Educação

Professores e alunos reacendem o debate sobre aprendizagem na era da inteligência artificial após queda no PISA 2025

Resultado divulgado pela OCDE aponta queda no desempenho dos estudantes e reacende debate sobre aprendizagem em um cenário marcado pelo avanço das novas tecnologias

O resultado do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA) 2025, divulgado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) na terça-feira (8), acendeu um alerta para o desempenho dos estudantes em competências fundamentais, especialmente em leitura. O cenário ocorre em um período marcado pela expansão do uso de ferramentas de inteligência artificial (IA) dentro e fora das salas de aula.

Em vídeo publicado nas redes sociais da OCDE, Andreas Schleicher, idealizador e coordenador do PISA, refletiu sobre os impactos do uso da inteligência artificial na educação. Segundo o pesquisador, o simples acesso a conteúdos e respostas proporcionados pela tecnologia não significa, necessariamente, uma melhoria na aprendizagem.

Para Schleicher, os estudantes desenvolvem suas capacidades por meio do esforço e do envolvimento ativo com o processo de aprendizagem. Nesse sentido, o uso de ferramentas de IA que facilitam determinadas tarefas pode representar um problema quando substitui justamente o esforço necessário para desenvolver competências.

A discussão sobre o uso da inteligência artificial também aparece na rotina dos professores. Para o professor de matemática Rafael Monteiro, muitos estudantes utilizam essas ferramentas de maneira inadequada, recorrendo à tecnologia para obter respostas prontas em vez de compreender o conteúdo.

Segundo o professor, em alguns casos, os alunos chegam a entregar atividades contendo até mesmo o prompt utilizado para solicitar a resposta à ferramenta de IA. Ele também relata perceber uma diferença entre o desempenho apresentado em trabalhos realizados fora da sala de aula e a capacidade demonstrada pelos mesmos estudantes durante as atividades em classe.

“Os estudantes utilizam IA para substituir o esforço necessário para aprender competências básicas”, afirmou o professor.

Para Rafael, a responsabilidade pela conscientização sobre o uso da tecnologia não deve ser atribuída somente às escolas. Famílias e instituições de ensino precisam atuar conjuntamente para orientar os estudantes sobre os limites e as consequências do uso inadequado dessas ferramentas.

“As famílias precisam conscientizar os estudantes quanto aos malefícios do mau uso de IA, visto que as escolas não podem ter controle do que os alunos fazem em casa. Elas podem, sim, orientar, mas não é possível responsabilizar apenas as instituições de ensino”, explicou.

Para a professora de Geografia Hellen Araújo, o resultado do PISA 2025 também expõe problemas estruturais do sistema educacional brasileiro. Na avaliação da professora, o país convive há anos com baixos índices de proficiência em áreas fundamentais, como leitura, matemática e ciências, sem que as dificuldades tenham sido efetivamente solucionadas.

Hellen considera que o uso indiscriminado das redes sociais e das ferramentas de inteligência artificial pode acentuar problemas que já existem no processo educacional.

“É muito alarmante porque a IA não está sendo usada como uma ferramenta, mas como um cérebro substituto. Então, ela acaba removendo o esforço de aprender e tendo um impacto não apenas a nível Brasil, mas a nível mundial”, explicou a professora.

Para a professora, discutir a presença da tecnologia na educação não deve significar apenas ampliar o acesso às ferramentas. Também é necessário pensar em como elas serão incorporadas ao processo de aprendizagem.

“Investir na educação não é dizer que tem dinheiro! Além de liberar os recursos, é preciso investir em orientação de como utilizar esses recursos, investir em material humano e prover um ambiente para o aluno desenvolver suas múltiplas inteligências, porque escola não é apenas um lugar para se decorar conteúdo”, afirmou a professora.

A professora de inglês Roberta Sousa também observa mudanças no comportamento dos estudantes após a popularização da inteligência artificial. Para ela, a tecnologia potencializou um desinteresse pela aprendizagem que já era percebido entre os alunos.

Na avaliação da professora, a IA poderia funcionar como um caminho para ampliar o conhecimento, mas muitos estudantes acabam utilizando a ferramenta para eliminar justamente o processo necessário para chegar à resposta.

“Os alunos passaram a usar a IA não como um caminho para a aprendizagem, mas como um fim”, explicou a professora.

Assim como Hellen, Roberta defende que a escola ensine os estudantes a utilizar a tecnologia de maneira consciente, em vez de simplesmente tentar impedir seu uso.

“A inteligência artificial pode ajudar no caminho, mas não fazer o caminho por eles”, afirmou a professora.

Entre os estudantes, a percepção sobre o uso da inteligência artificial nas escolas não é unânime. As opiniões variam entre aqueles que enxergam a tecnologia como uma ameaça ao processo de aprendizagem e os que consideram que seu impacto depende da maneira como ela é utilizada.

A estudante Mariah Eduarda Cabral, do segundo ano do ensino médio, acredita que o uso inadequado da IA pode prejudicar não apenas o esforço dos alunos, mas também a qualidade do trabalho realizado por alguns professores. Ela relata que uma de suas professoras utiliza ferramentas de inteligência artificial na preparação das aulas, o que, segundo Mariah Eduarda, pode dificultar a compreensão dos conteúdos.

“A utilização da inteligência artificial nas escolas deixa a mente mais preguiçosa, já que em questões de segundos ela dará as respostas completas, sem a menor necessidade de esforço”, afirmou a aluna.

Já Kayke Fernandes, estudante do primeiro ano do ensino médio, considera que a tecnologia pode ser uma ferramenta útil para a aprendizagem quando utilizada de maneira adequada. Para ele, não deveria existir um controle absoluto das escolas sobre o uso da IA pelos alunos.

“Não acho que seja necessário um controle, pois não são todos os alunos que utilizam da forma errada. Algumas pessoas usam para aprendizagem”, explicou o aluno

O avanço da inteligência artificial, portanto, coloca novos desafios para um sistema educacional que já enfrenta dificuldades relacionadas ao desenvolvimento de competências básicas. Mais do que decidir entre permitir ou proibir a tecnologia, o debate passa pela necessidade de ensinar os estudantes a utilizá-la sem abrir mão do processo de construção do conhecimento.

Foto de capa: Pexels

Reportagem de Maria Eduarda Lima

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