Uma história quase esquecida

071675-jpg-r_1920_1080-f_jpg-q_x-xxyxxJustamente no período em que a tensão racial voltou a pairar sobre os Estados Unidos – principalmente após a eleição de Donald Trump para a presidência do país –, Hollywood resolveu se redimir da polêmica do ano passado, que levou a hashtag “OscarSoWhite” aos trending topics mundiais, e lançar um filme baseado em uma história real protagonizado por três mulheres negras. É neste contexto em que chega aos cinemas o longa “Hidden Figures”, que, desde a estreia em território americano, em 25 de dezembro de ano passado, tornou-se a maior bilheteria da temporada, e, no Brasil, recebeu o nome de “Estrelas Além do Tempo” – o que tem causado polêmica, pois reduz muito o impacto das entrelinhas da história, uma vez que “Hidden Figures” significa “Figuras Ocultas”.

A produção dirigida por Theodore Melfi – que até então havia trabalhado apenas em “Um Santo Vizinho” e a coprodução Brasil-Estados Unidos “Amor Por Acaso”, ambas comédias ­– se passa em 1961 e tem como pano de fundo e a Corrida Espacial da Guerra Fria disputada pelo gigante norte-americano e a então União Soviética, enquanto a sociedade tinha de lidar com os efeitos da intensa segregação étnica. Tais efeitos também se aplicam aos funcionários da NASA, onde os negros – ou “de cor”, como eram chamados à época – tinham de trabalhar em um prédio separado do resto da agência.

É neste grupo segregado que trabalham Katherine Johnson (a sublime Taraji P. Henson), Dorothy Vaughn (Octavia Spencer) e Mary Jackson (interpretada pela cantora Janelle Monáe, em seu primeiro grande trabalho como atriz depois do premiado “Moonlight”), três amigas que precisam enfrentar o racismo arraigado na história americana para mostrar que são competentes o suficiente para ascender nas carreiras. Katherine e Mary ocupam o cargo de Computadores, cuja função é aferir todos os cálculos enviados para o setor e Dorothy, que costumava desempenhar a mesma tarefa, assumiu o cargo de supervisora após sua chefe ficar doente e ter de se ausentar, porém, apesar de seu trabalho exemplar, a palavra “computer” ainda está escrita em sua folha salarial.

O racismo velado dos bons cidadãos brancos americanos começa a se tornar menos sutil quando, por força das circunstâncias, as três protagonistas são realocadas. Katherine é convocada para corrigir os cálculos da equipe responsável por estabelecer as diretrizes para a construção da nave – equipe formada apenas por homens brancos, que não ficam nem um pouco satisfeitos com a nova integrante. Mary é chamada para trabalhar diretamente com os engenheiros responsáveis pela construção da máquina que levará o homem à Lua, e, por isso, é incentivada a tentar ingressar em uma faculdade de Engenharia – voltada apenas para homens brancos. Já Dorothy, após passar semanas pedindo a superior Vivian Mitchell (Kirsten Dunst) para ser oficializada como supervisora, vê sua oportunidade de ascensão quando – de forma clandestina – tornar-se a única pessoa competente para operar os novos computadores da agência.

O roteiro – de Allison Schroeder e Theodore Melfi – não é perfeito, mas cumpre com dignidade a missão a qual se propôs: é claro que o filme quer contar a história destas três mulheres, mas não apenas isso, a produção visa também enaltecer o seu trio protagonista e seus feitos, o que não é nenhum demérito. Tal tarefa consegue ser cumprida com louvor por dois fatores: a direção de Melfi, que segue Katherine, Dorothy e Mary a todo instante; e o comprometimento do elenco com o enredo. Todos estão absolutamente investidos nas personagens.

Octavia Spencer se sai muito bem interpretando uma mulher sensata e ponderada, que prefere agir em vez de espernear – contudo, a atuação da atriz, mesmo que boa, não justifica sua indicação ao Globo de Ouro e ao Oscar; é apenas uma boa interpretação. A cantora Janelle Monáe entrega um trabalho confiante e preciso, que a jovem Mary Jackson exige, não deixando nada a dever para os veteranos que a rodeiam. O elenco ainda conta com Kevin Costner, como o diretor Al Harrison; Jim Parsons como o invejoso, racista e machista Paul Stafford; Mahershala Ali, que dá vida ao coronel Jim Johnson; e muitos outros (é um casting numeroso) – todos muito precisos, tanto que o longa levou o prêmio de Melhor Elenco no SAG Awards, a premiação do Sindicato dos Atores de Hollywood, que é um dos termômetros do Oscar.

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No entanto, duas performances se destacam em “Estrelas Além do Tempo”. A primeira é de Kirsten Dunst, como a racista sem-noção Vivian Mitchell, uma mulher que se acha superior às colegas negras e não quer que estas progridam de forma alguma, mas que, no fim do dia, diz que não é preconceituosa – e, o pior (ou melhor, dependendo do ponto de vista), a interpretação de Dunst deixa claro que Vivian realmente acredita que não é racista; é a prova de que uma atriz talentosa consegue ter um bom desempenho em pouco tempo na tela.

A segunda performance digna de aplausos é, sem sombra de dúvidas, de Taraji P. Henson, que consegue mostrar todas as nuances da personagem sem se transformar em uma caricatura da mulher negra sofredora – é uma unanimidade entre os críticos que quem merecia indicações a prêmios é Taraji e não Octavia. Em “Estrelas Além do Tempo”, Henson dá ao público pelo menos uma cena de arrepiar, mostrando aos homens brancos que a cercam o racismo e o machismo que tem de enfrentar todo dia e que impedem o pleno desempenho no trabalho.

Em suma, “Estrelas Além do Tempo” é um filme bonito – literal e metaforicamente –, relevante, que em muitos momentos causará uma revolta borbulhante no público ao expor o racismo e o machismo que insistem em perdurar, torando-se uma produção necessária – principalmente nos dias de hoje – para mostrar às pessoas que dizem que os movimentos negro e feminista não passam de “mimimi” que a História da Humanidade, contada por brancos, fez questão de omitir a existência e o trabalho destas “figuras ocultas”.


Daniel Deroza– 5º Período

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