Naquela noite, não era só o Coachella que estava iluminado. Era como se uma parte de mim, meio esquecida, também tivesse voltado ao palco.
Quando Justin Bieber apareceu, muita gente nas redes correu para criticar. Disseram que o show era estranho, que parecia desconexo, que não fazia sentido. Alguns falaram que faltava energia, outros que era só mais um artista preso ao passado. Mas talvez o erro tenha sido assistir com olhos de hoje algo que foi feito, claramente, para ser sentido com o coração de ontem.
Porque quem já foi fã — fã de verdade — entendeu.
Eu entendi.
A Carol de cinco anos, que pediu uma festa de aniversário inteira do Justin Bieber, que colecionava pôsteres, que criou uma banda só para poder cantar as musicas dele, também entendeu. Aquela versão minha que decorava letras sem saber inglês direito, que assistia aos clipes no YouTube como se fossem janelas para outro mundo, que ficava esperando um novo vídeo como se fosse um acontecimento. Ela estava ali comigo de novo, sentada no mesmo lugar, só que agora dentro de um corpo crescido, carregando responsabilidades, rotina, pressa — mas ainda com a mesma emoção guardada em algum canto.
E quando ele começou a mexer no próprio passado — abrindo vídeos antigos, cantando junto com a própria voz mais nova — não era só um recurso de show. Não era só estética ou nostalgia vazia. Era quase um convite silencioso: “volta comigo”.
E a gente voltou.
Voltou pra um tempo em que tudo era mais simples, em que as músicas não eram só músicas, eram refúgio. Em que chegar da escola e abrir o YouTube era parte do ritual do dia. Em que sentir demais não era um problema, era quase um jeito de existir. Em que ser fã era uma das formas mais puras, intensas e sinceras de amar alguma coisa — sem filtro, sem ironia, sem medo de parecer “bobo”.
Teve gente que não entendeu aquele momento. Mas como entender algo que não é sobre técnica, e sim sobre memória? Como explicar para quem não viveu o que era crescer junto com aquelas músicas, acompanhar cada fase, cada erro, cada recomeço?
Quando Billie Eilish entrou como a “One Less Lonely Girl”, não era só uma participação especial pensada para surpreender. Era simbólico. Era uma fã ocupando um lugar que, por anos, foi o sonho de tantas outras — inclusive o nosso. A reação dela no palco não era atuação, não era performance ensaiada. Era exatamente o que a gente sentiria: o brilho no olhar, o riso meio sem acreditar, a emoção que escapa sem pedir permissão.
Era representação.
Era como se, por alguns minutos, todas nós estivéssemos ali, vivendo aquilo juntas.
E talvez por isso tenha sido tão bonito. Porque não era só sobre ele. Era sobre nós também. Sobre tudo que a gente viveu através dele, sobre todas as fases que aquelas músicas acompanharam — da infância à pré-adolescência, da intensidade sem medida até o amadurecimento que chega, mesmo quando a gente não percebe.
No fim, o show não foi sobre provar nada pra crítica. Não foi sobre performance perfeita, nem sobre agradar quem nunca esteve ali desde o começo. Foi sobre revisitar quem a gente foi — e perceber que essa versão ainda vive, quietinha, dentro da gente, esperando algum gatilho para aparecer de novo.
Eu saí daquele momento com uma sensação difícil de explicar. Como se tivesse reencontrado uma parte minha que eu nem sabia que estava com saudade. Como se, por alguns instantes, o tempo tivesse dobrado e me permitido ser quem eu fui e quem eu sou ao mesmo tempo.
E talvez seja isso que muita gente não percebeu:
não era só o Justin voltando ao palco.
Era a gente voltando pra dentro de si.
Era sobre crescer… sem precisar deixar tudo pra trás.
Crônica por Ana Carolina Freitas
Foto de capa: Reprodução/Instagram
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