O conceito de “roupa apropriada para a idade” tem sido, historicamente, uma ferramenta de controle sobre o corpo feminino. Embora o Brasil tenha registrado um salto de 53,3% no número de pessoas com 60 anos ou mais, ainda existe um paradigma em torno do envelhecimento.
O desconforto provocado pelo etarismo acompanha o cotidiano de diversas mulheres, tendo como ponto de partida o guarda-roupa. O etarismo opera na moda sob uma lógica de invisibilidade seletiva. Enquanto o mercado ignora os desejos de consumo da mulher madura, a sociedade vigia atentamente suas escolhas, punindo com críticas quem ousa manter o cabelo longo e grisalho.
Para a pesquisadora e comunicadora Daniela Oliveira, o etarismo enfrentado pelas mulheres está diretamente ligado à estrutura patriarcal presente no nosso contexto social atual. Dessa forma, a cobrança sobre o envelhecimento feminino não se baseia apenas na idade, mas também nas expectativas às quais elas já são submetidas ao longo da vida. Quando esse recorte inclui mulheres negras, o racismo se soma a essas exigências, tornando esse processo ainda mais complexo.
“O sexismo quando encontra essa pressão relacionada a idade, acaba potencializando o etarismo. De modo que, a gente dificilmente vai ver alguém comentando ‘oh que absurdo’ porque um homem de 60 anos se relacionou com uma mulher de 40, mas se for o contrário, sim”, comenta a coordenadora da Agência UVA.
Frases como “você não tem mais idade para usar isso”, “você deveria aceitar a idade que tem” ou “você já deveria se vestir de forma mais discreta” são mais do que comentários sobre vestimenta. São falas que demonstram vigilância e controle sobre a autonomia feminina. O envelhecimento das mulheres carrega uma cobrança estética e comportamental que raramente é direcionada aos homens na mesma intensidade, transformando escolhas pessoais em alvo constante de avaliação e julgamento.
Esse excesso de vigilância torna o cotidiano exaustivo, já que cada decisão parece precisar passar pelo crivo social. Com o tempo, esse monitoramento constante pode gerar desgaste emocional e limitar a liberdade de expressão, fazendo com que muitas mulheres sintam a necessidade de adequar suas escolhas para evitar críticas e questionamentos.
A psicóloga Gizelle Babo e a arquiteta Claudia Rennó compartilharam relatos que evidenciam como esses julgamentos e críticas atravessam o cotidiano feminino.
“Já ouvi comentários negativos sim e confesso que me senti desencorajada de usar a roupa. Também me senti um pouco ‘perdida’, porque a roupa acaba representando o nosso estilo de vida ao mesmo tempo que as críticas me ofendem”, diz Babo.
Já a arquiteta Claudia Rennó afirma que grande parte dessas cobranças parte de outras mulheres, evidenciando como o etarismo também se reproduz dentro das próprias relações femininas:
“Eu acho que nunca me dei muita conta se estava sendo julgada pelo que estava usando, mas tenho uma certa preocupação a depender do local que eu vou. Porém sinto que o julgamento costuma vir de outra mulher, infelizmente.”, explica Claudia Rennó.
O perfil do Instagram Instagram Avós Da Razão surge como um espaço de autenticidade e expressão ao compartilhar looks, opiniões e vivências com naturalidade e personalidade. A página reforça que a liberdade de experimentar tendências e expressar identidade através das roupas não precisa se limitar à idade. O perfil se destaca justamente por mostrar que estilo, estética e ousadia também fazem parte do envelhecimento.
Em uma cultura que frequentemente determina o que é ou não “apropriado” para cada fase da vida, iniciativas como essa ajudam a romper estereótipos e ampliam a compreensão de que se vestir também é uma forma de identidade, liberdade e permanência no espaço social, independentemente da idade.
“Vestir com liberdade pra mim, é eu me sentir bem , elegante , mas acima de tudo, confortável” explica Claudia Rennó
Envelhecer sem abrir mão da própria autenticidade e autonomia é, acima de tudo, um exercício de liberdade e afirmação da identidade. A forma de se vestir acompanha trajetórias, mudanças e vivências, funcionando também como uma maneira de comunicar sua história e quem você é. Figuras como Rita Lee, que sempre encarou o envelhecimento com irreverência e autenticidade, reforçam a importância de viver essa fase sem abrir mão de si mesma.
Ainda que exemplos e movimentos recentes tenham ampliado esse debate, o caminho para um envelhecimento feminino livre ainda é longo. Para a psicóloga Gizelle Babo, ressignificar o envelhecimento é primordial para encarar as mudanças naturais do corpo humano.
Foto de capa: Guilherme Samora
Reportagem de Julia Bohrer, com edição de texto de Cássia Verly
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