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Nos 100 anos da Animação Brasileira, ilustradores traçam panorama no gênero

Há 100 anos era lançado o filme “O Kaiser”, a primeira animação brasileira. Pouco conhecida atualmente, a produção de poucos segundos tem uma importância histórica para ilustradores e designers. A estreia do curta de Álvaro Marins em 1917 é comemorada pelos profissionais da área mostrava uma charge com o ditador alemão Guilherme II, que colocava um capacete representando o globo terrestre e era engolido pelo acessório; uma imagem bem simbólica, uma vez que, neste mesmo período, acontecia a I Guerra Mundial.

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única imagem restante de “O Kaiser”, de Álvaro Marins [foto: Reprodução da Internet].

No entanto, apesar da importância e do pioneirismo do trabalho de Marins, a falta de incentivo à animação brasileira fez com que o filme não fosse preservado, perdendo-se ao longo dos anos, e deixando para a posteridade uma única imagem. No documentário “Luz Anima Ação”, de 2013, Eduardo Calvet traça um panorama do gênero em terras tupiniquins e mostra que o descaso do Brasil com as animações vem se perpetuando. “É o resgate de uma arte brasileira. Havia pouco material produzido, poucos registros. ‘O Kaiser’ é uma obra perdida, infelizmente”, declara.

Além do filme de Álvaro Marins, o trabalho de outro ilustrador também é exaltado. O cearense Luiz Sá começou a se destacar ao publicar tirinhas na revista infantil “O Tico-Tico”. Logo, as personagens Reco-Reco, Bolão e Azeitona ganharam fama. Sá resolveu expandir o projeto e criou a série de curtas “As Aventuras de Virgulino”, em 1939. Porém, conforme as obras do cartunista ganhavam corpo, também aumentam as dificuldades encontradas por ele.

Em 1941, quando Walt Disney visitou o Rio de Janeiro, Sá queria mostrar as produções dele ao ídolo das animações. Para isso, teria de pedir autorização ao Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), criado durante o governo de Getúlio Vargas. O órgão censurou o trabalho do cartunista e o impediu de mostrá-lo ao Disney, alegando que “a estética dos desenhos era muito primitiva e seria vergonhoso apresentá-los ao ‘rei das animações’”. A censura teve um efeito desestimulante em Sá. Ele resolveu vender as fitas para uma loja de equipamentos de proteção que as picotava e dava de brinde a quem comprasse um projetor. De acordo com Calvet, historicamente, casos desta natureza são comuns no Brasil. “A animação brasileira tem um passado trágico”, afirma, pesaroso.

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Luiz Sá [foto: Reprodução do Internet].

Outro exemplo foi Anélio Latini Filho que, em 1953, após cinco anos de trabalho, fez uma tentativa no ramo das animações com o longa “Sinfonia Amazônica”. A produção fez considerável sucesso, chegando, inclusive, a ganhar o Prêmio Saci, um dos mais importantes galardões do cenário cultural à época. No entanto, o reconhecimento da obra não teve o efeito que Latini esperava, já que ele não recebeu nenhum apoio para futuras produções, fazendo com que o cartunista desistisse de vez das animações.

Apesar da dificuldade de realização, da falta de incentivo e de desistências como a de Sá e Latini, alguns ilustradores persistiram nas animações, conseguindo alcançar patamares altos entre os profissionais da área. Este é o caso de Roberto Miller, o primeiro brasileiro a ter uma experiência de estágio fora do país, na National Film Board of Canada (NFB), e que seguiu o caminho de seu tutor, Norman McLaren. Uma das maiores referências em termos de inovação em técnicas de animação, McLaren “iniciou” Miller no campo dos filmes experimentais, entre os quais destacam-se “Sound Synthetic”, “Rock and Roll” e “Sound Abstract”. Este último recebeu uma Medalha de Ouro no Festival de Bruxelas, em 1957, e uma Menção Honrosa no Festival de Cannes, em 1958. Miller foi o primeiro produtor brasileiro de animações a receber prêmios internacionais, como Calvet conta: “Isso em uma época em que as inscrições em festivais eram feitas sem as facilidades tecnológicas de hoje, via emissão postal, e, por causa disso, muitos filmes se extraviavam”.

