Vivências: sobre a vida no asilo La Vivência

Vivências

Idosos estimulam o corpo e a mente através de oficinas

Alguns sequer sabem quando chegaram à casa de repouso La Vivência. Fernando Teixeira, 93, arrisca cinco anos. Frieda, de descendência alemã, se limita a dizer: “Estou presa”. Ela está com problemas nas pernas e, por não conseguir se apoiar sentada, foi amarrada à cadeira. “Estou presa na cadeira e aqui” – completa e ri. É o único pensamento coerente em português que consegue articular. Frieda não dá pistas. Num dado momento, leva o indicador direito aos lábios como se compartilhasse um segredo. E desanda a falar em alemão.

“Trabalho a memória deles com músicas, brincadeiras e jogos, sempre respeitando o tempo de raciocínio deles. Eles me surpreendem lembrando de poesias e músicas de seu tempo” (Iara Cristina)

Na aula de exercícios para a memória, resgata a infância. “A Frieda abre um pacote de presente. Ao abrir, encontra uma linda bolsa de crochê para passear no cinema”. Ainda resta vaidade depois da velhice. Izilda usa colar de pérolas falsas, pulseira e anel. Por mais que a enfermeira chame para ir ao banheiro, ela recusa. Não quer agora. As calças denunciam o porquê.

A atividade segue mesmo assim. Logo todos recebem instrumentos de música – a maioria triângulo ou chocalho. A professora, Iara Cristina, se encarrega do violão. Ela, que por muito tempo ensinou música e língua portuguesa, agora é a responsável por exercitar a memória dos idosos do La Vivencia. Já está lá há dois anos, desde que fez um curso na Oficina da Memória, na Universidade Estadual do Rio de Janeiro.

Iara (à direita) realiza semanalmente oficina de memória com os idosos

 (Foto: Raphael Sanchez) Iara (à direita) realiza semanalmente oficina de memória com os idosos

É assim que Fernando puxa a marchinha “O teu cabelo não nega, mulata” (LINK: http://www.youtube.com/watch?v=a8uroMUjElY). Enquanto isso, sonha com o amor de muitas musas. “Eu era vendedor de artigos de vestuário feminino. Masculino também, mas mais feminino. Quem gosta de homem é lobisomem”. E de repente solta os versinhos “E só assim, então, serei feliz, bem feliz. Ah se tu soubesses como eu sou tão carinhoso e muito, muito que te quero. E como é sincero o meu amor, eu sei que tu não fugirias mais de mim”. Mais canta que fala. Se gosta de mulheres, a música é uma de suas maiores paixões.

“A minha vida foi assim, viajando e cantando. Rodei o Brasil de Norte a Sul com minhas mercadorias. Ia e quando voltava sem trabalho: tinha vendido tudo”. Dos lugares que visitou, diz que o preferido foi a Bahia, porque “lá tem tudo” – todos os santos, muita igreja. Para quem andou o país inteiro, as pernas agora teimam em obedecer. Depois da aula, ele precisaria da ajuda de uma enfermeira para sentar-se à mesa de jantar. Os passos curtos, as pernas quase coladas uma na outra. Mesmo assim, não consegue ouvir falar de tango.

“Dançava pra caramba. Agora que entrei nesse assunto, minhas pernas tão até balançando”. Como não consegue dançar, Fernando desata a sorrir quando recebe o triângulo da professora Iara Cristina. A ideia é cantar músicas da época dos idosos. Quase todos acompanham. Alguns empolgados como Fernando. Outros como Frieda, blasé.

Há ainda Ana. Ela bate palmas e canta, mas logo se dispersa. Sai andando sem rumo até que uma enfermeira a traga de volta. Tira a mochila esquecida por jovens numa cadeira e a põe no chão. “Bolsa não senta”. Diz que já trabalhou com “isso”, enquanto aponta para um bloco cheio de anotações. Ela não entende a letra de quem ali escreveu. “Já trabalhou com o que, Ana? Você costumava escrever?”. “É”. “E você escrevia o que?”. “Eu não sei. O que era mesmo que eu tava dizendo?”.

 Atividades propostas também englobam colagens sobre temas gerais e sobre a própria vida

(Foto: Raphael Sanchez) Atividades propostas também englobam colagens sobre temas gerais e sobre a própria vida

A memória falha e um tanto da vida deixa de ser lembrada. Iara muda o exercício. Agora é preciso dizer o nome do colega ao lado. Muitos não sabem e precisam de ajuda antes de se pronunciar. A professora deixa escapar: “A gente tá aqui todo dia e mal se conhece”. Ela muda o jogo mais uma vez. Agora, pede palavras com alguma letra aleatória. O vocabulário da maioria se resume aos nomes dos seus colegas.

– Uma palavra com F!
– Frieda!
– Fernando!
– Agora com B.
– Beijo!

Marcos diz que quer um beijo e um abraço. Iara prontamente atende. Diva se equivoca. Escuta a letra errada e faz um anagrama com o próprio nome: “Com V? Vida!”. Sim, mesmo fora de hora, na contramão da brincadeira, a vida insiste em estar lá.

Melina França – Jornalismo Digital – 7º período

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