A realidade nua e crua dos cinemas de rua da cidade do Rio de Janeiro mostra o contraste entre um auge glorioso no século XX e seu momento melancólico com poucas salas abertas ao público. Ir ao cinema se tornou um hábito cotidiano do carioca entre os anos de 1920 e 1950, se tornando uma opção de lazer, com preços acessíveis e próxima à vida das pessoas. A chegada do cinema, aliás, influenciou também as construções urbanas da época, na arquitetura e urbanismo. Portanto, a presença dos cinemas no Rio ajudaram a criar uma identidade carioca na cidade.
A partir dos anos 80, os cinemas que privilegiavam a calçada e as fachadas ativas que ocupavam diretamente os passeios públicos, se tornaram cada vez mais escassos. A presença forte da televisão na vida das famílias, assim como os videocassetes e das TV’s por assinatura ajudaram na redução de espectadores nas salas de cinema. A ascensão dos shoppings centers também se relaciona com o atual momento desses espaços de lazer, os quais foram substituídos por redes de cinema localizadas nos andares dos centros comerciais.

Foto: Reprodução/Divulgação
Talitha Ferraz, professora do Programa de Pós-graduação em Cinema e Audiovisual da UFF, e pesquisadora em história do cinema, entende que os cinemas de rua possuem uma função ligada a sociabilidade e produção de laços afetivos.
“O cinema de rua é um equipamento urbano, de lazer e cultura, e está historicamente relacionado a configuração dos espaços da cidade, portanto, têm uma função social, sendo um catalizador de possibilidades que as pessoas têm de estarem juntas para usufruir de um produto cultural. É um lugar especial da cidade, como se fosse uma dobra no cotidiano, no vai e vem das ruas, com um outro ritmo, com um jogo de luz diferente, ou seja, existe toda uma proposta diferenciada de vivência desse espaço urbano”, diz ela.

Foto: Reprodução / Acervo Pessoal
O desaparecimento dos cinemas de rua, por meio da crescente existência dos shoppings centers e dos novos interesses de certa parte da população, mudaram drasticamente a rotina de quem frequentava esses espaços. Para o morador da periferia, por exemplo da Zona Norte, a transformação urbanística nesse momento lhe afetou de forma categórica. Os shoppings centers, distantes e estimuladores do consumo incessante – e caros – se tornaram opções nem sempre viáveis de lazer e cultura para a população.
Também têm aspectos afetivos, além de aspectos arquitetônicos. Historicamente tinham arquiteturas próprias, então eram prédios construídos para abrigar a experiência cinematrográfica, se destacando na paisagem urbana”, completa a pesquisadora.
Outro ponto que afetou a existência desses espaços culturais foi a mudança da configuração das cidades em termos urbanísticos, como por exemplo, o foco nos automóveis. Essa nova dinâmica transformou o modelo de como se locomover no bairro, com menos pessoas caminhando nas calçadas e mais necessidade de estacionamentos, algo que os cinemas que existiam nas ruas dos bairros não possuem.
“Existem fenômenos urbanos como a presença dos carros, a necessidade de estacionamentos, porque a gente sabe que hoje em dia quando pensamos em termos de lazer, a garantia do estacionamento é uma coisa importante. A violência urbana também conta bastante. A especulação urbana, em que muitos desses espaços ocupavam uma esquina inteira, com prédios enormes e espaço para 3000 lugares, era mais rentável, para um investidor, vender esse imóvel do que manter uma sala de cinema, ainda mais essas de antigamente que tinham apenas uma sala de exibição”, esclareceu Talitha.
A especulação imobiliária também é um motivo pelo qual os cinemas estão se tornando espaços raros nos passeios públicos. Cada vez mais a dificuldade de investir e deixar de pé salas de cinemas com sua estrutura original e mantendo sua manutenção aumenta ao passo que menos pessoas frequentam os cinemas de rua e preferem ir para as franquias instaladas em shoppings. Neste ponto, Cavi Borges, coordenador e programador de eventos da Estação Botafogo, argumenta que é mais rentável construir uma farmácia ou um prédio no lugar de um cinema e critica a especulação imobiliária, grande fator que derruba os cinemas de rua hoje em dia.
“O Estação vira um ponto de encontro, um lugar que além dos filmes, as pessoas vão para conhecer e encontrar amigos. São espaços culturais concentrados na Zona Sul, em que grande parte das pessoas, do subúrbio e de outras regiões, precisam se deslocar para esses bairros para participar de toda a programação, gastando horas de transporte público. A falta desses espaços na cidade está relacionada a especulação imobiliária, falta de investimento do governo, e falta de renda, ja que o cinema não gera tanto dinheiro quanto antes, sendo melhor construir uma farmácia ou um prédio”, explicou Borges.

