Crônica

Meu primeiro voto para nossa última chance

A sensação de vitória veio no melhor momento, quando achava que não daria certo, que nada mudaria o país, o meu primeiro voto na sua última eleição.

Nunca estive tão ansioso por um momento quanto esse. Quando cheguei na minha fase adulta, em que as responsabilidades realmente começam a aparecer, essa era a que eu mais estava feliz de bater na porta. Aos 21 anos, dei meu primeiro voto, participei de movimentos estudantis, quase me filiei a um partido e cresci meu lado político verdadeiro.

Sempre acompanhei minha mãe a votar na zona eleitoral dela, onde voltamos ao nosso antigo bairro e eu ficava esperando ela na porta da igreja enquanto pensava quando seria minha vez, quando chegaria o meu momento de confirmar tanta responsabilidade com meu país, o que me assustava um pouco, como alguém pode exercer um poder tão forte assim?

Em 2024, entre o corre corre de conseguir os documentos para matrícula universitária, tirei meu título de eleitor sozinho, somente com a ajuda do google para me localizar. Desde criança, sempre me senti meio adulto com isso, nunca tive problemas com localização, mapas ou onde devo puxar a cordinha do ônibus para saltar no ponto certo. Isso também entra na política, cresci em duas famílias extremamente posicionadas, com histórias de necessidade e de como o governo atual mudou a nossa vida. Nunca me foi preciso um aviso para onde seguir e que número apertar nas urnas, nasci com ele marcado na consciência.

Enfim, chega o tão esperado dia 5, me levanto naquela ansiedade de quem vai no passeio escolar do oitavo ano, que, na época, a única preocupação era qual roupa ficaria melhor para impressionar os colegas ou aquele menino que você gosta secretamente. Mas naquela manhã eu me arrumava pronto para ajudar na história do meu país, a roupa iria importar o que aconteceria comigo do portão para fora, a indecisão entre ser um ponto vermelho destacado ou passar despercebido como fiz durante toda minha adolescência. Com medo do que poderia acontecer, escolho seguir escondido, com a minha verdade guardada no peito.

Antes de sair de casa, olhei todos os vídeos na internet sobre erros que podem acontecer na mesa de votação, como um bom ansioso, tentei me prevenir de qualquer problema que possa aparecer no caminho. Quando fico de frente daquela urna penso em como um simples erro de digitação pode mudar o rumo do meu país, e de como as pessoas erram de propósito, se achando certas daquela decisão. Com minha colinha, votei pelos meus, que me defendem e protegem meus direitos. Entre os candidatos, escolhi aqueles que mais se aproximam de um ciclo social comum da minha vida; Pretos, trans, gays e lésbicas fazem parte da minha vida desde sempre, cresci cercado por minorias que, para mim, eram a maioria, aqueles que sempre foram presentes e deram a cara à tapa pelos próximos, sendo meu exemplo a ser seguido.

Me lembro do meu grupo de amigos do ensino médio, daqueles enormes que todo final de semana se encontram e dá um problema, onde estava cercado por todos os tipos de tons de pele, identidades e personalidades. Dos mais chegados às suas causas, que você compartilha as inseguranças da vida, ou até mesmo aquele amigo que você não gosta muito pelo caráter duvidoso mas mesmo assim mantém por perto, tinha de tudo, cada um deles ocupa um cargo.

Ao final, depois de reencontrar meus amigos na urna, chega a decisão mais importante do ano: escolher o presidente. Como disse em outras linhas, nunca me surgiu dúvidas em quem votar, sempre soube em qual número colocar naquela máquina, em quem confiar meu país. Isso me deixa ainda mais pensativo porque sempre tive dificuldade em confiança, sempre tive muita cautela para entregar meu voto para alguém na vida, mas aqui, isso virou certeza. Todas as questões políticas e sociais propostas por ele me encantam, a escolha final vem como um escudo para os cargos escolhidos antes desse, nossos direitos recém garantidos só seriam mantidos com ele vencendo.

