação três vezes; as duas primeiras foram por efeitos colaterais fortíssimos”, lembra.

A respeito dos números de jovens infectados com o HIV divulgados pela Unaids, Lucas acredita que a falta de visão sobre a epidemia dos anos 1980 e 1990 faz com que os adolescentes de hoje não deem tanta importância para o risco de transmissão.

Muitos nem sabem que a doença ainda permanece ativa na nossa sociedade, acham que acabou, que não existe mais”.

Por isso, o publicitário afirma que a geração atual também é seu foco. “Estão começando a vida sexual cada vez mais cedo e se protegendo menos. Pensam sempre na gravidez precoce como único aspecto com que se preocupar”. Lucas atribui isso à falta de educação sexual de forma massiva nas escolas e universidades, mas acredita que as ações de prevenção são eficazes na medida do possível. “E creio também que, com o avanço das tecnologias, ficará mais fácil e as transmissões diminuirão”.

Lucas tem falado sobre o tema em entrevistas não só em sua cidade, mas também fora do país, como na BBC International. Aliás, as entrevistas concedidas à corporação britânica de notícias teve grande repercussão na internet e impactou a rotina do rapaz. “Muitas pessoas me veem como referência e como porto seguro para contar suas histórias e para tirar dúvidas, constantemente, pelas minhas redes sociais”, relata. Apesar da mudança em sua vida, Lucas afirma não se incomodar. “É algo que faço com e por amor, e nunca irei reclamar por conta disso, pois é a maneira que encontrei de transformar um ‘problema’ em algo eficiente na sociedade”. O publicitário também conta ter projetos futuros que envolvem um canal no YouTube e conversas com jovens em escolas e universidades.

Outras formas de prevenção

Durante os últimos 30 anos, acreditou-se que a camisinha masculina era o único meio de se proteger da infecção do HIV, no entanto, atualmente, existem outras maneiras de fazê-lo. O epidemiologista Fábio Mesquita explica que, hoje em dia, os órgãos de saúde utilizam um conceito de Prevenção Combinada, que inclui o preservativo feminino, o exame pré-natal para evitar contaminação de mãe para filho e a circuncisão masculina. “Em epidemias generalizadas, como na África Subsaariana, a circuncisão diminui a transmissão do HIV em 60%”, conta.

Além disso, ainda existem outras formas de prevenção por meio do uso do ARV, como o Tratamento Como Prevenção (TASP, na sigla em inglês), que possui duas vertentes. A primeira delas é a PEP, sigla para Profilaxia Pós-Exposição. Consiste em tomar a medicação durante 28 dias após uma possível exposição ao vírus, como acidentes profissionais com material biológico, violência sexual e acidentes durante o sexo seguro, entre os quais estourar a camisinha ou esquecer de usá-la.

Já a segunda vertente é a PrEP, sigla para Profilaxia Pré-Exposição. Toma-se preventivamente o HIV em 2 comprimidos, cerca de duas horas antes da relação sexual, mais outro par de comprimidos em até 48 horas após o ato, e seguir tomando a medicação de acordo com o Protocolo do PrEP Brasil, pois há variações de acordo com o país. Segundo Mesquita, em ambos os métodos, o ARV impede a multiplicação viral. “Mesmo que o indivíduo tenha contato sexual, compartilhamento de seringa ou situação de aleitamento materno com a outra pessoa, ela estará protegida”, afirma.


Daniel Deroza – 6º período

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