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Saiba como a Organização Ana Beatriz Britto transforma o interesse por arte em formação crítica

Há 15 anos, Ana Beatriz Britto atua no ensino de arte e filosofia e, em conversa com a Agência UVA, analisa o papel desses campos no cenário contemporâneo

O interesse por arte e cultura no Brasil tem crescido, mas a formação crítica ainda não acompanha esse movimento. Em 2025, o Museu de Arte de São Paulo ultrapassou a marca de 1 milhão de visitantes, registrando o maior público de sua história. O número revela engajamento crescente do público, mas também evidencia o desafio de transformar consumo cultural em reflexão aprofundada.

É nesse contexto que surge a Organização Ana Beatriz Britto, que oferece cursos de arte e filosofia por meio de grupos de estudo, visitas guiadas e consultorias conduzidas por professores e críticos especializados. A iniciativa nasceu após a fundadora concluir a pós-graduação em Arte e Filosofia pela PUC-Rio e propõe aproximar duas áreas historicamente conectadas, estimulando análise e diálogo em um cenário marcado pela rapidez e superficialidade da informação.

O projeto se apresenta como um convite à reflexão que ultrapassa o campo estritamente teórico. A proposta dialoga tanto com interessados em filosofia quanto com artistas e profissionais envolvidos na prática criativa, defendendo uma abordagem em que arte e pensamento caminham juntos. Ao articular a arte por meio da filosofia e, simultaneamente, a filosofia por meio da arte, o programa reforça a interdependência entre criação e análise crítica.

Com cerca de 15 anos de atuação, o projeto se consolidou no cenário cultural e passou a operar também em formato remoto a partir da pandemia. Ao longo desse período, ofereceu cursos que percorrem diferentes momentos da tradição filosófica, da Antiguidade à Modernidade. Em 2026, o destaque da programação é o curso “Filósofos do Século XXI”, ministrado pelo professor Pedro Duarte, que propõe uma análise do pensamento contemporâneo e amplia o repertório crítico dos participantes.

Segundo Ana Beatriz, o eixo central dos grupos de estudo está na construção de uma leitura aprofundada e compartilhada das obras, priorizando o diálogo e a troca de interpretações entre os participantes.

“Promover um diálogo interdisciplinar entre o pensamento crítico e a produção sensível, analisando a arte não apenas como objeto estético, mas como forma de conhecimento e de reflexão sobre as transformações sociais, políticas e culturais”, destaca Ana.

A desenvolvedora do projeto Ana Beatriz Britto.
(Foto: Acervo pessoal)

Ela também afirma que as aulas costumam ser marcadas por forte envolvimento emocional e intelectual. Segundo Ana, é gratificante observar o momento de espanto filosófico dos alunos, a ruptura de preconceitos e o deleite estético diante das obras analisadas.

O ponto alto dos encontros está na troca de vivências entre professores e participantes, quando o conteúdo teórico se transforma em debate. O método do curso, explica, busca provocar o confronto de ideias de forma natural, estimulando pensamento crítico e percepções autônomas, sem impor interpretações prontas.

De acordo com Paulo da Silva, aluno que já participou de diversos cursos da organização e atualmente integra a turma de “Filósofos do Século XXI”, a experiência vai além da aquisição de conteúdo teórico.

“O curso ajuda a organizar ideias, amplia o olhar e funciona como um espelho interno. Faz a gente pensar melhor, questionar mais, testar narrativas e se escutar com mais atenção. Na última aula, saí com uma sensação de esperança e isso já vale muito”, conta o aluno.

O estudante ressalta a dificuldade de eleger um único momento de destaque diante do volume de aprendizados acumulados ao longo dos cursos. Ele afirma ter percebido uma ampliação significativa de seu repertório em arte e filosofia e destaca que, para ele, o diferencial está na forma como os conteúdos são apresentados. Mesmo temas complexos, segundo Paulo, são conduzidos de maneira simples, acessível e envolvente.

Questionada sobre como ensinar alguém a olhar para uma obra que, à primeira vista, parece não comunicar nada, a fundadora enfatiza a importância de distinguir a leitura literal da experiência sensorial.

“Para isso, em primeiro lugar, é preciso desconstruir preconceitos, pois a arte não precisa ser ‘entendida’. É importante explicar que a arte moderna e abstrata não busca retratar a realidade, mas criar uma experiência sensorial”, conta a fundadora.

Ela acrescenta que o processo formativo exige deslocar o foco da busca por respostas prontas para a construção de uma experiência interpretativa própria.

“Diante de uma obra minimalista, é possível perguntar o que a ausência de elementos provoca em quem observa. O título pode oferecer pistas e, quando a obra é ‘sem título’, isso pode ser entendido como um convite à criação de uma narrativa própria. Também é importante considerar quem foi o artista e o contexto em que viveu, já que diferentes períodos históricos influenciam diretamente a produção artística. Em vez de reforçar a ideia de que a obra ‘não diz nada’, o caminho é transformar esse preconceito em curiosidade”, afirma a organizadora.

