Cidade

Rio de Janeiro: cidade maravilhosa para quem?

Cartão-postal do Brasil para o mundo, o Rio de Janeiro vive um momento de alta no turismo, recebendo milhares de visitantes ao longo do ano. Em contraste, muitos cariocas ainda não conhecem pontos turísticos tradicionais da cidade

Se você mora no Rio de Janeiro, provavelmente tem percebido a quantidade significativa de turistas pela cidade, até mesmo fora das principais datas festivas. Segundo o Governo do Estado do Rio de Janeiro, o estado abriu 2026 com alta de 17% no turismo internacional e registrou o melhor janeiro da história. Pessoas saindo do outro lado do mundo para conhecerem a vida carioca, cultura e as belezas naturais. Mas e a população que reside na cidade? Será que essas pessoas também têm conhecido essa mesma vida dos cartões postais?

Segundo Afonso da Silva, administrador de redes e guia de turismo, o Rio de Janeiro vem consolidando sua imagem no mercado global muito além das paisagens conhecidas mundialmente. Para ele, eventos internacionais de grande porte, como a Cúpula do G20, ajudam a manter a cidade em destaque na mídia internacional, enquanto a ampliação de voos diretos e a integração entre os aeroportos Galeão e Santos Dumont facilitam o acesso de turistas estrangeiros. O profissional também destaca o crescimento da procura por experiências autênticas, como o Carnaval de rua, a gastronomia local e visitas guiadas com impacto social positivo. Além disso, o fortalecimento do turismo azul e do turismo de aventura tem atraído um público de maior poder aquisitivo, ampliando ainda mais o potencial turístico do Rio.

“O Rio de Janeiro tem consolidado sua imagem no mercado global devido a uma combinação de fatores estratégicos, que vão muito além de suas belezas naturais tradicionais,” comenta guia turístico.

De acordo com o especialista, a “turistificação do espaço” faz com que os principais pontos turísticos da cidade passem a pertencer mais aos visitantes do que aos próprios moradores, criando um distanciamento afetivo e físico da população em relação aos marcos identitários do Rio. Para ele, essa divisão entre a “cidade-vitrine” e a “cidade-real” é influenciada por diferentes fatores, como: os altos custos de ingressos, transporte e consumo nesses locais, além da dificuldade de acesso enfrentada por moradores da Zona Norte, Zona Oeste e Baixada. O especialista também destaca que a rotina exaustiva do trabalhador carioca reduz o tempo disponível para o lazer, fazendo com que opções gratuitas e mais próximas sejam priorizadas. Além disso, aponta que muitos desses espaços são moldados para o turista, o que gera, em parte da população local, uma sensação de não pertencimento.

“Essa realidade revela um fenômeno comum em grandes metrópoles conhecido como “turistificação do espaço”, onde os cartões-postais da cidade passam a pertencer mais aos visitantes do que aos próprios moradores,” afirma.

A britânica, Sophie Hepple, de 20 anos, escolheu o Rio de Janeiro como destino da sua viagem, completamente motivada pela cultura, música e energia da cidade. A personal trainer e criadora de conteúdo digital conta que as expectativas que ela tinha do Rio antes da viagem foi completamente confirmada ao conhecer.

“Escolhi o Rio porque sempre tive interesse pela cidade. A música e a energia do lugar sempre me fizeram querer visitar. Quanto mais eu pesquisava sobre a viagem, mais vontade eu tinha de reservar, então eu fui”, afirma Sophie.

Sophie retrata sobre como as pessoas lá foram muito amigáveis e respeitosas e comenta também sobre o sentimento de segurança. Além disso, a turista também percebeu a diferença do estilo de vida, por exemplo, as pessoas da favela têm um modo de vida muito diferente de pessoas que residem na Zona Sul, mas ela também afirma que a cultura é incomparável, todo mundo é feliz, muito saudável e simplesmente gosta de estar junto.

“Foi super fácil conseguir Ubers e mototáxis por aplicativo. Eles chegavam em poucos minutos e eram muito baratos. O trânsito pode ser ruim nos horários de pico, mas isso é normal”, comenta a turista.

A turista se hospedou nos arredores da Lapa, tradicional bairro da Zona Central da cidade, conhecida como berço da boemia carioca e a poucos minutos dos principais pontos turísticos. Sophie relata sua experiência como ótima, o qual recomendaria para qualquer pessoa, e que já está com planos para retornar no Carnaval de 2027.

Reprodução/Instagram

“Minha parte favorita da viagem foi visitar as favelas. Acho importante, ao visitar um lugar novo, explorar tudo, não apenas as áreas turísticas mais movimentadas, mas também ver como é a vida dos moradores locais”, comenta.

Ao ler o relato de Sophie Hepple, é possível enxergar um Rio de Janeiro encantador, quase como uma verdadeira cidade dos sonhos. Mas será que os próprios moradores compartilham dessa mesma experiência?

Ketlyn Bessa é estudante de Pedagogia e moradora de São Gonçalo, na região metropolitana do Rio de Janeiro, localizada a cerca de uma hora do centro da capital. A estudante expressa o desejo de conhecer pontos turísticos como o Bondinho do Pão de Açúcar, o Cristo Redentor e a praia de Copacabana. No entanto, a distância, a correria do dia a dia e as limitações financeiras acabam sendo alguns dos principais obstáculos em sua realidade.

“O Rio turístico é o das praias, dos passeios e das paisagens lindas, já o Rio real também envolve a preocupação com a segurança, além da rotina, do transporte cheio e da correria do dia a dia”, comenta a carioca.

