Arte

A extravagância e a irreverência de Millôr

IMG_20160429_082024Millôr Fernandes foi uma daquelas pessoas únicas que surgem a cada século. Durante sua trajetória de sucesso, acumulou tantas funções que fica difícil classifica-lo. É conhecido como desenhista, humorista, dramaturgo, escritor, poeta, tradutor, mas ele mesmo se definia como um jornalista acima de qualquer coisa. E para prestar homenagem a uma das personalidades brasileiras mais importantes do século XX, o IMS exibe a exposição “Millôr: Obra Gráfica”.

A mostra reúne desenhos, artes e charges feitas por ele, que estavam guardadas no acervo, composto por mais de sete mil obras, a maioria nunca havia sido vista pelo público. As que compõem a exibição buscam levar aos visitantes os temas mais recorrentes no trabalho de Fernandes, como o desencantamento com o Brasil, por exemplo, que era sempre retratado com a ironia ácida característica de Millôr.

Muitos trabalhos mostravam a coragem do autor, que usou os desenhos para expor publicamente o posicionamento contra o regime militar, e, por isso, foi censurado, como mostra um bilhete que o editor lhe mandou em 12 de fevereiro de 1975: “Mais um desenho censurado para a sua coleção. Segue também uma trinca de sugestões (fracotas) de um abominável leitor assíduo. Abraços”.

O instinto provocativo de Millôr não era alvo apenas da ditadura, mas também d porção conservadora da sociedade, que reagiu de maneira descontente após a publicação da série “A Verdadeira História do Paraíso”, onde Fernandes expõe a sua visão de parte da história bíblica com uma escrita afiada nas páginas da revista “O Cruzeiro”, que, após tantas reclamações, viu-se obrigada a demitir o autor, o qual decidiu, mesmo que brevemente, transformar sua página dupla central, o “Pif-Paf”, em uma publicação independente. O quinzenal, que foi lançado um mês depois do golpe de 64, durou oito números.

Outra característica de Millôr era a sua visão distópica do próprio país; segundo própio ponto de vista, autoritarismo, racismo, corrupção e outros absurdos — que, para o autor, teve o auge entre o golpe militar de 1964 e os primeiros anos do governo Lula — são o substrato do contraste entre o lado solar e tropical do país, principalmente do Rio, e o lado mais obscuro.

Porém, Millôr não criticava apenas o que via de errado na política e na sociedade; uma das características mais marcantes de sua obra é a autocrítica, tão ácida quanto a que é direcionada aos outros. Esta nuance do trabalho pode ser analisada na sala repleta de autorretratos, além das inúmeras formas que Fernandes encontrou de assinar o próprio nome — uma parede coberta por telas, onde o nome “Millôr” é repetido à exaustão.

A exposição “Millôr: Obra Gráfica” tem curadoria de Cássio Loredano, Julia Kovensky e Paulo Roberto Pires e fica em cartaz no Instituto Moreira Salles até o dia 21 de agosto, com visitação aberta de 11h às 20h. A entrada é franca.


Daniel Deroza – 3º período

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