Uma novela à americana

O jovem Louis Drax tem uma história de vida incomum: aos nove anos de idade ele possui uma relação muito estreita com seu pai, Peter, uma intrincada dependência mútua de sua mãe, Natalie, e em seu pouco tempo de vida, já deu entrada em hospitais oito vezes – praticamente uma vez por ano – devido a acidentes graves. Após um nono acontecimento quase fatal durante um piquenique com os pais – e o posterior desaparecimento de Peter -, o garoto entra em coma, revelando, assim, diversos aspectos obscuros de sua família aparentemente perfeita. Esta é a sinopse do longa “ A Nona Vida de Louis Drax” – adaptado do livro homônimo escrito por Liz Jensen -, que chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, dia 20.

Dirigido por Alexandre Aja – mais conhecido por filmes de terror out of mainstream, como “Espelhos do Medo”, o remake do trash horror oitentista “Piranha” e o elogiado “Amaldiçoado” -, “A Nona Vida de Louis Drax” possui um considerável contingente de fãs, principalmente na América do Norte, o que gerou uma certa expectativa acerca da produção, que, à primeira vista, pode ser descrita como uma fábula contemporânea com pinceladas de mistério, portanto, a escolha de um diretor acostumado com o gênero suspense/terror foi um acerto.

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O elenco do longa é composto por alguns nomes muito conhecidos do grande público, como o premiado Aaron Paul (“Breaking Bad”), o galã Jamie Dornan (“Cinquenta Tons de Cinza”), o “especialista em coadjuvantes marcantes” Oliver Platt (“Chicago Med”) e a talentosíssima Barbara Hershey (“Cisne Negro”), além da instigante Sarah Gadon – que interpreta a doce e frágil Natalie – e o jovem prodígio Aiden Longworth, que dá vida ao personagem-título do filme. E, sem dúvida, Natalie e Louis são as personagens mais complexas do enredo. Ela é uma mulher fragilizada pelo passado, porém, obstinada em seus objetivos; e ele é uma criança estranhamente eloquente que não tem medo de ofender as pessoas com seus comentários ácidos. E ambos os atores encontram este equilíbrio de forma crível.

Já as outras personagens – à exceção de Peter – são absolutamente unidimensionais, não dando aos atores muitos caminhos para explorar. Jamie Dornan possui alguns bons momentos em sequências de suspense como o doutor Allan Pascal, responsável pelo caso de Louis, no entanto, a personagem não é das mais expressivas – assim como o intérprete. Oliver Platt é o psicólogo de Louis e aparece pouco em cena – apesar de ser imprescindível no último ato. Barbara Hershey é um talento desperdiçado, mas consegue marcar presença mesmo com seu pouquíssimo tempo na tela como a avó paterna de Louis.

Enquanto Aaron Paul é o grande destaque do longa, dando a Peter, um homem transtornado e imprevisível, uma interpretação sensível e cativante. Já a atriz canadense Molly Parker é indubitavelmente o elo fraco do elenco. Ela interpreta a detetive Dalton, que investiga os oito graves acidentes sofridos por Louis ao longo de sua vida; em teoria, Dalton é uma policial sagaz e observadora, porém, entrega uma atuação caricata e claramente inspirada na investigadora Rhonda Boney, interpretada brilhantemente por Kim Dickens no hit de 2014 “Garota Exemplar” – sendo, assim, uma Rhonda Boney genérica.

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O roteiro de “A Nona Vida de Louis Drax”, escrito por Max Minghella (a mesma mente por trás do premiado “A Rede Social”), é ambicioso – um mistério narrado a partir do ponto de vista de uma criança que está em coma (por isso o tom onírico com elementos fantásticos) – e tem potencial para isso; durante os dois primeiros atos, Minghella consegue dosar muito bem todos os gêneros que o longa pretende alcançar – suspense, fantasia, drama e até mesmo romance -, entretanto no último ato, surge um plot twist quase hitchcockiano que muda totalmente o tom da história – mesmo que diversas pistas discretas tenham sido dadas desde o início da história -, perdendo a sutileza e comprovando a máxima que diz “nem tudo que funciona nas páginas funciona na tela”.

A reviravolta apresentada no ato final – ainda que faça sentido – é feita de forma artificial, dando um tom excessivamente melodramático que beira o novelesco. Por fim, apesar de toda a ambição, técnica apurada e estética impecável, “A Nona Vida de Louis Drax” acaba por ser um filme para quem gosta de um novelão folhetinesco clássico – ou seja, mirou no Hitchcock, mas acertou na Janete Clair.


Daniel Deroza – 4º período

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