Cariocas viram reféns da violência no Centro do Rio

Os moradores do Rio de Janeiro estão cada dia com mais medo de andar pelas ruas do Centro da cidade. São muitos os relatos de assalto e violência praticados principalmente por menores de idade. A secretária Marina Cordeiro, 30 anos, conta que estava parada em um ponto de ônibus na Avenida Rio Branco, por volta das 18h, quando presenciou um assalto: “Estava esperando o ônibus, quando notei uma movimentação estranha de um grupo de garotos, depois de uma senhora de cerca de 70 anos sair do banco. Um dos meninos puxou a bolsa e saiu correndo. Um homem viu e correu atrás do ladrão, mas o garoto passou a bolsa para outro integrante do grupo. A polícia até veio, mas eles foram soltos logo em seguida; eram menores”.

Segundo dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), somente na área do Centro foram aproximadamente 3.374 ocorrências de furtos nos meses de janeiro, fevereiro, março e abril de 2017. Apesar de ter ocorrido redução de furtos de aparelhos celulares, eles ainda somam 683 notificações. Quanto ao total de roubos, foram 2.908, no mesmo período. “Olha, sinceramente, eu acho que a população não colabora com o nosso trabalho. Muitas pessoas são assaltadas e não querem se dar ao trabalho de ir à delegacia mais próxima e fazer um B.O. (boletim de ocorrência)”, diz um policial que prefere não se identificar.

Ação de um menor de idade no Centro do Rio de Janeiro

Ação de um menor de idade no Centro do Rio de Janeiro. Foto: reprodução da TV

Para alguns moradores e frequentadores do Centro, investir em educação, não andar com os pertences à mostra, aumentar o policiamento e reduzir a maioridade penal são possíveis soluções para o problema da violência no bairro. Comerciante há 30 anos no Largo da Carioca, Maria de Fátima Barbosa, 59 anos, acredita que o policiamento é pouco:

Tem mais agente da Guarda Municipal para pegar o material dos trabalhadores do que policial militar para pegar bandido. Também não é bom andar por aqui com joias ou celulares.”

Muitas vezes são os próprios guardas que acabam fazendo o trabalho da Polícia Militar. Líder operacional da Guarda Municipal, o capitão Washington, 43 anos, afirma que, por estar mais próximo do local, acaba fazendo a ocorrência. “Já aconteceu de pegarmos o mesmo menor várias vezes. Por aqui, são cerca de 30 a 40 ocorrências pela manhã”. Quando o menor de idade é pego, a Guarda Municipal o encaminha para a Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA).

“A população tem que parar de achar que a polícia é culpada. As pessoas devem evitar andar com seus pertences à mostra. Hoje, te roubam; amanhã, te matam. O problema acaba virando uma bola de neve”, diz o capitão Lyra, da Polícia Militar, que fica alocado na cabine do Largo da Carioca. Para ele, a esperança é de que as leis mudem para melhorar o trabalho da Polícia Militar.

Além do Largo da Carioca e da Avenida Rio Branco, outros pontos visados pelos assaltantes são a Avenida Presidente Vargas e a Praça Tiradentes. O assessor de imprensa Rodolfo Franco, 30 anos, já sofreu duas tentativas de assalto nesses locais. No início do ano, estava curtindo o carnaval com seus amigos na Praça Tiradentes quando foi abordado por um menor de aproximadamente 11 anos, que pediu o celular. O jornalista reagiu e foi agredido por um outro menor que dava cobertura ao colega. “A viatura da polícia que estava no local não fez nada no momento da briga e nem durante a tentativa de assalto”.

O segundo episódio aconteceu uma semana após o primeiro roubo. Rodolfo conta que estava saindo do metrô na Avenida Presidente Vargas quando percebeu que estava sendo seguido por um garoto. “Percebi que ele estava me acompanhando. Ele sacou uma faca e eu pulei da escada. Acabei machucando a perna”. Rodolfo conta ter ouvido vários relatos de amigos sobre tentativas de assalto no Centro: “Dois amigos foram assaltados e sofreram agressões”. Para o jornalista, a redução da maioridade penal não é a solução para esse problema, mas sim a melhoria da educação e mais policiamento.

Denúncias na rede social

Também é possível saber de casos de roubo e de assalto no Rio de Janeiro por meio de páginas criadas na rede social. Diariamente são postadas denúncias em textos, fotos e filmagens no Facebook. Um exemplo é a página “Rio de Nojeira”, criada no dia 25 de fevereiro de 2016 com o intuito de cobrar mais seriedade dos governos em relação à segurança da população e de alertar cidadãos e turistas sobre os perigos da cidade.

Cuidado! Muitos pivetes pelo Centro agora! Acabei de filmar um assalto! Não tem jeito! São mais de dez juntos”, alerta um usuário na postagem na página.

O criador da “Rio de Nojeira” prefere manter o anonimato, apesar de ser expor muitas vezes ao revelar na página, por exemplo, onde trabalha no Centro. Em uma das postagens mais recentes, agradece a preocupação das pessoas com a segurança dele. “O medo de não ter feito nada para mudar é pior pra mim. Pessoal, obrigado pela preocupação. É lógico que tomo cuidado e ando com cautela. Tenho que tomar cuidado? Sim, porque sei que isso não é uma brincadeira”. Ele conta ter começado por acaso, mas que a adesão cresceu tanto que acabou virando uma “obrigação” e um “objetivo”. Hoje, a página tem quase 317 mil curtidas.

