De volta às raízes

382791.jpg-r_1920_1080-f_jpg-q_x-xxyxxO economista argentino Ariel, que conseguiu construir uma carreira bem-sucedida em Nova York, volta à casa de sua família, no bairro de Once – em sua terra natal -, para comemorar o Purim, uma festa judaica que celebra a salvação do povo judeu do plano de Hamã de exterminá-los. E quando reencontra seus parentes e amigos em situações ainda mais complexas e confusas que outrora, Ariel se vê em um confronto de culturas.

“El Rey del Once” – “O Décimo Homem” no Brasil -, é o novo longa de Daniel Burman – aclamado no Festival de Berlim – possui um ritmo preciso que não arrasta cenas nem atropela os acontecimentos da trama. Outro acerto do diretor – que também é o criador da história – foi a fragmentação temporal do filme com letreiros que entrecortam as cenas, informando o dia da semana em que a ação está acontecendo – exatamente a mesma técnica utilizada por Stanley Kubric em “O Iluminado”, de 1980.

Como já era de se esperar, esta “dramédia” é pontuada pelo característico e já famoso senso de humor afiado dos filmes argentinos – vide a maior bilheteria hermana da história, “Relatos Selvagens”, comédia indicada ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro no ano passado. Um exemplo disso é o momento em que Ariel – o qual está se sentindo um estranho no ninho entre seus próprios familiares – tem que resolver um problema com o açougueiro do bairro e seu pai lhe diz: “Vá de gravata, que ele te respeitará mais”.

Aliás, Usher, o pai de Ariel é a melhor personagem da história. É a figura mais conhecida do bairro Once – por isso o título original –, é bem-intencionado, mas que traz muitos problemas para as pessoas ao redor – passou a vida toda fazendo caridade, porém acabou angariando inimizades por causa disso. Mesmo estando ausente durante bem mais da metade do filme, Usher está constantemente presente através das ligações que faz para seu filho para lhe passar instruções, fazendo com que Ariel fique cada vez mais frustrado em relação ao seu progenitor.

A única pessoa que consegue de fato compreender os sentimentos do protagonista é Eva, uma mulher que, no passado, foi acolhida pela família de Usher e cuja “mudez” deixa Ariel desconfortável. Mesmo quase sem palavras, a interação entre as duas personagens é quase tangível em cena. A propósito, Eva é o único aspecto alto do roteiro acerca de seus caracteres secundários, que não são muito bem desenvolvidos.

Quando um antigo inimigo de Usher falece, uma necessidade logo se instala no ambiente: a cerimônia de despedida só pode ser realizada na presença de dez homens, porém, com a ausência do patriarca, uma vaga fica aberta, impossibilitando a realização do ato. E, com isso, surge uma dúvida na cabeça de Ariel: continuar renegando suas raízes ou tentar criar um reconhecimento com elas? Ele deve aceitar ser O Décimo Homem – assumindo o papel que fez Usher faltar a uma cerimônia escolar de Ariel?

 “O Décimo Homem” é uma comédia dramática de baixo orçamento de humor refinado e inteligente que não se utiliza de atalhos fáceis para contar sua história e não se alonga mais que o necessário. O tom intimista da direção de Daniel Burman é eficiente em disfarçar a falta do grande clímax que o público atual sempre espera – não há nenhuma grande atuação ou grandes reviravoltas que deixem a audiência boquiaberta, porém há um roteiro que entende que o interessante da vida é o cotidiano, marcado por pequenos detalhes que são capazes de modificar uma pessoa a curto, médio ou longo prazo.


Daniel Deroza – 3º período

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