Artista exibe nudez em série de fotos para provocar reflexão sobre o corpo feminino

Motivada por relatos de assédio sofridos por mulheres no Brasil e que ganharam a atenção da população na “primavera feminista brasileira” em 2015, a artista Ana Emília decidiu montar um ensaio fotográfico no qual as imagens remetessem à ideia da violência sofrida pela mulher, tanto física quanto psicológica. Impressas em grandes formatos, as imagens exibem partes do corpo feminino. Doutoranda no Programa de Pós-graduação em Artes da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Ana Emília colou a série de fotografias em vários pontos da cidade do Rio de Janeiro, a fim de fazer o transeunte se questionar sobre o que estava vendo nos retratos.

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Uma das fotos produzidas por Ana Emília [foto: Explore SV/divulgação]

A artista define a proposta do trabalho como uma experiência que varia tanto de pessoa para pessoa, quanto em relação ao ambiente onde ele é exposto. “Antes de buscar passar uma mensagem, busco perguntar às pessoas que mensagem as minhas imagens passam para elas. Os retratos que criei são impressos em papel e colados nas ruas. No espaço público, cada um pode dizer o que pensa sobre o que está vendo. Essa ideia surgiu quando apresentei as imagens para duas pessoas. Uma delas me disse que os retratos eram eróticos, sensuais, que remetiam a uma relação sexualizada. A outra me disse que enxergava ali uma cena de violência, que aquela pessoa retratada parecia sofrer, querer sair da imagem. Eu realmente acho que a série de imagens que criei carrega essa dualidade”.

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Amostra de fotos da Ana Emília [foto: Agência Criativa/ divulgação]

Diferentemente da performance do artista Wagner Schwartz no Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo, vista por alguns grupos conservadores como erótica e pervertida, a nudez presente nos retratos de Ana Emília não foi alvo de preconceito ou ataques de ódio, segundo a artista, e as críticas têm sido positivas. “Não houve nenhuma crítica destrutiva, só críticas que contribuíram para a leitura e para o amadurecimento do trabalho. Gosto de exercitar a escuta e acredito que a luta por uma sociedade melhor passa pelo diálogo e não pelo rechaçamento. Pessoas nas ruas vieram me questionar sobre o corpo nu e tive a oportunidade de conversar pessoalmente sobre o propósito do trabalho”.

Para Ana Emília, o ocorrido no MAM exemplifica o pensamento contrário a todo avanço obtido pelo meio artístico nos últimos anos. “Fico com vergonha por ter esse tipo de polêmica no Brasil em 2017. O performer (artista), ao fazer uma leitura dos célebres trabalhos de Lygia Clark “Bichos”de 1960, se coloca imóvel e nu na galeria de um espaço cultural.  As pessoas podem tocar no corpo e movimentar o seu  corpo. Com sua performance, o artista critica a valorização das esculturas articuladas de Lygia, que valem milhões e não podem sequer serem tocadas, apesar de terem sido criadas para serem manipuladas. Faz essa relação colocando seu corpo em obra, criando paralelos entre o valor da escultura e o valor do trabalho do artista ali presente”.

A série de fotografias da artista Ana Emília também está exposta no site do projeto Explore SV.


Gustavo Barreto – 6º período

 

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