Filmes que possuem como pano de fundo jogos políticos e tribunais sempre correm um grande risco de se tornarem morosos para o público menos acostumado com leis, termos técnicos e a maneira como a política realmente funciona. Mas, este não é o caso de “Armas Na Mesa” (“Miss Sloane”), que estreia dia 2 de fevereiro. O novo longa do diretor John Madden (“Shakespeare Apaixonado”), é estrelado por Jessica Chastain, que dá vida à Elisabeth Sloane, uma implacável – e, por vezes, cruel – lobista de Washington que se recusa a perder uma disputa e, por isso, recorre a métodos pouco ortodoxos – tais como espionagem, chantagens e ameaças. Ela é contratada pela empresa de Rodolfo Schmidt (Mark Strong) – que reconhece o talento da profissional, mas não concorda com as táticas dela – para cumprir a missão mais difícil que se pode ter em solo americano: conseguir a aprovação da lei Heaton-Harris, que prevê maior rigor na legislação, visando uma política de controle de armas.
O maior trunfo de “Armas Na Mesa” é, sem dúvida, a perfeita sincronia entre direção e roteiro (escrito pelo estreante Jonathan Perera). As duas horas e dez minutos de filme em momento algum tornam-se arrastadas e maçantes devido a: primeiramente, os inúmeros plot twists muito bem amarrados que, literalmente, são capazes de tirar o fôlego da audiência; segundo, ao excelente trabalho de direção – mais uma vez, John Madden mostra que sabe extrair interpretações retumbantes de seu elenco –; e, por último, mas não menos importante, a precisão cirúrgica da edição, que faz com que cada cena comece e termine no momento exato de interesse – além das incríveis tomadas que alternam sequências que estão ocorrendo simultaneamente em locais diferentes.
Além disso, o design de produção também é um show aparte: os figurinos – em especial o de Elisabeth, que contrasta o tom neutro de suas vestes com uma maquiagem que representa a personalidade forte da personagem – demonstram a classe e praticidade que a trama precisa; e a impecavelmente límpida cinematografia, que opta por uma paleta de cores fria e cinzenta – como não poderia deixar de ser em um filme que se passa em Washington – dão um tom de longas de espionagem, elevando o valor de produção ao mostrar que por debaixo da casca polida, há algo de podre no reino do Capitólio Americano.

A escolha do elenco não poderia ser mais acertada: Gugu Mbatha-Raw – que se destacou nos últimos tempos ao participar de um dos episódios na sensação da Netflix, “Black Mirror” –, interpreta a ativista involuntária Esme Manucharian; John Lithgow como o membro do congresso Ron Sperling; além de Sam Waterston – o eterno promotor Jack McCoy, da icônica série policial “Law & Order” –, que dá vida ao inescrupuloso George Dupont, principal oponente de Elisabeth. Mas, indubitavelmente, o grande destaque da produção é Jessica Chastain, que carrega o enredo nos ombros de forma magistral como a inexorável lobista que vê todos ao redor como meros peões do jogo político no qual é especialista. Aqui, a atriz mostra o porquê de ser considerada uma das melhores de Hollywood e justifica a indicação ao Globo de Ouro de Melhor Atriz em Drama.
Elisabeth é uma mulher fria, cínica, amoral e “mentirosa profissional” – como ela mesma afirma –, mas que, por debaixo dessa armadura quase impenetrável, sofre com a pressão que o trabalho lhe impõe, causando crises de ódio, frustração, além do uso constante de comprimidos que a mantêm equilibrada no dia-a-dia e dos serviços do scort Forde (Jake Lacy), com quem demonstra uma ínfima vulnerabilidade. Interpretando a personagem que dá título ao filme, Chastain dá uma aula de interpretação ao se passar por uma mulher que não tem pudores em expor a vida íntima dos funcionários e até mesmo arriscar a própria carreira para vencer uma disputa – afinal, como a própria Elisabeth diz, “lobby é sobre antecipar-se aos movimentos do oponente para surpreendê-lo antes que que ele te surpreenda”.
Por fim, “Armas Na Mesa” é um thriller político inteligente, muito bem construído, que conta uma história relevante para o atual cenário político americano – fazendo com que, apesar de ficcional, torne-se extremamente tangível –, com memoráveis reviravoltas de tirar o fôlego e que, apesar de ser considerado por muitos um dos chamados “filmes cult”, possui um valor de entretenimento que não se vê no cinema há muito tempo; além da uma riquíssima gama de personagens, liderados pela poderosa Miss Sloane, que para sobreviver em um meio comandado por homens, teve de se armar de todas as formas possíveis, causando um verdadeiro “terremoto político” – isso, por si só, já é digno de aplausos.
Daniel Deroza– 5º Período

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