Com convicção, Ana afirma que, em um mundo saturado de estímulos, a arte mantém sua potência transformadora. Para ela, a arte contemporânea vive uma tensão constante, funcionando ao mesmo tempo como mercadoria inserida na lógica do entretenimento rápido e como força de resistência.

Segundo a organizadora, a velocidade digital e a saturação de imagens tendem a reduzir obras a conteúdo consumível, mas a arte ainda preserva sua capacidade de provocar reflexão. A tecnologia amplia o acesso e democratiza o conhecimento, embora também imponha desafios à compreensão crítica.

Ela destaca que o impacto das plataformas digitais depende do uso. Podem estimular a curiosidade ou empobrecer o debate cultural. Nesse contexto, a proposta da Organização é incentivar uma relação mais atenta e reflexiva com a arte.

“Desde Adorno, discute-se que a democratização da circulação das obras de arte submetidas à lógica do mercado capitalista tornou as obras de arte produtos da indústria cultural. […] O mercado de arte pode ainda saturar o espaço com produções ‘fáceis’ de vender, escondendo obras que exigem maior engajamento intelectual”, ressalta Ana.

Em relação a inteligência artificial, a organizadora afirma que a ferramenta é uma faca de dois gumes. Pode incentivar a “terceirização do pensamento”, reduzindo a reflexão profunda, mas também ampliar a busca por conhecimento. Segundo ela, sistemas generativos tendem a produzir respostas padronizadas, embora também possam formular contra-argumentos, hipóteses alternativas e perguntas provocativas que estimulam o usuário a ir além do superficial.

“A tecnologia e o mercado não destruíram a relevância da arte, mas a transformaram. Hoje, ela é mais acessível, porém frequentemente mais efêmera, e sua fruição mais autêntica depende da capacidade crítica de quem a observa”, conclui Ana.

Exposição de Lu Yang no Amant no Brooklyn em 2025, que visava canalizar a filosofia budista e indiana através de representações de IA é um exemplo da utilização da tecnologia na arte.
(Foto: Cortesia do artista e Amant Brooklyn)

Recentemente, em entrevista à Marie Claire, Beatriz Milhazes afirmou que o Brasil reúne criatividade e inteligência e que, atualmente, a melhor arte contemporânea produzida no mundo pode ser a brasileira. A declaração reforça o reconhecimento internacional da produção nacional.

Apesar desse destaque, o mercado brasileiro enfrenta um paradoxo. Convive com limitações estruturais e dificuldades de manutenção, mas demonstra interesse constante em se desenvolver. Mesmo com entraves históricos, o setor segue buscando expansão e consolidação.

A nova geração de compradores tem priorizado obras de artistas mulheres e marginalizados, valorizando temas ligados à identidade, política e meio ambiente. Segundo a Dasartes, esses jovens destinam cerca de 26% de seus bens à arte, percentual acima da média geral, impulsionados por modelos de colecionismo conectados às redes sociais e ao impacto social.

Para a organizadora, o setor apresenta “resiliência notável e crescimento significativo”, tendo movimentado R$ 2,9 bilhões em 2023, um aumento de 21% em relação ao ano anterior. Ela avalia que o mercado vive um momento de transição, com foco na internacionalização e na atração de colecionadores locais de alta renda, enquanto ainda enfrenta a carência de educação artística de base.

A 60ª Bienal de Veneza contou com uma pintura de 750 metros, feita por indígenas brasileitos foi a fachada do Pavilhão Central. Reunindo pinturas, instalações e mantos ancestrais foi renomeado para “Pavilhão Hãhãwpuá”.
(Foto: Reprodução/Biennale de Paris)

“A produção artística é um ato humano e, como tal, está inserida em um contexto social e político. A neutralidade, nesse sentido, é considerada um mito, pois toda obra carrega consigo um sentido, uma visão e, consequentemente, uma posição no mundo”, finaliza Ana.

Como um todo, o projeto já formou diversas turmas voltadas ao aprofundamento e à análise crítica. Ana conduz a iniciativa de forma praticamente independente, buscando constantemente novas temáticas e abordagens. A satisfação dos alunos é apontada por ela como a maior recompensa, refletindo o compromisso contínuo com inovação e debate qualificado.

Em um cenário no qual a arte disputa atenção com a velocidade das telas, iniciativas como a da Organização Ana Beatriz Britto estimulam um interesse mais aprofundado. Ao priorizar o cultivo do pensamento crítico e a formação humana, o projeto propõe um olhar atento e reflexivo para aquilo que, muitas vezes, passa despercebido no cotidiano.

Reportagem de Camila Teixeira, com edição de texto de João Gabriel Lopes

Foto de capa: PEXELS

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