A paixão de Clarice

Na última semana, o espetáculo “Simplesmente Eu, Clarice Lispector” voltou ao Rio para uma curta temporada. A peça, que já passou por mais de 240 cidades pelo Brasil, com mais de 800 mil espectadores, mostra de maneira poética e arrebatadora um pouco da personalidade e do processo de criação de uma das maiores escritoras da história, alternando entre a própria Clarice e algumas de suas personagens mais marcantes, como “Joana”, Lóri”, “Ana” e — talvez a mais famosa de suas criações — “G.H.”.

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O monólogo expõe o universo de Clarice, que ocupa cada canto e cada palavra do palco. A atriz Beth Goulart, idealizadora do projeto, passou dois anos pesquisando entrevistas, cartas e depoimentos para produzir a peça, que também apresenta passagens dos livros “Perto do Coração Selvagem” e “Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres”, dos contos “Amor” e “Perdoando a Deus” (da coletânea “Laços de Família”), além de referências ao romance “A Paixão Segundo G.H.” — considerado o magnus opus da escritora.

Beth Goulart, que além de assinar o texto e atuar no espetáculo também é responsável pela direção, mergulhou de cabeça na obra e no mundo de Clarice e define a experiência como transcendental. “Esse espetáculo é uma grande declaração de amor à Clarice Lispector; sou uma grande admiradora dela, me considero uma “clariciana” por ser apaixonada por essa obra dessa grande mulher”, diz Beth sobre a peça.

E tanta dedicação tem valido muito a pena. Desde a estreia da montagem, em 2008, a peça já ganhou cinco prêmios, sendo quatro deles de Melhor Atriz para Beth Goulart — também foi ganhador de Melhor Espetáculo e recebeu indicações nas categorias Melhor Iluminação e Melhor Produção. Assim como muitos, Beth diz que Clarice não se lê, é uma experiência; e, ao ler “Perto do Coração Selvagem”, aos treze anos, a identificação foi imediata.

“LIBERDADE É POUCO. O QUE EU QUERO AINDA NÃO TEM NOME”

A peça cumpre de forma sublime o seu propósito, fazendo o público chorar e rir e embarcar de bom grado pelos “corredores claricianos”, sendo conduzido pela alma inquieta de C.L. E a volta aos palcos parece ter sido providencial, já que no último ano a obra de Clarice Lispector, voltou a ser traduzida para o inglês, chamando atenção da crítica estadunidense — o The New York Times a colocou em sua lista dos melhores de 2015, a New York Book Review a estampar em sua capa e o Wall Street Journal a chamou de “a Virginia Woolf brasileira”, fazendo referência à escritora inglesa que, assim como Clarice, era obcecada em desvendar as questões da alma humana._20160314_230724

Na primeira cena do espetáculo, Beth surge no palco de costas, e, quando se vira para a
plateia, é impossível ver a atriz — só é possível enxergar Clarice. O trabalho intenso de pesquisa e preparação fez com que Beth ultrapassasse e muito o limite da “imitação”: ela se tornou Clarice num ponto em que intérprete e personagem se misturam de maneira assombrosa. Segundo Beth, a última entrevista concedida pela escritora foi fundamental para atingir este resultado. “Ali, pude perceber o tempo dela de pensar e se expressar, a voz”, ela detalha. E com esta incorporação da “aura clariciana”, Beth simplesmente domina tudo e todos durante os 60 minutos da peça.

Na última cena, numa associação entre a interpretação poderosa de Goulart e um jogo de iluminação excepcional, vê-se apenas o rosto de Clarice no palco, mesmo quando a atriz dá as costas para o público. Ao fim do espetáculo, Beth (já como si mesma) agradece ao público. “Obrigada pela presença. Obrigada pelo silêncio”, ela diz, emocionada. E um fã de Clarice entende imediatamente o que ela quer dizer. “O silêncio ao qual Clarice se refere não é o silêncio de ficar quieto. É o silêncio de saber ouvir a nós mesmos”. Uma digníssima e merecida homenagem à Clarice.

O ENCONTRO DE BETH E CLARICE

No foyer do teatro, há ainda a exposição “Entre Ela e Eu”, que conta a história de Clarice (sua chegada ao Brasil, ainda bebê) e sua jornada como uma mulher forte e à frente de seu tempo. A mostra e repleta de fotos, ilustrações e representações feitas por diversos artistas que conheceram C.L.

“É FÁCIL ME PINTAR: BASTA PÔR MAÇÃS ELEVADAS, OLHOS UM POUCO OBLÍQUOS E LÁBIOS CHEIOS. SOU CARICATURÁVEL”

– Clarice Lispector

A exposição ainda inclui um rico relato feito pela atriz Beth Goulart sobre como ela conheceu a obra de Clarice, ainda na adolescência, e como as palavras da autora a encantaram, fato que a levou a criar ambos os projetos. “Eu achava que não era compreendida. O que fazer com tudo isso dentro de mim, com esse processo criativo? Só Clarice me entendia”, conta Beth.

A mostra “Entre Ela e Eu” serve para absorver o espectador para dentro do universo de Clarice com dados biográficos, material de arquivo e trechos de textos, ambientando as pessoas por este labirinto misterioso que é a mente e a obra “clariciana”, para, enfim, invitar o espectador ao encontro de Beth, no palco. E como se tudo isso já não bastasse para envolver o público, ao fim de cada apresentação, dois livros de Lispector são sorteados à plateia. Melhor impossível.

As apresentações tiveram início no dia 10/03 e terão duas sessões extras nos dias 18/03 (sexta-feira) e 19/03 (sábado), sempre às 19:30, no Teatro SESI Centro, ou seja, ainda dá tempo de conferir este trabalho incrível. A exposição “Entre Ela e Eu” é gratuita e os ingressos para a peça custam R$40,00.


Daniel Deroza – 3º período

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