O dia das pegadinhas

Que atire a primeira pedra quem nunca mentiu. Hoje, 01 de abril, é o dia em que as ‘mentirinhas’ estão, de certa forma, liberadas. O mês começa com um tom de desconfiança no ar. As pegadinhas estão por toda parte, então é sempre bom manter o pé atrás com alguns amigos, principalmente se houver aquele mais brincalhão.

pinoquioO Brasil é conhecido como um dos países mais bem-humorado do mundo, até mesmo nas horas de tristeza, como no fatídico 7×1 na Copa do Mundo de 2014, em que a população criou diversas histórias engraçadas.  Deste modo, várias pessoas já foram pegas em alguma brincadeira no Dia da Mentira. Entre as mais comuns estão: posicionar uma buzina atrás da porta, ou embaixo de uma cadeira, colocar insetos de plástico em lugares estratégicos e dar aquele susto com um cocô falso no chão da sala. Esta última bem nojenta aliás.

Marlene Vasconcelos, 21 anos, lembra que quando era da 4° série, indo para a sala de aula, uma colega de turma contou que sairia da escola porque o pai havia sido transferido para o Japão. Quando Marlene entrou na sala, a menina gritou que era mentira. “Ela interpretou tão bem que eu tinha ficado bem chateada com isso”. Por este motivo, ela considera este dia horrível. “Eu acho que, se for para fazer pegadinhas, que sejam leves. Não dizer, por exemplo, que nunca mais vai ver alguém, que está grávida e etc. Acho maldade com quem recebe a piada. Deve haver um limite”.

Todo esse clima de mentiras e brincadeiras surgiu na França, no reinado de Carlos IX (1560-1574). O mundo cristão receberia um outro calendário pelo papa Gregório XIII: o calendário gregoriano. Neste, o ano-novo passaria a ser no dia 01 de janeiro, gerando grande mudança já que o réveillon era comemorado na chegada da primavera, dia 25 de março. As festas duravam uma semana e terminavam no primeiro dia de abril. Em 1564, ano em que o novo calendário tornou-se oficial, as informações levavam tempo para chegar a população e entre os que sabiam da mudança, havia quem não concordasse.

Algumas pessoas resistiam e continuaram comemorando a chegada do outro ano em março. Isso tornou-se motivo de piada e eram mandados presentes inusitados para aqueles que insistiam em comemorar em outro dia, como convites para festas que não existiam. Quem não sabia da mudança, tinha a dúvida sobre a veracidade da data, já considerada oficialmente antiga. Com isso, 01 de abril tornou-se o dia da mentira e a ideia de brincadeiras e gozação espalhou-se para o mundo.

Na França o Dia da Mentira chama-se “Poisson d’avril”; na Itália, “pesce d’aprile” e nos Estados Unidos, assim como na Inglaterra, “April Fools Days”. Os britânicos levam o dia a sério: a emissora britânica British Broadcasting Company (BBC), em 1957, quis elevar o nível da brincadeira e produziu uma reportagem de dois minutos e meio sobre a descoberta de uma árvore que tinha como fruto o spaghetti. Antes da emissora esclarecer que era uma pegadinha, muitos telespectadores ligaram querendo informações de como conseguir plantar a massa no próprio jardim.

Já aqui no Brasil, uma pegadinha causou repercussão de atravessar oceanos. Mauricio Cid, criador do site Não Salvo, um dos blogs mais acessados do Brasil, é conhecido por criar pegadinhas e publicações de humor. Na Copa do Mundo de 2014, Cid criou um vídeo em que uma repórter coreana dizia que a Coréia do Norte estava na final da Copa. O país não participa dos Jogos desde 2010, mas a criação do vídeo e o plano criado estavam tão reais que convenceram até mesmo jornais, nacionais e internacionais. Após tamanha proporção, para evitar possíveis conflitos, Cid esclareceu dizendo que era apenas uma brincadeira.

