A sobrevida da ficção científica

552532-jpg-r_1920_1080-f_jpg-q_x-xxyxxNesta quinta, dia 24, chega aos cinemas brasileiros o longa “A Chegada” (“Arrival”), sucesso de críticas no Festival do Rio 2016. O longa é dirigido pelo cineasta canadense Denis Villeneuve – também responsável pelos aclamados “Sicario” e “O Homem Duplicado” –, que prova que o gênero Ficção Científica ainda tem conteúdo para apresentar e não pode ser reconhecido apenas pelo seu valor de entretenimento.

O longa retrata a chegada de naves alienígenas à Terra, trazendo mensagens em um idioma desconhecido. Logo, o governo dos Estados Unidos chama a linguista Louise Banks – interpretada com brilhantismo pela já veterana Amy Adams – para tentar decifrar os textos extraterrestres a fim de estabelecer uma comunicação pacífica com quem os mandou.

A mais grata surpresa de “A Chegada” é a maneira como o enredo é construído – tanto nos aspectos técnicos quanto na linguagem escolhida para abordar o tema –, afinal, filmes acerca de invasões espaciais são tão velhos quanto a própria história do cinema. Entretanto, neste caso específico, são raros os momentos em que o público tem a sensação de “Já vi isso em algum lugar…”. Ou seja, tudo é feito de maneira diferente do que se espera – graças às mãos experientes de Villeneuve.

Trata-se de um dos filmes comerciais mais melancólicos e reflexivos – por vezes, quase beirando o onírico, porém sem fazê-lo de forma maçante – lançados nos últimos tempos – em especial, tratando-se de uma produção americana. A ausência de cortes rápidos e bruscos – comuns em outros longas do gênero – não atrapalha a fluidez da história. A paleta de cores da cinematografia é leve, sem apelar para tons vibrantes, lembrando muito o estilo do premiado “A Árvore da Vida”.

“A Chegada” tem nomes de peso no elenco – como Forest Whitaker e Jeremy Renner, ambos muito competentes nas personagens –, porém, o destaque é, sem dúvida, de Amy Adams, que em nada lembra mais a jovem insossa que era no começo dos anos 2000. Neste filme, a atriz entrega uma interpretação densa, fortemente internalizada e agridoce, sem cair nas armadilhas da filosofia barata, transmitindo uma ampla gama de emoções apenas com o olhar.

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Por volta da metade do segundo ato, o roteiro não resiste à tentação de utilizar alguns clichês da ficção científica – como envolvimento dos militares, insubordinação civil e o frisson alimentado pela mídia –, no entanto, o ponto que mais incomoda o espectador é a velha condescendência dos Estados Unidos consigo mesmo, sempre querendo se provar mais sensatos do que os governos de outros países. Para a sorte do público, este deslize no enredo é muito breve e não atrapalha a experiência do roteiro.

Por fim, “A Chegada” se mostra como um longa de sci-fi quase totalmente fora da curva ao abordar de maneira artística – e não apenas comercial – temas mais filosóficos como o conceito de humanidade, se a linguagem é uma ferramenta ou um entrave para a comunicação, perda, luto, amor e família, mas de forma acessível o suficiente para despertar o interesse do grande público, que não está muito acostumado com o longas considerados “cult”, mostra que a ficção científica ante tem ótimas histórias pra contar e que esta obra tem tudo para, no futuro, estar ao lado de “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”, no Hall dos Clássicos da Ficção Científica.


Daniel Deroza– 4º Período

2 comentários sobre “A sobrevida da ficção científica

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