Jovem da pós-modernidade enfrenta transtornos de ansiedade e depressão

As inesgotáveis possibilidades contemporâneas de constituição do sujeito aumentam a ansiedade na geração smartphone.

Na contemporaneidade, há propagação contínua de informação pelos meios de comunicação, sobretudo pelas mídias sociais. Os nascidos entre meados da década de 1990 e início dos anos 2000 passaram a adolescência inseridos nessa nova realidade. Eles têm acesso a conteúdos que oferecem diversas possibilidades de entretenimento e conhecimento. Na juventude, deparam-se com a abundância de alternativas de comportamento, consumo e atividade profissional que não apenas influenciam na construção da identidade dos jovens, mas também no perfil e no futuro deles no mercado de trabalho.

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Para Lucas Sant, a geração nascida nos anos 1990 não foi preparada para sofrer. Fotos: divulgação

Em livro recém-publicado, a psicóloga norte-americana Jean Twenge complementa essa reflexão. Na obra intitulada iGen: why today’s super-connected kids are growing up less rebellious, more tolerant, less happy – and completely unprepared for adulthood (em tradução livre, iGen: por que as crianças superconectadas crescem menos rebeldes, mais tolerantes, menos felizes – e completamente despreparadas para a idade adulta), a professora da Universidade Estadual de San Diego revela que as pessoas da geração smartphone estão crescendo menos preparadas para a vida adulta do que as das gerações anteriores.

Essa juventude passa por menos experiências, é mais dependente e tem dificuldades para tomar decisões, de acordo com a pesquisa de Twenge. O resultado é uma geração pós-moderna com altos níveis de ansiedade. E quando a ansiedade é muita, pode virar doença. No Brasil, 9,3% das pessoas em geral têm algum transtorno de ansiedade, segundo dados divulgados neste ano pela Organização Mundial da Saúde (OMS), fora os 5,8% que desenvolvem um quadro depressivo.

Esse contexto social da ansiedade nos jovens é reconhecido pelo estudante de Biblioteconomia Lucas Sant, 21 anos, que foi diagnosticado por uma psiquiatra e hoje faz terapia em grupo. “Sempre falo que o pessoal que nasceu nos anos 1990 teve tudo na mão. Nós não aprendemos a sofrer, a nos permitir sofrer e a aprender com o sofrimento, tornando-nos pessoas duras por fora, mas muito frágeis por dentro. Por isso que quando passamos por um baque hoje, por menor que ele seja, desmoronamos”, reflete.

A experiência de Lucas com o transtorno se tornou uma questão para a vida dele após o ensino médio, momento em que percebeu que algo estava errado. “Quando tudo pareceu ficar tão grande e eu tão pequeno, como se não fosse mais dar conta de absolutamente nada”. Ele sentia uma angústia profunda que o levava à melancolia. Em seguida, vinham o choro, a falta de ar e, às vezes, a agressividade. “Esses eram os meus sintomas físicos, porque por dentro, em minha cabeça, nunca sabia o que estava acontecendo. E isso é o mais agoniante”, conta o estudante, que está há um tempo sem ter crises.

Domenica Lyra acredita que as responsabilidades da vida adulta desencadearam a crise de ansiedade

Domenica Lyra acredita que as responsabilidades da vida adulta desencadearam a crise de ansiedade

Os sinais do transtorno de ansiedade, na verdade, variam. De acordo com o psiquiatra José Durval, não existe sintoma específico, porque é muito pessoal. “A ajuda profissional para lidar com a ansiedade será essencial a partir do momento em que o indivíduo não tiver mais condições de desempenhar as funções dele”. E a psicanalista Ana Maria Rudge acrescenta que não conseguir sair de casa nem socializar são indícios de que um tratamento é necessário. “Voltar a se relacionar com as pessoas e a trabalhar são bons sinais, já que estes são os esteios da vida da gente”, explica.

A maneira como o distúrbio se relaciona com a vida social e com o desempenho profissional é bem compreendida pela estudante de Moda Domenica Lyra, 22 anos. O problema começou quando a jovem ingressou na faculdade e, em sequência, arrumou um emprego. “Tem a ver com o ritmo acelerado de vida atual e com a bagagem de ‘se tornar adulto’. Essa passagem acontece de forma muito abrupta – ao menos foi para mim. Então, quando eu passei a ter responsabilidades maiores e reais, não consegui acompanhar, e meio que me afobei, o que gerou esse transtorno em mim”.

A combinação ansiedade e insegurança gera ainda mais impactos no dia a dia da estudante. Apesar de tentar evitar situações que provoquem isso, Domenica já passou por momentos angustiantes, como quando teve que trabalhar para uma pessoa que considerava rígida. “Fazia eu me sentir incapaz de amarrar os cadarços. Mal conseguia dormir pensando que o dia seguinte seria tão ruim quanto o anterior”, desabafa. Ainda assim, a jovem reconhece que o quadro dela não é um dos mais graves. “Consigo sair de casa e socializar minimamente, mas o pouco que me afeta já me deixa frustrada”.

Nataly Vidal conta com os amigos para lidar com a ansiedade

Nataly Vidal conta com os amigos para lidar com a ansiedade

Relacionar-se com as pessoas que ama é a resposta de Nataly Vidal, 22 anos, para esse mal. Formada em Recursos Humanos, a jovem enfrentou momentos difíceis recentemente que, combinados com a ansiedade, resultaram em sofrimento ainda maior. “Porém, hoje, eu sempre faço o possível para controlar meus pensamentos e procuro estar perto dos meus amigos. Dessa forma, eu controlo sem muito esforço essa angústia que tira meu sono”.

O estudante de economia Pedro Neto, 21 anos, também não consegue dormir. Pedro nunca foi diagnosticado com o transtorno por um profissional, no entanto, enfrenta alguns dos sintomas desde a infância, o que faz ele acreditar em fatores genéticos como causa. Ainda assim, reconhece que o ritmo da sociedade influencia. “Eu não passo por crises. Porém, às vezes, sinto uma pequena febre durante a realização de provas, dificuldade para dormir e apetite exacerbado. Na verdade, estes dois últimos são os piores momentos para mim”.

Não conseguir dormir e comer demais são características da ansiedade de Pedro Neto

Não conseguir dormir e comer demais são características da ansiedade de Pedro Neto

De fato, há diferenças na maneira como cada um será afetado pela ansiedade. E as causas dela também variam. Para lidar com situações mais graves, pedir a ajuda de um profissional, da família ou de amigos é importante. Entretanto, nesta era chamada por teóricos como Zygmunt Bauman de pós-modernidade, a fluidez é própria do indivíduo e a imprevisibilidade do futuro uma peculiaridade. O resultado são pessoas ansiosas para definir quem são ou no que se transformarão. As tecnologias da informação e da comunicação, que bombardeiam os jovens de possibilidades, são a base do fenômeno.

No entanto, para os otimistas, um consumo consciente é possível, como propõe Clay Johnson no livro The information diet: a case for conscious consumption (em tradução livre, A dieta da informação: um caso para um consumo consciente). “Assim como em uma dieta alimentar saudável, uma dieta da informação saudável tem consequências e podem não apenas reduzir o estresse, mas também ajudar a viver mais e feliz”.


Jefferson Alves – 6º período

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