Mentira como objeto de estudo

Há pessoas que defendem o uso da mentira no dia a dia, já que muitas vezes evitam conflitos e são elas que conseguem sustentar situações sociais como responder sobre um novo corte de cabelo de alguém, sobre a comida que um familiar passou a tarde toda preparando, ou até mesmo se Papai Noel existe. Todos são mentiras, em menor ou maior grau. A psicóloga Elaine das Neves, formada pela Universidade Celso Lisboa, explica que o problema está em mentir compulsivamente (vício) ou no hábito de sempre omitir, o que pode demonstrar uma dificuldade em relacionar-se com o outro de forma sincera, aberta, clara, mostrando-se tal qual é. “Defendo que a sinceridade e a honestidade devem estar sempre presentes nos relacionamentos, mas compreendo também que há situações em que a mentira ou a omissão podem ser um ato de piedade, quando se entende que a verdade vai causar um sofrimento maior”.

O hábito de mentir é, na maioria dos casos, aprendido. Não é difícil encontrar pais que tenham um comportamento diferente do discurso que passam aos filhos. Pregam que mentir é feio, mas são flagrados faltando com a verdade muitas vezes pelas crianças. Elaine das Neves afirma: “Não podemos generalizar, mas é confuso para os filhos entenderem o “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”, o que pode, em alguns casos, gerar comportamentos compulsivos de mentir no futuro”. A criança que não é orientada sobre o valor de se falar sempre a verdade e ainda assiste aos adultos a sua volta mentindo com naturalidade não sofrendo nenhum revés por isso. Deste modo, ela pode desde cedo adquirir o hábito e levar para a vida adulta, uma vez internalizada a ideia de que esconder a verdade é natural, sem consequências.

“Estamos vivendo na atualidade uma crise ético-moral, que, no meu entendimento, passa pela desatenção dos adultos em cuidar dos exemplos que transmitem para nossas crianças, dificultando que se tornem seres humanos conscientes, maduros, responsáveis e éticos”, diz a psicóloga. Entre os já adultos que ultrapassam o socialmente aceito para mentiras, há aqueles que desejam parar, mas não conseguem controlar. A psicoterapia é o recurso adequado para quem tem compulsão em mentir, como para qualquer compulsão ou questão existencial que a pessoa não esteja conseguindo dar conta sozinho.

A vida imita a arte

Se a vida da população mundial tem a mentira presente no dia a dia, é claro que os cinemas iriam aproveitar esta realidade para produzir de longas que mostrem como a sociedade está habituada a não dizer a verdade para algumas pessoas. De filmes infantis a drama, os filmes abaixo abordam o tema de modo a trazer reflexão sobre as situações que as mentiras podem trazer:

– Pinóquio (1940)

A animação da Disney traz a história do boneco de madeira que se torna um menino de verdade. Pinóquio se envolve em algumas encrencas e sempre que tenta contar alguma mentira, o nariz cresce.pinoquio_01– O Mentiroso (1997)

Jim Carrey interpreta um advogado que conta mentiras todos os dias. O rumo da história muda quando o filho faz um pedido de aniversário desejando que o pai não minta por pelo menos um dia. Ele é atendido e o advogado não consegue dizer mentiras por 24 horas e precisa lidar com várias situações.

o mentiroso

– Prenda-me se for Capaz (2003)

Frank Abagnale Jr. é um jovem que se passa por advogado, médico e co-piloto. Ele consegue enganar a todos e começa a ser perseguido pelo agente do FBI Carl Hanratty (Tom Hanks). Frank é interpretado por Leonardo DiCaprio e o filme é baseado em uma história real.

prenda-me

– Grandes Olhos (2015)

Dirigido por Tim Burton, o filme é baseado em uma história real. Margaret Keane (Amy Adams) é uma artista talentosa, mas o casamento complica a trajetória da pintora. Passado nos anos 50, Margaret ganha a fama dos quadros no estilo de grandes olhos por conta do marido Walter Keane (Christoph Waltz) que diz ser o autor das obras. Para o sucesso continuar, Margaret precisa mentir para todos, a deixando com peso na consciência.

grandes olhos

– O grande mentiroso (2002)

Jason Shephard (Frankie Muniz) é um menino de 14 anos que sempre mente. Um dia, ele bate na limosine de Marty Wolf (Paul Giamatti), um produtor que também usa a mentira para tudo. Jason descobre que a história que ele havia escrito ficou na limousine e o que era apenas uma redação é transformada em filme de sucesso por Marty, levando o crédito por tudo. O menino vai até Hollywood com a amiga Kaylee (Amanda Bynes) para complicar a vida do produtor que ganhou dinheiro em cima do que ele escreveu.

o grande mentiroso



Yasmin Thomaz – 5º período 

 

 

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