Elas transformam em arte o que para muitos é apenas lixo. Com a assessoria do projeto Arte Sem Fronteiras, coordenado pelo professor da Universidade Veiga de Almeida Tirlê Cruz e os alunos Aurélio Fagundes e Bruna Lima, as artesãs criam bolsas, tapetes, lancheiras, canecas, chaveiros e outros objetos utilizando apenas materiais reciclados. A iniciativa tem o objetivo de tornar a atividade do artesanato cada vez mais profissional, mostrando que é possível aliar arte, retorno financeiro e sustentabilidade.
Uma das artesãs parceiras do projeto é Maria Holanda. Ela é a que está há menos tempo participando, mas já colhe os benefícios do trabalho que é realizado. “O projeto é maravilhoso, é uma boa ideia e que surjam outras. Agradeço ao grupo do projeto que muito incentiva a gente, orienta e acho que, sem eles, os orientadores do projeto, seria mais difícil”, ela pondera.

Já Elvira Nascimento, que tem como uma de suas especialidades o retalho de malhas para tapetes, jogos de banheiros, entre outros, também exalta o salto de qualidade que as orientações deram em seu trabalho. “Fabricava minhas coisas, mas não tinha como vender. A gente ia fabricando sem saber direito o que fazer. Mas hoje não, hoje a gente tem como expor a mercadoria da gente, o artesanato da gente, a gente tem uma renda. Eu que sou dona de casa, trabalho com isso. Está muito bom, e o apoio que a gente tem, com a orientação vai ficando muito melhor”.
Uma das orientações citadas pelas artesãs é na parte de criação dos produtos vendidos. Auxiliado pela professora de moda da Universidade Veiga de Almeida, Lucília Ramos, o projeto organiza reuniões mensais em que elas têm espaço para opinar e dizer o que pode ser mudado, além de receberem dicas de como melhorar e colocar preços nos produtos a serem vendidos.

Rosemery Alves, especialista em trabalhos de reciclagem com caixa de leite, complementa a colega. “É um suporte muito bom, pois tem a reunião mensal em que as pessoas ouvem a nossa dificuldade, tentam trazer as soluções. Tem a professora Lucília, que dá todo o apoio para a parte de melhorar o produto. Ela faz reuniões com cada um dos artesãos separados e explica como a gente pode melhorar e isso é muito legal, porque você não encontra isso. É até muito caro de você conseguir uma assessoria assim, e você tem isso no projeto”, ela explica.
O Arte Sem Fronteiras disponibiliza um local no Lar Frei Luiz, na Taquara, em Jacarepaguá, no qual as artesãs podem vender seus produtos. Para elas, este é um dos diferenciais, já que o trabalho no local é muito mais produtivo do que nas feiras. Além disso, por apostar na sustentabilidade, o projeto minimiza os gastos com os artesanatos, como conta a artesã Christiane Felix.
Segundo ela, a reciclagem é importante. “A gente consegue economizar mais ao invés de comprar alguns produtos. Antigamente eu trabalhava com MDF (material de artesanato convencional), e o mesmo trabalho eu posso fazer com uma telha ou uma garrafa. O legal é isso, as pessoas admirando nosso trabalho. O projeto é muito importante, quanto mais pessoas conseguir alcançar, é bom para todo mundo”.

Adepta da arte da aplicolagem, que consiste no trabalho de papel de jornal e revistas sobre qualquer superfície, Creuza Reis reforça a colega artesã sobre a importância do trabalho com a reciclagem e o benefício lucrativo que esse tipo de prática produz. “Eu valorizo a reciclagem porque nós gastamos menos com material e estamos ajudando o meio ambiente com isso”.
Creuza ainda destaca a competitividade do meio e as raridades que se encontra no artesanato. “Se eu fosse comprar todo o material de trabalho, eu nem era artesã mais, porque não compensa. É muita competição, muita feira. E eu abracei o Arte Sem Fronteiras, porque é um projeto que bateu com que eu queria, com que eu acreditava, que era isso: a sustentabilidade, o reaproveitamento. Tenho peças únicas, eu faço e não tem como repetir, porque eu aproveito pratos quebrados, bandejas rachadas, material de madeira, que talvez fossem para o lixo”, ela ressalta.
Além de toda sustentabilidade que o projeto envolve, utilizando materiais reciclados e transformando o lixo em artesanato, as artesãs que participam do projeto levam consigo algo que vai além do lucro de suas mercadorias, como diz Rosemery Alves. “Ajuda demais na minha autoestima, é muito importante você ver o seu projeto ser reconhecido. As pessoas veem o lixo como lixo, quando você consegue pegar uma caixa de leite que o cara joga fora ou que iria para o lixo e consegue transformar numa peça que a pessoa fica encantada de ver, isso é o maior presente que eu posso ganhar em relação ao projeto, não tem dinheiro que pague. Quando a gente faz uma peça, você põe muito mais que um simples material, você põe uma parte de você. Isso não tem preço”.
Ive Ribeiro

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