O dono da “Rio de Nojeira” afirma ainda ser contra a redução da maioridade penal e diz que alguns dos adolescentes envolvidos nos roubos têm casa e família. “A educação é uma das soluções para que esses menores continuem em suas ruas, e também mais oportunidade de trabalho. Quanto mais emprego, menos gente na rua cometendo delitos”.

A rede social também é usada por quem desrespeita as leis e comete crimes. Ameaças são postadas em uma página chamada “Coreto”: “Aqui é o bonde do Coreto, se nós for preso hoje, amanhã nós tá na pista roubando de novo. Enquanto não houver justiça pros pobres, os ricos não terá paz”.

Parceria para reconhecer menores infratores

Para ajudar na identificação de criminosos, a DPCA vem fazendo parcerias com administradores dessas páginas no Facebook, para a criação de um banco de dados, como a que existe com a “Rio de Sujeira”. Ao prestarem queixa, as vítimas vêem fotos de suspeitos, aumentando as chances do reconhecimento dos menores infratores. “Esse tipo de página é um viés de investigação importante, que utilizamos muito para conseguir chegar num resultado satisfatório”, afirma o delegado titular da DCPA Alessandro Petralondra. Para o dono da página “Rio de Sujeira”, a colaboração poderia ser melhor aproveitada: “É uma parceria meio fraca, porque nem todos os conteúdos são analisados”.

Quando é flagrado furtando, o menor infrator é levado para a DPCA, para que passe por alguns procedimentos, como a verificação de estar ou não portando armas.  Se não existir ato infracional análogo ao crime, ele é encaminhado para um abrigo e quem passa a tomar as medidas cabíveis é o Conselho Tutelar. Mas se for preciso apreendê-lo, o menor infrator é levado para o Departamento Geral de Ações Socioeducativas (Degase), ficando à disposição da Vara da Infância e Juventude.

O trabalho social das ONG’s e das instituições oficiais de proteção, como o Conselho Estadual de Defesa da Criança e do Adolescente (CEDCA) e a Fundação para a Infância e Adolescência (FIA), tem inicio com a chegada do adolescente ao Degase. Esses órgãos têm o papel de reinserir esses jovens na sociedade, quando se encontram em circunstâncias de vulnerabilidade. As organizações trabalham em conjunto. O objetivo é defender os direitos da infância e adolescência em projetos como de interesse do Sistema de Promoção da Garantia dos Direitos das Crianças e Adolescentes.

O teto da medida socioeducativa privativa de liberdade é de, no máximo, três anos, independente de qualquer crime, ou seja, o autor de atos infracionais só pode ser detido por esse tempo. Quando ocorre remissão da pena, o jovem – entre 12 e 18 anos – passa a cumprir uma medida socioeducativa de Prestação de Serviço à Comunidade (PSC), curso para reingressar na vida social. Há também a Liberdade Assistida (LA), a Semiliberdade e a Internação, que são de responsabilidade da Secretaria de Estado de Políticas para Crianças, Adolescentes e Juventude, por meio da Subsecretaria do Sistema Socioeducativo, segundo o Tribunal de Justiça.

A solução do problema

Esses jovens são moradores de comunidades carentes que não são abraçados pelo tráfico. Eles vão para as regiões como Centro, Copacabana e Largo de Machado para tentar praticar o roubo. Por meio do inquérito policial, a DPCA investiga se tem alguém por trás dos menores que são apreendidos. No entanto, raramente consegue-se identificar o adulto que está incentivando o adolescente a cometer esses atos.

Escolas com boa infraestrutura, materiais de qualidade e professores dispostos a ensinar parecem ser a saída ideal para impedir que crianças e adolescentes entrem no crime e para resgatar aqueles que já entraram. Para muitos dos entrevistados pela reportagem, quando o jovem se interessa pelo estudo, a chance de seguir pelo caminho do crime é bem pequena. Para o jornaleiro Marcelo Santoro, 45 anos, que já foi assaltado três vezes, a educação tem que ser prioridade do governo:

Os políticos devem dar mais educação para evitar que as crianças se percam”.

A diminuição da maior idade penal como solução é aceita por poucos. O estudante de teatro Moisés Duarte, 23 anos, é um dos favoráveis à ideia. “Eu concordo com a redução da maioridade penal em relação a todos os crimes. É importante saber que o crime não compensa”. Para parte dos entrevistados, a mudança na lei serviria inicialmente para assustar os jovens infratores, mas dificilmente ajudaria a acabar com o problema.

Há consenso entre os entrevistados sobre ser preciso aumentar o policiamento. “Não tinha nenhuma viatura no local quando fui assaltado. É um absurdo. Fiquei atracado com o bandido até a polícia chegar”, conta o enfermeiro Rodrigo Alecrim, 27 anos, assaltado depois de sair do hospital onde estava de plantão.


Taianne Coelho – 8° período

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