Anos 80 – A era de ouro

Com os primeiros passos em direção ao reconhecimento internacional, a animação brasileira chegou ao auge alguns anos depois, durante os anos 1980, quando passou a desempenhar papel principal na publicidade nacional. Surgiam campanhas consideradas icônicas e que são lembradas até hoje, como a do biscoito Tostines (do famoso slogan “Vende mais porque é fresquinho, ou é fresquinho porque vende mais?”) e as coloridas propagandas da Faber Castell (na época, quase sempre, embaladas pelos versos da canção “Aquarela”, de Toquinho). Vale lembrar que as campanhas de ambas as marcas foram obra de Walbercy Ribas. Ele também está por trás da série de filmes “O Grilo Feliz’, cujo primeiro volume foi lançado em 2001.

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[foto: Reprodução da Internet].

Outro nome que alcançou o topo nessa mesma década, foi Maurício de Sousa, que já havia produzido o especial “O Natal da Turma da Mônica”, em 1976, mas entrou de verdade no mundo das animações quando seu personagem Jotalhão se tornou garoto-propaganda da linha de extrato de tomate “Elefante”, da Knorr. Com o sucesso da empreitada, o criador da Turma da Mônica resolveu investir no cinema. Em 1982, ele lançou “As Aventuras da Turma da Mônica”, um sucesso de público que atraiu quatro milhões de espectadores enquanto esteve em cartaz, sendo uma das maiores bilheterias daquele ano e uma das maiores de uma animação brasileira da História.

Com a boa aceitação, a empresa Maurício de Sousa Produções passou a investir em longas de animação, como “A Princesa e o Robô”, que se tornou um clássico dos anos 1980 e já serviu de inspiração até para o mangá “O Brilho de um Pulsar”, do seguimento Turma da Mônica Jovem, em 2008/2009. “Ao final daquela década [anos 1980], já estava fazendo um filme por ano, todos com grande público”, relembra Maurício de Sousa em cena do documentário “Luz Anima Ação”. Porém, após o período do boom de animações brasileiras, veio o declínio na década 1990, quando se tornou cada vez mais difícil produzir e comercializar uma animação em território nacional, sendo um período de escassez para o gênero.

Anos 90 – A era das trevas

Durante os anos 1990, a animação foi afetada pelo fechamento da Embrafilme – empresa estatal produtora e distribuidora de conteúdo cinematográfico – pelo Programa Nacional de Desestatização (PND), do governo de Fernando Collor de Mello. O decreto, publicado em 16 de março de 1990, atingiu não somente as animações, mas o cinema nacional como um todo, uma vez que a distribuição de produções passou a ser realizada pela iniciativa privada. Assim, os produtores tiveram de encontrar uma forma independente de realizar este trabalho.

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[foto: Reprodução da Internet].

Um dos nomes que mais se destacou neste período foi Otto Guerra, diretor de “Rocky & Hudson”, filme inspirado nas tirinhas de Adão Iturrusgarai sobre dois cowboys e que se tornou um clássico trash dos anos 1990. Guerra, ao falar de seu trabalho, destaca não somente o fato de ter conseguido destaque em um período difícil para os ilustradores, mas também a temática da produção. “Em 1994, ‘Rocky & Hudson’ já mostrava um casal de cowboys gays, muito antes de ‘Brokeback Mountain”, brinca.

Neste mesmo momento de “seca” na produção nacional, dois ilustradores resolveram tomar uma iniciativa para fomentar o cenário da animação nacional. Assim, em 1993, Marcos Magalhães e Aída Queiroz criaram o AnimaMundi, que hoje é o segundo maior festival de animação do mundo e o maior da América Latina. No entanto, na época de sua criação, o evento se limitava a uma única sala de exibição no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), no Rio de Janeiro. Ambos os criadores afirmam que a ideia do Festival Internacional de Animação do Brasil – nome oficial da organização – surgiu pela falta de opções dos ilustradores para exibir seus trabalhos.

Outra figura brasileira que começou a criar seu nome na década de 1990, mas fora do Brasil, foi Carlos Saldanha. Nos Estados Unidos, trabalhou na produção de “Bunny”, que levou os Oscar de Melhor Curta de Animação, em 1999, e, depois, esteve envolvido em filmes de peso, como “A Era do Gelo”, de 2002, do qual foi co-diretor e assumiu o posto principal nas duas produções seguintes da franquia, e foi o idealizador e diretor de “Rio” e “Rio 2”, que configuram entre as maiores bilheterias da história do cinema mundial. “Nos Estados Unidos, a animação é uma indústria”, ele afirma para a câmera de Calvet. A ilustradora Rosana Urbes, indicada ao Grande Prêmio do Cinema Brasileiro pelo curta “Guida”, aponta isso como a diferença entre os Estados Unidos e o Brasil no campo da animação: “No Brasil sobra talento, mas falta dinheiro”,.

