Em mesa LGBT, youtubers debatem representatividade na literatura

Os digital influencers Lorelay Fox, Maicon Santini, Renato Plotegher foram os convidados da Arena #SemFiltro – a mediação ficou a cargo de Felipe Cabral – nesta 18º edição da Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro, que trouxe à baila questões relacionadas à representatividade e a chamada Literatura LGBT, nicho que vem crescendo no Brasil nos últimos tempos, apesar de já ser consolidado em outros países. E o trio de convidados não foi escolhido ao acaso, mas porque são co-autores do livro “Over The Rainbow”, um coletânia de contos que revisita contos de fadas, pelo olhos de personagens LGBT’s.

IMG_1659

Respectivamente, Felipe Cabral, Renato Plotegher, Lorelay Fox e Maicon Santini [foto: Gustavo Barreto/Agência UVA].

Por exemplo, Renato, do canal “Chá dos 5”, escolheu fazer uma releitura de “João e Maria”, na qual Maria é lésbica e João é não-binário – pessoa que não se identifica nem como homem nem como mulher. O autor explica que escolheu este conto porque sempre gostei muito dele, desde criança, e trata sobre família, o que, segundo Renato, é uma tarefa difícil. “O grande desafio do escrever um conto LGBT é tratar sobre família, então o meu conto é sobre aceitação familiar”.

Já Lorelay Fox, do canal “Para Tudo”, elegeu Branca de Neve para reescrever, mas sob o ponto de vista de uma transsexual que é expulsa de casa e acaba recebendo asilo de sete travestis. A drag queen, que é de Sorocaba, no interior de São Paulo, conta que isso é muito comum entre transsexuais, e até mesmo homossexuais. “Eu vi muito disso na minha cidade, pessoas trans que são expulsas de casa e são acolhidas por outras trans e travestis, que sabem como é esta situação”. E, por fim, Maicon optou por reinventar a história de Rapunzel, como um garoto gay que não é aceito pela família. “Acho que eu fui o que mais se afastou da história original”, avisa.

IMG_1648..png

O público lotou a Arena #SemFiltro [foto: Gustavo Barreto/Agência UVA].

Ao longo do debate, uma das questões que mais despertou a atenção do público foi a aceitação das editoras em relação a histórias de temáticas LGBT, o que, segundo eles, era impossível alguns anos atrás. “As editoras tinham medo de publicar livros com esta temática. Hoje, elas veem que o público LGBT é um público que lê e quer se ver representado”, opina Renato. E um detalhe apontado por Lorelay é a abrangência de temas que podem ser trabalhados. “Quando falamos em LGBT, pensamos logo no gay, mas é muito importante dar voz às outras pessoas que também estão dentro da sigla”.

Por conta disso, a representatividade foi o tema que permeou todo o debate. Maicon o mais importante é a maioria ver que as minorias não são anormais, apenas diferentes. “Você não precisa ver um gay ou um negro como algo diferente. Sempre existiu e sempre vai existir, basta respeitar. Nós somos normais, não uma exceção”. Um exemplo da falta de representatividade do passado foi o nicho da autoajuda, dado por Lorelay. “Eu era a louca da autoajuda! E o primeiro livro que eu li era ‘Os Homens São de Marte e As Mulheres São de Vênus’, e eu não me encaixava em nenhum destes modelos. Foi aí que eu pensei: ‘Então, eu sou de Plutão!'”, brinca.

“O Terceiro Travesseiro”

Um exemplo clássico que sempre é levantado em debates sobre literatura LGBT – e na Arena #SemFiltro não foi diferente – é o livro “O Terceiro Travesseiro”, de Nelson Luiz de Carvalho, lançado em 1998, e se tornou um ícone dos jovens gays do fim dos anos 90 e começo dos anos 2000, afinal, por muito tempo, este foi o único exemplar no qual os jovens LGBT’s se sentiam minimamente representados. O mediador Felipe Cabral lembra que, na época, o livro teve uma tiragem mínima. “Era difícil encontrar este livro, geralmente a gente conseguia pegar emprestado com um amigo para ler escondido“. Renato também conta que este era o livro mais indicado entre os jovens gays. “Sempre que um amigo saía do armário, algum outro que já tinha se assumido indicava este livro para ele”.

No entanto, todos os participantes da mesa lembram que, apesar de “O Terceiro Travesseiro” ter uma importância histórica para a comunidade por ter sido o primeiro grande destaque do gênero, o livro apresenta uma história trágica que não tem pena do leitor ou das personagens, ou seja, não oferecia uma perspectiva de “final feliz” para os jovens gays da época. Felipe estabelece um paralelo com o romance “Carol”, de Patricia Highsmith, lançado em 1952, que inspirou o longa homônimo estrelado por Cate Blanchett e Rooney Mara. Após a publicação Patricia recebia muitas cartas de lésbicas agradecendo por ela mostrar a possibilidade de um final feliz. O grupo destaca que essa é a importância da representatividade na literatura. “Se ‘O Terceiro Travesseiro’ era a minha referência, hoje, existem várias”, afirma Felipe, citando exemplos como “Dois Garotos se Beijando”, de David Levithan, “Queda para o Alto”, de Anderson Hezer e “E Se Eu Fosse Puta?”, de Amara Moira.

No entanto, Lorelay lembrou que nem tudo mudou e muitos adolescentes ainda sofrem com a não aceitação da família em relação à sexualidade. “A gente tem que pensar que em 2017, a gente ainda recebe muitos relatos de jovens que querem lero o nosso livro, por exemplo, e os pais não deixam”. A drag também destacou a importância de novos escritores que possam assumir um lugar de destaque na discussão. “Hoje os autores já podem sair do armário, já não precisam mais ter medo de ser conhecido como um autor LGBT”, ela declara.

Ícones

A fala de Lorelay levou à outra questão: ícones gays do passado – os jovens de hoje querem saber quem foram os ícones da geração anterior, mas a resposta parece chocar. “É difícil falar, porque não tinha”, afirma Renato. Já Maicon destaca os grandes ídolos de hoje: “Não existiam. Depois veio, por exemplo, Lady Gaga com ‘Born This Way’, tem a Pabllo. Hoje, quando eu vejo jovens que já se compreendem, que peitam o mundo, eu sinto muito orgulho, porque na minha época, não tinha ninguém para me dizer que eu era normal”.

Aproveitando a deixa, Lorelay salientou a papel desempenhado pelos influenciadores digitais da atualidade. “Nós não tínhamos ícones, por isso, é muito bom saber que nós, hoje, podemos ajudar, sermos exemplos”. Além disso, a youtuber apontou para a abertura de outras mídias, e não somente a internet, para a representatividade. “Hoje em dia tem até desenho do Cartoon [Network] com personagens LGBT. Isso é maravilhoso!”, comemora. Maicon lembra que esta abertura acontece em etapas: “Primeiro a moda, depois a música, em terceiro a dramaturgia, e, consequentemente, a literatura. Mas, hoje, já estamos neste terceiro ‘estágio da atualização'”.

E, para encerrar, os convidados da mesa fazem um apelo, não apenas para que as pessoas continuem lendo, mas também leiam obras com temática LGBT. “Um livro que fala sobre amor e diversidade tem pouca repercussão, e isso reflete bem a sociedade em que a gente vive”, declara Lorelay ao falar sobre “Over The Rainbow”. Já Renato destaca o poder de transformação social da literatura. “Continuem lendo. A gente vive em um dos países que mais mata LGBT’s no mundo, o que é fruto da ignorância e só pode ser combatido com a educação”.


Daniel Deroza – 6º período

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s