Dados do ISP de junho de 2025 — Foto: Reprodução/TV Globo

A questão da segurança também se torna um fator importante que afasta muitos moradores dos pontos turísticos da cidade. O constante aumento nos índices de roubos, especialmente de celulares, contribui para a sensação de insegurança no cotidiano. Além disso, é comum que, ao ligar a televisão ou acessar as redes sociais, as pessoas se deparem diariamente com notícias de violência em diferentes regiões do Rio de Janeiro.

Foto: Aline Massuca/Metrópoles

Ketlyn diz sentir orgulho ao ver a cidade cada vez mais visitada e reconhecida mundialmente. Porém, ela também acredita que a imagem divulgada do Rio, muitas vezes mostra apenas o lado turístico e idealizado da cidade, diferente da realidade vivida diariamente por muitos moradores.

A jovem também conta que tem muita vontade de visitar o Parque Nacional da Tijuca e conhecer melhor a Escadaria Selarón, mas acaba adiando esses passeios por priorizar opções mais acessíveis no momento. A estudante afirma que já visitou alguns museus no Rio de Janeiro, por considerar esses espaços alternativas culturais interessantes e mais tranquilas, além de serem opções mais acessíveis, já que muitos possuem entrada gratuita e fácil acesso.

“Eu sinto orgulho porque o Rio é uma cidade incrível, mas ao mesmo tempo parece que mostram um Rio que não é o que a gente vê no dia a dia”, afirma a estudante.

Nesse caso, o especialista Afonso reforça que existe um forte contraste entre o Rio de Janeiro vendido ao turismo, e o Rio vivido diariamente pela população. Enquanto a imagem da cidade é construída sob a ótica das praias, cartões-postais e da Zona Sul, grande parte dos moradores enfrenta problemas estruturais relacionados à mobilidade, segurança e infraestrutura. Ele destaca que turistas costumam circular por áreas com transporte mais integrado e policiamento reforçado, enquanto moradores da Zona Norte, Zona Oeste e regiões periféricas convivem com longos deslocamentos em transportes públicos superlotados, além da violência recorrente causada por operações policiais e disputas territoriais. O especialista também aponta que a concentração de investimentos na orla e nas áreas turísticas contrasta fortemente com a precariedade do saneamento básico em bairros suburbanos, além do aumento do custo de vida impulsionado pelo turismo, que afasta a população de menor renda dos centros econômicos e culturais da cidade.

“Turistas usam transporte integrado na Zona Sul ou táxis. Moradores enfrentam trens, BRTs e ônibus superlotados, com longas horas de deslocamento da Zona Norte e Zona Oeste,” afirma ele.

Segundo o professor Ari da Silva Fonseca Filho, da Faculdade de Turismo e Hotelaria da Universidade Federal Fluminense, um dos principais fatores que afastam os moradores dos atrativos turísticos da própria cidade é a questão financeira, já que, segundo ele, os espaços cobram valores altos e oferecem poucos incentivos para a população local visitar. O docente aponta ainda que o caráter elitizado desses espaços contribui para um constante adiamento das visitas por parte dos moradores, reforçando a sensação de que o passeio pode ser feito em qualquer outro momento. Além disso, ele destaca que a massificação do turismo cria uma percepção de não pertencimento entre a população local.

“O que eu identifico é a questão financeira, são atrativos que cobram valores altos, que pouco identifica incentivos para o morador visitar”, conclui o especialista.

Como exemplo, o especialista relembra a trilha do Pão de Açúcar, onde antigamente era possível descer gratuitamente de bondinho após a subida a pé. Atualmente, a descida é cobrada, com ingressos para trilheiros que podem chegar a cerca de R$ 60 na inteira e R$ 30 na meia-entrada.

“Eu acredito que as políticas públicas de turismo no Rio elas estão muito voltadas para o turista com um olhar muito atencioso para o turista mais endinheirado.”, afirma ele.

Segundo o especialista, há também um direcionamento do mercado turístico para um perfil específico de visitante, especialmente estrangeiros vindos da América do Norte, em especial dos Estados Unidos, e da Europa. Para ele, esse movimento evidencia uma valorização do turista com maior poder aquisitivo, capaz de consumir mais e circular pelos principais atrativos da cidade, enquanto a população local acaba, muitas vezes, excluída desses espaços.

“Formar o cidadão para que ele conheça o turismo local, e se ele quiser trabalhar, que ele busque a profissionalização, mas em linhas gerais que ele seja aquele que vai conhecer, divulgar e proteger esse patrimônio, o patrimônio cultural local.” aponta o professor.

Ao abordar a importância da educação turística, o professor defende que o ensino sobre o turismo local deve ir além da formação profissional e contribuir para a criação de um sentimento de pertencimento da população com a própria cidade. Segundo o especialista, a educação turística tem o papel de formar cidadãos que conheçam o território em que vivem, valorizem os atrativos locais e atuem na preservação do patrimônio cultural. Para ele, caso haja interesse em atuar no setor, a profissionalização deve acontecer posteriormente, mas o principal objetivo é fazer com que os moradores se tornem agentes de divulgação e proteção da cultura e da identidade local.

Foto: Hermes de Paula / Agência O Globo

Reportagem de Nicole Bessa com edição de texto de Gabriel Goulart

LEIA TAMBÉM: Prefeitura do Rio anuncia fim do uso de dinheiro nos ônibus municipais

LEIA TAMBÉM: Festival LED volta para sua 5° edição e convida profissionais para debate sobre educação

1 comentário em “Rio de Janeiro: cidade maravilhosa para quem?

  1. Avatar de Luiz Inácio da Silva
    Luiz Inácio da Silva

    Eu amei a matéria!

Deixe um comentário

Por que você está denunciando este comentário?

Tipo de denúncia