O romance epistolar de Edmund de Waal, “Cartas para Camondo”, chega em novembro ao Brasil pela editora Intrínseca, trazendo um conjunto de 58 cartas endereçadas a Moïse de Camondo, que morava próximo da casa dos antepassados do autor. Sob um narrador que o chama de amigo, de Waal constrói uma narrativa sensível e poética sobre a memória de uma família judaico-francesa enfrentando o antissemitismo no final do século XIX.
Através das cartas imaginárias, o autor conta a história do banqueiro Camondo, integrante de uma família originária de Constantinopla, fazendo ricos relatos sobre sua residência, suas coleções de arte e o mundo em que a família vivia, até seu final trágico.
As descrições são vívidas, quase como uma memória preservada de algo que parece profundamente familiar ao autor. Pois a família de Edmund de Waal mantinha laços com a de Camondo. Segundo ele, sua avó “visitava primos aqui nos anos 1920″. A residência ornamentada, projetada por Moïse de Camondo, abrigava a maior coleção de arte francesa do século XVIII, reunida com a intenção de deixá-la como herança ao filho Nissim. Após a morte precoce do herdeiro durante a Primeira Guerra Mundial, a casa foi transformada em memorial, dando origem ao Musée Nissim de Camondo, que existe ainda hoje, apesar de ter sido fechado provisoriamente em 2024 para reformas.

(Foto: Divulgação)
Também artista plástico, de Waal incorpora seu olhar estético às descrições da residência. Com textos minuciosos e fotografias intercaladas, ele dá ao leitor a impressão de vasculhar correspondências antigas entre dois amigos próximos, sempre reforçando a análise metódica de objetos e coleções, criando uma narrativa cheia de camadas de sensibilidade e história.
O autor embeleza cada carta, mas não suaviza os horrores, a violência, a traição e a crueldade impulsionadas pelo antissemitismo e pelos anos de ocupação nazista na Europa.
A trajetória da família Camondo, é celebrada assim como as raízes judaicas e a reflexão sobre a identidade cultural e religiosa judaico-francesa. Mas o livro, como um todo, pode soar entediante para alguns leitores. É fácil perder-se na aleatoriedade das cartas e dos assuntos abordados, como se estivéssemos lendo algo pela metade. Diferente de romances epistolares como “Gente Pobre”, de Dostoiévski em que as cartas constroem a vida e a relação dos personagens, em “Cartas para Camondo”, a sensação é a de acompanhar fragmentos de uma história já encerrada, dificultando uma conexão mais engajada e empática com a memória da família.
Outro ponto que poderia enriquecer ainda mais o livro seria uma contextualização mais efetiva das fotografias, que certamente aguçariam a curiosidade dos leitores e criariam um ambiente de conexão mais forte entre família, leitor e narrativa.

Trata-se de uma história bonita, mas difícil de conectar e organizar de maneira lógica para aqueles que não estavam lá ou não têm um conhecimento tão aprofundado quanto o do autor. Provavelmente serviria melhor à proposta de saudar o legado da família, se fosse uma biografia ou uma ficção inspirada na trajetória destes. Em suma, a obra fascina pelos detalhes, mas se dilui pela fragmentação, deixando ao leitor a sensação de que falta um eixo narrativo que faça justiça ao peso dessa história.
Resenha crítica de Camila Teixeira, edição de texto por Gabriel Goulart
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