Foto: Reprodução/Agência O Globo
Bairros como Madureira e Irajá, na Zona Norte, são alguns exemplos de regiões que já receberam salas de cinema em suas ruas, se tornando espaços de encontro de seus moradores. Atualmente, os antigos cinemas desses bairros deram lugar a igrejas, majoritariamente evangélicas, ou lojas e farmácias. A paisagem ao longo dos anos mudou, e a configuração de lazer dos moradores acompanhou as mudanças.

Foto: Reprodução/Madureira: Ontem e Hoje

Foto: Marcos Paulo
Vânia, aposentada de 67 anos, moradora do bairro de Madureira desde a década de 70, revela memórias da época que frequentava o cinema da rua Dagmar da Fonseca e a mudança de hábitos ao ir a esses espaços ao longo dos anos.
“Naquela época a gente frequentava muito os cinemas dos bairros, e eu como moro em Madureira desde 1971 ia muito no Madureira 1 e 2, que era famosíssimo, porque além deles serem grandes e espaçosos, as cadeiras eram de madeira e a gente deitava e conseguia assistir ao filme. O cinema era lotado, muita fila, podia assistir até três vezes o filme, porque ninguém te botava para fora. Acabava a sessão e quem quisesse sair saía, e quem não quisesse podia ficar lá. Marcávamos na porta do cinema, comprávamos pipoca com o pipoqueiro do lado de fora, e em uma barraquinha comprava o ingresso e balas no mesmo lugar, entrava de tarde e saía somente tarde da noite”, comentou a moradora.
A história urbana, com o fechamento dos cinemas, é completamente apagada, e portanto memórias como de Vânia se tornam cada vez menos presentes para novas gerações. O empobrecimento cultural, a perda de sentido do prédio com o passar dos anos e a vida urbana cada vez menos dinâmica, seja com a ausência de cartazes nas calçadas ou o contato com quem caminha durante o dia, são fatores que mostram como esses espaços – ou a falta deles – impactam na cidade.
Embora quase extintos, existem alguns cinemas que ainda resistem o tempo e continuam de portas abertas. Em Botafogo, o Estação Net e o Belas Artes são famosos pela programação variada, pelos cafés e livraria, além de eventos que ocorrem nos cinemas. Em Santa Teresa, resiste um cinema de apenas uma sala, porém bastante charmoso, que é ponto turístico. O Cine Odeon continua aberto, sendo o pioneiro e último cinema na Cinelândia, com arquitetura neoclássica e que funciona como centro cultural com shows e festivais. Em Copacabana, o antigo Cine Roxy passou por reformas e se tornou uma grande casa de show e recebe o público com uma temática diferente da anterior.
A partir do momento negativo, a Prefeitura do Rio criou na última semana o “Reviver Cinema”, projeto que pretende revitalizar os cinemas de rua abandonados na cidade. Com investimentos públicos e parceria com iniciativa privada, o projeto tem objetivo de reabrir salas de cinema que estão fechadas por décadas. O programa prevê três etapas, em que a primeira consiste recuperar espaços que já existem, a segunda para imóveis que estão em processo de desapropriação, e a terceira, realizada pela RioFilme, o mapeamento de imóveis que já abrigaram cinemas e que poderiam ser desapropriados e transformados em polos culturais.
Foto de Capa: Reprodução/Estação NET
Reportagem de Marcos Paulo, com edição de texto de Gabriel Goulart
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