Quando chega a apuração, a sensação de copa do mundo se repete na mesa do bar, os amigos reunidos para acompanhar o resultado do primeiro turno, que, infelizmente, não termina da melhor maneira. E aqui começa a parte mais louca de tudo isso. Ampliar a força do movimento estudantil, dos movimentos trabalhistas e poder ir às ruas pela democracia sempre fez parte da minha família. Uma prima, professora de geografia, sempre foi referência para mim de como lutar pelos próprios direitos, me influenciando diretamente como pessoa política nesse mundo. Após o resultado desastroso, minhas redes viraram uma parte da minha militância, as fotos bonitas, os dump de fim de mês, os stories de feliz aniversário saem e entram os reposts políticos, as informações verdadeiras sobre o governo no qual confio.

Na rua, os locais em que tinha memória dos blocos de carnaval e das conversas de bar com os amigos, se misturam com as horas de caminhada entre outros estudantes, os gritos ecoados entre os prédios da avenida, o choro preso na garganta e a força de vontade pela luta da nossa liberdade. O misto dessas lembranças, entre as micaretas e os protestos, todas se estabelecem no mesmo espaço, ambos se conectam com o sentimento de pertencimento, liberdade e união entre um grupo de pessoas desconhecidas. Repeti essa dose de democracia outras duas vezes na mesma semana, saí de casa, encontrei amigos, não o mesmo do ensino médio, mas com a mesma energia.

Juntos fomos mais fortes na luta por um país justo.
(Foto: Acervo Pessoal)

No último domingo, 25 de outubro, chega o dia que definiu os dias anteriores e como seriam os próximos. Resolvo não me colocar em prova com a apuração, me conheço e sei que passaria mal, independente do resultado. Às 18h deito na cama e vou dormir fingindo que o mundo em volta não existe, me afundo em outros pensamentos e deixo o sono me levar. Exatamente às 20:30h, eu levanto com gritos na rua e vou direto ligar a TV da sala, todos em casa apreensivos, com medo do resultado, mas foi o exato momento em que viramos e não paramos de subir. Ali tudo em volta virou festa, nossos vizinhos, que nunca fomos próximos, viraram nossos companheiros, as festas da comunidade se tornaram uma só com a gritaria, o choro, as buzinas, as latas de cerveja e os abraços. Me senti vivendo uma catarse, uma euforia tão grande que só fui deitar de madrugada mas sem conseguir pregar os olhos.

Lembrei que ainda existe esperança, que os meus amigos, com quem passei anos juntos, estariam seguros até certo ponto, que nosso futuro foi preservado, que nossa democracia não entra em jogo. Poderíamos ter nos desesperado, entrado em crise e desistido depois do primeiro dia, mas nos organizamos e entramos numa luta necessária pelo bem do meu povo.

Meu primeiro voto definiu a maluquice dos meus dias, mudou o rumo da história brasileira, botou para correr candidatos amedrontados, fizemos história com uma virada jamais vista antes. Votar é democrático, é ser cidadão, é essencial para a construção de um país justo. Aquele Gabriel que acompanhava a mãe até a urna, que sonhava em um dia poder fazer o mesmo para escutar o barulinho do confirma se sente realizado, adulto e um pouco mais responsável, mas ainda com medo do que está por vir.

Foto de capa: Acervo pessoal/Gabriel Goulart

Crônica de Gabriel Goulart

LEIA TAMBÉM: Eleição presidencial no Rio de Janeiro reflete divisão territorial a partir de ideologias opostas

LEIA TAMBÉM: Movimento Rap Contra a Direita convoca artistas e fãs a mobilizar eleitores às vésperas do segundo turno

Avatar de Gabriel Goulart

Gabriel Goulart

jornalismo, entretenimento e fotografia @artgoul__ nas redes.

Você também pode gostar...

1 comentário

Deixe um comentário