A animação nos dias de hoje

Conhecendo o histórico de dificuldades em se produzir animação no Brasil, muitos ilustradores e designers se sentem desestimulados a investirem em seus próprios projetos, uma vez que parece não haver mercado e, portanto, não haveria maneira de subsistir. Este é o caso de Ana Flávia Marcheti, autora do recém-lançado livro “Trajetória do Cinema de Animação no Brasil”. Marcheti conta que sempre quis trabalhar com animação, mas achava que não tinha como viver disso no Brasil e, por isso, foi para a faculdade de Design, onde, no meio do curso, pôde ver o cenário brasileiro sob outro ângulo. “Tive uma aula de Introdução à animação e conheci vários curtas nacionais”, ela lembra.

Estimulada pela nova descoberta, Marcheti buscou por livros que falassem mais sobre animações brasileiras, pois queria fazer o seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) sobre o assunto, mas não encontrou nada que fosse realmente aprofundado. Terminada a faculdade, Marcheti, que hoje é storyboarder, resolveu escrever ela mesma um livro a respeito, o que a fez ingressar em um trabalho de pesquisa de quatro anos, além do preparo gráfico da publicação. Lançado na última passada, o livro foi fruto de um projeto de crowdfunding, o Catarse. “Eu pensava em ir para fora do país e trabalhar em um grande estúdio. Quando eu descobri o mercado brasileiro, fiquei chocada e maravilhada. Por isso que é importante falar de nós para nós, não fazer mais do mesmo, tentar trazer algo novo”, declara.

Atualmente, com o mercado de animações brasileiras sendo reconhecido como algo possível, eventos que tragam o assunto à tona são importantes para que este nicho da produção audiovisual não entre em declínio de novo, como aconteceu durante a década de 1990. Um destes eventos ocorreu na última segunda-feira (18), no campus Tijuca da Universidade Veiga de Almeida ,com o debate “A Importância do Resgate da Memória Animada Brasileira”, que contou com a presença de Eduardo Calvet e Ana Flávia Marcheti. Eles levaram aos alunos presentes – a maioria do curso de Design Gráfico, Ilustração e Animação Digital – informações sobre o mercado que talvez poucos soubessem até então como, por exemplo, que desenhos de sucesso tanto no Brasil quanto no exterior – como “O Amigãozão”, “Peixonautas”, “Anabel”, “Irmão do Jorel” e “Tromba Trem” – são produções nacionais.

Durante sua fala, Calvet salientou a importância de eventos que relembram a História da animação brasileira. “Trata-se de falar das raízes, guardar a nossa história, as nossas memórias, saber de onde viemos”, afirma. O ilustrador e documentarista também relembra o papel que as animações desempenham em momentos sócio-políticos difíceis. “Em momentos conturbados, de repressão, surgem grandes obras e isso é histórico. A animação sempre fez isso. Já na época da ditadura, quando fazer um curta custava, pelo menos, 50 mil dólares. É importante lembrar destes heróis do passado até para inspiração”, exalta.

A respeito do ingresso de novos profissionais no ramo e até mesmo estudantes de outras áreas que se interessarem pelo tema, Calvet e Marcheti tranquilizaram os universitários. “Nesse meio todos costumam ser muito receptivos, abertos a todos que se interessam. Na animação existem poucos egos inflados. O animador tende a ser mais introspectivo, mas quer exibir suas obras para os outros, então eles não costumam negar informação”, explicou Calvet. Outro ponto ressaltado pelo ilustrador são os problemas que ainda persistem na produção de uma animação no Brasil. “Tem uma diferença em relação a outras produções audiovisuais. A animação tem um tempo de ‘gestação’, que é um longo processo, então o mercado brasileiro ainda depende muito de editais”, explica. E, para encerrar, Marcheti lembrou da importância de um trabalho colaborativo, destacando organizações como o Centro Técnico Audiovisual (CTAV), do Ministério da Cultura. “É só a gente ser ativo e colaborativo. O cinema é feito de colaboração e tem muita gente querendo colaborar”, afirmou.


Daniel Deroza – 6º Período

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