Cultura Política

“Cálice”, hino de resistência da ditadura, volta a ecoar nas ruas do Brasil em 2025 

Veja a maneira pela qual a arte reafirma o poder da música como voz da democracia

Durante as manifestações contra a chamada “PEC da Blindagem” e o “PL da Anistia”, em setembro de 2025, nomes como Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Djavan e Paulinho da Viola subiram a um trio elétrico em Copacabana, no Rio de Janeiro, para cantar novamente “Cálice”. A cena, acompanhada em coro por milhares de vozes, foi descrita por participantes como um dos momentos mais emocionantes do ato.

Mais de cinquenta anos atrás, ainda em 1973, ao longo da ditadura militar, Chico Buarque e Gilberto Gil foram apresentar a música que até então era inédita no festival “Phono 73”. Porém, o público mal pôde ouvi-la, já que cortaram os microfones assim que a performance foi iniciada. O motivo era claro: a canção denunciava, em metáforas, o silêncio imposto pela censura e a violência de um regime que não admitia contestação. O jogo de palavras entre “cálice” e “cale-se” transformou-se, desde então, em símbolo da luta contra o silêncio e a repressão. 

Gilberto Gil e Chico Buarque se apresentam no Anhembi, em São Paulo, em maio de 1973.
(Foto: Reprodução/Claudine Petroli)

A analogia é inevitável. Assim como em 1973, quando a música enfrentou a repressão militar, em 2025 ela ressurge como ferramenta de contestação diante de medidas vistas como tentativas de calar a sociedade. É a prova de que, quando a arte carrega verdade e coragem, ela continua viva atravessando novas gerações com o mesmo vigor. Assim, para o professor e historiador Allan Lopes, a permanência de “Cálice” como símbolo político revela o poder atemporal da arte.

“A mensagem da música é atemporal. Onde estiver a censura, onde estiver o silenciamento, ela vai estar lá. Não é uma música que fica atrelada apenas ao contexto em que foi criada. Ela ultrapassa esse conceito”, afirma o docente. 

Segundo o historiador, essa força vem do fato de que a arte sempre foi uma das linguagens mais eficazes de resistência. Ele destaca que, em momentos de crise política, a produção artística costuma ser um reflexo direto da sociedade e um registro emocional da história. Para o pesquisador, a arte traduz aquilo que o povo sente, mesmo quando não pode dizer. 

“A arte é uma ferramenta política poderosíssima e vai sempre fazer parte da construção histórica da humanidade. Não existe História sem arte”, explica Allan. 

Caetano Veloso, Chico Buarque e Gilberto Gil participando de manifestação tanto na época da ditadura quanto neste ano.
(Foto: Reprodução/X)

Essa permanência simbólica também é lembrada por Mauro Ferreira, jornalista e crítico musical, que define “Cálice” como “um hino de resistência contra toda forma de opressão e tirania”. Ele observa que a força da canção não vem apenas da sua mensagem política, mas também da sua perfeição como obra artística, o equilíbrio entre letra e melodia que faz dela um marco da música brasileira. 

Ferreira ressalta ainda que o poder de permanência desta canção também está na sua qualidade como composição. Ele explica que muitas músicas de protesto não sobreviveram ao tempo por dependerem exclusivamente da força política, mas “Cálice” resiste porque é, acima de tudo, uma grande canção bem construída de forma emocional e tecnicamente impecável. É essa força estética, segundo o crítico, que a mantém viva e relevante meio século depois de sua criação. 

“Sempre que houver luta e protesto, ‘Cálice’ é uma música adequada, afinada com a trilha sonora de um movimento político. Ela é uma obra-prima do ponto de vista musical e poético, tudo se encaixa entre música e letra”, observa o crítico musical. 

A Tropicália, movimento que uniu experimentação estética e resistência política, é outra peça essencial quando se trata desta narrativa. Com origem em meio à repressão, ela provou que era possível desafiar o sistema com arte e música misturando ritmos, quebrando padrões e rompendo as fronteiras entre o popular e o erudito.

Olhando para o ponto de vista musical, Ferreira complementa que essa mistura de linguagens, proposta por este movimento, segue ecoando em novas formas de expressão artística. Ele lembra que a revolução tropicalista abriu caminho para a liberdade criativa que hoje em dia pode ser vista em artistas contemporâneos de diferentes gêneros. 

“A música tropicalista quebrou muros. Mostrou que o erudito, o popular e o pop podiam conviver harmoniosamente. Essa herança é permanente”, analisa o crítico.

Caetano Veloso, Djavan, Chico Buarque e Gilberto Gil cantando na manifestação de 2025.
(Foto: Reprodução/Instagram/@gilbertogil)

Em 2025, ver novamente Chico, Gil e Caetano cantando juntos nas ruas do Rio de Janeiro é, na visão de Lopes, um retrato simbólico e inquietante do país. O historiador observa que, culturalmente, é um privilégio poder vê-los ainda ativos e relevantes. Porém, do ponto de vista político, também é um sinal de alerta. Para ele, o fato de músicas de protesto ainda serem necessárias mostra que o Brasil, de certa forma, permanece preso às velhas feridas. 

“Culturalmente é um privilégio poder vê-los ainda hoje. Mas, politicamente é preocupante: 61 anos depois do início da ditadura militar, ainda temos um contexto em que músicas de protesto continuam atuais. Como diria Belchior: Ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais”, comenta o pesquisador.

A permanência de “Cálice” nas ruas brasileiras reforça a ideia de que a arte é memória viva e, ao mesmo tempo, ação presente. Ao cantarem juntos, Chico e Gil mostraram que não se trata apenas de reviver um passado distante, mas de reafirmar que a cultura continua sendo uma trincheira contra o autoritarismo em todas as suas formas. 

Allan Lopes acredita que a arte deve ser encarada e reconhecida como uma maneira essencial de comunicação e resistência. Segundo ele, momentos como esse que o país vive em 2025, reafirmam a importância de se consumir, estudar e produzir arte como ato político e social. 

“A arte é política. Ela deve ser vista como uma forma fundamental de transmissão de mensagens e, em momentos como este, deve ser utilizada para lutarmos por aquilo em que acreditamos. Consumam, estudem e produzam arte. Essa é a mensagem mais forte que podemos deixar como herança”, finaliza o historiador. 

Logo depois das manifestações que contaram com a participação de artistas da música popular brasileira (MPB), ainda no final de setembro, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado Federal rejeitou por unanimidade a proposta conhecida como PEC da Blindagem. Esta decisão enterrou o projeto de maneira efetiva.

Antes disso, a PEC havia sido aprovada na Câmara dos Deputados e esse foi o motivo que gerou uma onda de indignação e provocou manifestações populares em todo o país. Assim, o grito que foi interrompido há meio século pelos microfones desligados da censura militar ganha, em 2025, a força multiplicada de uma multidão: um país inteiro que se recusa a calar-se. 

Foto de capa: Reprodução/Instagram/@gilbertogil

Reportagem de Ana Carolina Freitas, com edição de texto de Gustavo Pinheiro

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2 comentários em ““Cálice”, hino de resistência da ditadura, volta a ecoar nas ruas do Brasil em 2025 

  1. Avatar de Rafael Schiavo
    Rafael Schiavo

    👏🏼👏🏼

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