Uma comédia divina

299084.jpg-r_640_600-b_1_D6D6D6-f_jpg-q_x-xxyxxNão é segredo que Asterix e Obelix são dois dos personagens mais famosos do mundo, e mais queridos da França. Logo, não é surpresa que a dupla esteja de volta, pela décima sexta vez, às grandes telas — agora, em animação gráfica e enfrentando o imperador romano César. Em “Asterix e o Domínio dos Deuses”, o governante de Roma está quase satisfeito por ter conquistado todo o continente. Ou quase todo. César ainda não conseguiu dominar a pequena aldeia gaulesa no meio da floresta, onde vive a dupla.

Irado por ainda não ter conseguido exercer o seu poder sobre o ínfimo território ocupado pelos aldeões, o líder autoritário decide construir o ‘Domínio dos Deuses’, um gigantesco condomínio na floresta que cerca as moradias gaulesas, para, assim, conseguir impor a cultura romana aos habitantes da região. E isso leva a um dos pontos mais impressionantes a respeito deste longa. É intrigantemente chocante como um filme baseado em uma história publicada pela primeira vez em 1971, que fala sobre o Império Romano, ainda consegue se manter atual, dialogando diretamente com tópicos de hoje em dia.

Um líder político totalitário que está longe de ser perspicaz e é facilmente manipulável; um conselheiro imperial ambicioso; uma população, de forma geral, ignorante que só consegue resolver seus problemas através da força física; uma “burguesia” alienada; e um grupo de pessoas mais “esclarecidas”, liderados pelos protagonistas, que tentam resolver a situação da melhor maneira possível. Tudo isso permeado pelo adorável humor francês.

Aliás, já nos primeiros minutos do filme, é possível ver que houve uma preocupação do roteirista Alexandre Astier em manter um frescor na relação de Asterix e Obelix, que se gostam, se desgostam, se protegem, se agridem, em uma lógica leve e descompromissada que lembra os primórdios da comédia, como “Os Três Patetas” e até mesmo os primeiros anos de “Os Trapalhões”. A química da dupla continua intacta.

Outra coisa que o filme soube fazer muito bem é dosar a importância e destaque que cada personagem tem ao longo da história — todos têm o seu momento de brilhar, desde o imperador megalomaníaco até o grupo de escravos fugitivos, que, sem dúvida, rouba a cena em determinados pontos através de um interessante jogo de oposição. Enquanto o governante é influenciado pela elite romana, que vive às turras para conseguir um pouco mais de poder, um grupo de escravos negros de César mostra-se altamente intelectualizado e organizado, bem distante da imagem de “coisas” feitas para trabalhos braçais, mostrando a todos que, se for necessário, o Império poderia muito bem passar a explorar a elite que sempre o apoiou.

“Asterix e o Domínios dos Deuses” é um filme divertido, com a fascinante característica de ser atemporal e global, além de tratar de tópicos sérios como a corrupção pelo dinheiro, consumo desmedido, a imposição da dita “civilização”, trabalho escravo, greves, leis trabalhistas e relação entre patrão e empregado, de maneira leve o suficiente para que seja tema de reflexão para os adultos e meio de informação para as crianças, provando que as animações não são só para os pequenos em idade e podem ter papeis sociais sem caírem nas armadilhas do didatismo.


Daniel Deroza – 3º período

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