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Do cinema ao OnlyFans: especialistas discutem as fronteiras entre a plataforma e a pornografia

Atriz de Harry Potter expõe o descaso e o julgamento que sofre quando recorreu ao OnlyFans

A atriz Jessie Cave, conhecida por interpretar Lilá Brown na franquia Harry Potter, enfrentou a escassez de trabalho no mercado cinematográfico e decidiu produzir conteúdo para o OnlyFans. Apesar de a plataforma ser conhecida por vídeos explícitos, Cave aposta em um público específico que não busca a exibição de intimidade. Jessie Cave anunciou, em março do ano passado, que abriria uma conta na plataforma e atualmente produz conteúdos focados em seu cabelo. Usando fantasias ou roupas comuns, sem expor a intimidade, ela grava vídeos trançando ou simplesmente mexendo nos fios. O objetivo é alcançar pessoas com fetiche em cabelo.

Apesar de seu perfil não conter cenas sensíveis ou inadequadas, Cave relatou ao jornal britânico The Times que chegou a ser banida de uma convenção de “Harry Potter” sob a justificativa de que o evento era voltado para toda a família e que o OnlyFans estaria associado à pornografia. A atriz demonstrou indignação ao afirmar que alguns atores da franquia participaram de cenas de sexo e nudez em filmes, enquanto ela estaria apenas “brincando com o cabelo”.

Nesta reportagem, especialistas analisam a relação entre cinema, pornografia e plataformas de conteúdo adulto, discutindo os limites entre arte e erotismo, os estigmas associados à indústria pornográfica e os riscos enfrentados por criadoras de conteúdo no OnlyFans.

Atriz ficou conhecida por seu papel na franquia de sucesso, “Harry Potter”.
(Foto: Reprodução/Instagram/@jessiecave)

Cinema explícito versus pornografia e Onlyfans

Apesar de seu conteúdo não apresentar cenas explícitas, o caso de Cave levanta um questionamento sobre a associação de seu nome ao OnlyFans. Segundo a justificativa apresentada para o banimento, a plataforma estaria relacionada à pornografia, ainda que a atriz não produza esse tipo de conteúdo. A situação também abre espaço para uma discussão: seguindo esse raciocínio, o que diferencia uma atriz pornô de uma atriz que aceita participar de cenas de sexo e nudez em produções cinematográficas?

Apesar de o cinema tecnicamente englobar a pornografia, a sociedade não costuma enxergá-los como iguais. O cinema é reconhecido como a sétima arte e, por seu caráter artístico e cultural, ocupa um espaço socialmente legitimado, ainda que também esteja sujeito a preconceitos.

Rodrigo Gerace, doutor em Cinema pela UFMG, reflete, em seu livro “Cinema Explícito: Representações Cinematográficas do Sexo”, sobre os limites entre o pornográfico, o artístico, o erótico e o obsceno. Segundo o autor, essas definições não são rígidas, já que o conceito de obscenidade se transforma de acordo com aspectos culturais e temporais. Gerace também aponta que, enquanto a indústria pornográfica reduz o sexo ao ato e busca provocar a excitação sexual do espectador, o cinema explícito contemporâneo procura relacioná-lo a uma pluralidade de significados.

Pornografia e OnlyFans: qual é a diferença?

Criado no final de 2016, o OnlyFans surgiu com a proposta de facilitar a monetização de conteúdo produzido por criadores. A plataforma tinha como público inicial influenciadores e músicos do YouTube, mas eles não alcançaram os números esperados pelos diretores. No fim de 2017, a restrição a conteúdos explícitos foi retirada. Com a entrada de criadores de conteúdo adulto, a plataforma passou a registrar um crescimento significativo.

As produções pornográficas frequentemente são alvo de preconceito e tratadas com desprezo em razão de valores religiosos, tradicionais e conservadores enraizados na sociedade. No entanto, a rejeição ao gênero também pode estar relacionada à objetificação das mulheres e a relatos de violência e abuso nos bastidores dessas produções.

Beatriz Botelho, psicóloga clínica formada pela Universidade Federal da Paraíba, desenvolveu estudos sobre sexualidade e direitos das mulheres e passou a observar e analisar o fenômeno do OnlyFans. Segundo ela, quando escreveu um artigo sobre o tema, entre 2022 e 2023, a plataforma apresentava benefícios para mulheres interessadas em trabalhar com conteúdo sexual fora da indústria pornográfica.

A promessa era de que as mulheres teriam mais agência, ou seja, liberdade e independência para escolher o que seria mostrado nos vídeos, além de maior proteção contra os abusos e perigos da indústria pornográfica. No entanto, essa dinâmica se tornou mais complexa nos últimos anos.

“Agora há, tipo, uma cafetinagem online. A menina só cresce no OnlyFans hoje em dia tendo esses cafetões que fariam uma promoção do conteúdo delas. Porque, como virou uma promessa de conseguir o próprio dinheiro e independência, muitas meninas estão indo (para o OnlyFans). Então, o mercado ficou extremamente saturado. E se você não tiver um bom agente, se não estiver disposta a fazer coisas muito extremas para chamar atenção, você não vai ganhar dinheiro”, disse Botelho.

Apesar de o mercado não ser lucrativo para todos, Jessie Cave afirma ter ganhado, em um ano, mais dinheiro do que ao longo de toda a sua carreira como atriz. No primeiro dia na plataforma, após publicar seu vídeo, ela faturou 15 mil libras, o equivalente a cerca de R$ 102 mil.

Beatriz afirma que o caso de Cave foi bem-sucedido justamente porque ela já era uma atriz conhecida, realidade diferente da maioria das mulheres que entram no OnlyFans. Ainda assim, a atriz não está isenta da tendência de precisar produzir conteúdos cada vez mais explícitos para manter o mesmo nível de ganhos, algo que a própria Cave apontou ao afirmar que não deve permanecer na plataforma por muito mais tempo. Além disso, a possibilidade de conseguir um emprego formal após trabalhar no OnlyFans é pequena.

“Quando a pessoa vê que aquilo (postar conteúdo no OnlyFans) não vai dar certo, depois, para conseguir um emprego formal é muito difícil. A internet é para sempre. Uma hora vão achar (o conteúdo). Uma hora vão mandar para o seu chefe. Uma das coisas que mais fazem nas empresas hoje em dia é procurar o seu histórico, o que você tem publicado”, disse Botelho.

Beatriz explica os riscos enfrentados pelas criadoras de conteúdo no OnlyFans e comenta o caso de Jessie Cave.

O OnlyFans pode expor mulheres e jovens a riscos a longo prazo e a situações de abuso, muitas vezes sem que tenham plena dimensão das possíveis consequências. Nesse contexto, estar associada à empresa e contribuir para seu faturamento pode atrair críticas, especialmente no caso de uma figura pública. Jessie Cave recorreu à plataforma como forma de sustento para si e seus filhos, mas sua fama, que também contribuiu para seu crescimento no ambiente virtual, acaba tornando mais intenso o julgamento por parte dos internautas e das pessoas ao seu redor.

Foto da capa: OnlyFans/Reprodução

Reportagem de Carolina de Melo, com edição de texto de Cássia Verly

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