A velha repetição hollywoodiana

119397.jpg-r_640_600-b_1_D6D6D6-f_jpg-q_x-xxyxxO Primeiro Ministro britânico morre repentinamente em circunstâncias suspeitas e, como já é de praxe, os líderes das maiores potências ocidentais se dirigem à capital inglesa para as cerimônias fúnebres, que serão cercadas pelo maior sistema de segurança do mundo.

No entanto, um grupo de terroristas do Oriente Médio vê nesta ocasião a oportunidade perfeita para colocar em prática o seu plano de aniquilar os governantes das maiores nações do mundo, e apenas uma pessoa é capaz de impedir isso: o agente do Serviço Secreto Estadunidense Mike Banning. Este é o enredo de “Invasão à Londres” — sequência do sucesso do cinema de ação “Invasão à Casa Branca” —, que chega às salas brasileiras no próximo dia 07/04.

Roteirizado por Creighton Rothenberger, Katrin Benedikt — mesma dupla que criou o a história do primeiro longa —, Christian Gudegast e Chad St. John, “Invasão à Londres” não traz nada de novo para quem acompanha, há algumas décadas, o já saturado filão de ação hollywoodiano: um agente secreto que trabalha como guarda-costas do presidente dos Estados Unidos e deve protegê-lo de um atentado terrorista — uma das fórmulas mais reproduzidas do mercado cinematográfico mundial.

Porém, o que poderia ser uma chance de reinventar o gênero, tirando o foco do líder norte-americano ao colocar em cena representantes dos maiores centros de poder do Ocidente, acaba seguindo o piloto automático. A história vai pela mesma estrada de sempre, decepcionando os fãs, que esperavam uma reformulação e, consequentemente, uma revolução.

Muitos outros filmes antes de “Invasão à Londres” preferiram priorizar explosões e perseguições de carro a um roteiro bem estruturado, afinal, coisas explodindo pelos ares dão lucro. Porém, ao fazerem isso, os antecessores se preocuparam em criar este chamariz de maneira minimamente competente. E não é isso que é visto durante o ataque terrorista à terra da Rainha.

Os efeitos especiais mais parecem uma mistura de gráficos de vídeo games de meados da década passada e filmes de baixo orçamento de canais de ficção científica da TV a cabo. São labaredas de fogo em tom inverossímil de laranja – quase – translúcido e rastros de uma fumaça “plastificada” que mais parecem saídas de uma simulação de telejornal.

Ainda na linha de computação gráfica, o efeito de slow motion foi usado em momentos inapropriados, e mais e mais explosões de fogo-quase-translúcido. Tudo isso a fim de preencher um segundo ato onde nada — rigorosamente, nada — de relevante acontece.

O protótipo de conflito dramático do personagem principal é esquecido, figurantes vestidos de terno e gravata ficam fazendo caras de preocupação enquanto um esforçado Morgan Freeman — intérprete do vice-presidente Allan Trumbull — tenta fazer o melhor que consegue com o material ofensivamente limitado que lhe foi dado.

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E, assim, expõem-se outro grande problema de “Invasão à Londres”: excelentes atores em papeis que estão, obviamente, aquém de seu talento. Assim como Freeman, a incrível Angela Bassett está subaproveitada a um ponto que beira o ultraje — sua competência mais que comprovada está presente na tela por menos de um quarto do filme.

Aliás, ao longo de todo o segundo ato, os personagens são tirados de cena de forma tão abrupta que fica clara a incompetência e/ou a falta de interesse do diretor Babak Najafi, cuja falta de tato o levou a trabalhar com desnecessários super close-ups em destroços metálicos atravessando pessoas e facas de caça sendo encravadas e giradas nos músculos de outroas personagens — enquanto os rios de sangue transbordam da tela, claro.

Se já não bastasse este sanguinolento banho húngaro, todo o segundo ato é repleto de diálogos pavorosos que causariam inveja nas mais afetadas produções televisivas mexicanas — além das frases de efeito que fazem parte do vocabulário de ação desde que o mundo é mundo e piadas que não funcionam. Contudo, verdade seja dita, Gerard Butler faz das tripas, coração para dar um pouco de alma para o seu Mike Banning, que é tão unidimensional quanto uma folha de papel em branco.

O roteiro utiliza-se do insuportável estereótipo do vilão lunático caricato, na figura do antagonista Aamir Barkawi (Alon Aboutboul), para fazer uma exaltação brega do famoso patriotismo estadunidense, através da inclassificável frase proferida pelo vice-presidente Trumbull para Barkawi: “Não somos apenas um prédio. Não somos apenas uma bandeira. Não somos apenas um homem. Daqui a mil anos, ainda estaremos aqui!”. Vai levar algumas décadas para que alguém consiga roteirizar uma frase mais cafona que essa. Ou não, já que o roteiro abre a possibilidade de um terceiro filme.

No fim das contas, “Invasão à Londres” é um filme mal roteirizado, mal dirigido, mal produzido, e desorganizado a ponto de tentar criar um suspense acerca de um infiltrado no governo estadunidense nos últimos cinco minutos de filme. É um longa que tem como objetivo lucrar tornando-se uma franquia de ação, mas não tem competência suficiente para isso. Só mais uma “propaganda de guerra”. E, em um mundo onde nada se cria, tudo se copia, “Invasão à Londres” não sabe a mais básica regra da sobrevivência cinematográfica: Se você pretende contar uma história que vem sendo repetida há décadas, tente, pelo menos, fazê-lo de forma mais competente que as anteriores.


Daniel Deroza – 3º Período

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