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Meus headphones salvam minha vida

Em sua nova crônica, o jornalista Vinicius Corrêa discorre sua relação com música e Björk

Por Vinicius Corrêa

Sempre me perguntam, na minha conta pessoal do X, como eu mantenho uma rotina de ouvir música sempre. Digo isso pois possuo uma thread, ou fio (apelidada por mim como “threadis”) de álbuns ouvidos por ano. Até o momento, estou em 940 trabalhos antigos escutados. Dentre eles, discografias, clássicos e descobertas dos mais variados estilos: folk, eletrônica, rock, música indie, jazz, MPB, pop, r&b, dance music, alternativo, experimental. Eu nunca soube de um motivo exato para esta ânsia de sempre estar atento a coisas antigas e novas do mundo da música. Sempre acreditei ser uma eterna construção de repertório, como jornalista independente de música, ter esta atenção ao antigo para moldar um gosto e experiência para o futuro. 

Mas, nos últimos dias, vim com pensamentos além disso. Acredito que esta “construção de repertório musical” está atrelada, também, a um escapismo. Sinto que estou inserido, ao meu redor, em uma realidade torpe em que o silêncio é quase infundado por barulhos de motocicletas, tiros, fogos de artifício, gritos em igrejas ou em carros de som. Além disso, há o eterno pessimismo e desespero de uma realidade maior que a nossa, envolvendo a geração Z, principalmente. Existe uma incerteza ao nosso futuro; uma previsão de apocalipse é algo nada precipitado, envolto por notícias de destruição do ecossistema, guerras no Oriente Médio e concentração de riquezas nas mãos das piores pessoas possíveis.

Nisso tudo, a música consegue me sustentar de alguma forma. Assim como quem consegue ler muitos livros e embarcar em diferentes histórias, em viagens para o passado, futuro, outros países, um disco de um artista até então desconhecido consegue me ajudar neste furacão. Sempre tenho algo para ouvir e ir atrás, mesmo que no meu quarto, em uma casa localizada na Baixada Fluminense do Rio de Janeiro.

Meio que essa eterna descoberta me remete a quando descobri a música de Björk, a islandesa e revolucionária operária do pop. Lembro, até hoje, de descobrir sua música pop idiossincrática e experimental. Assistia o filme “Sucker Punch – Mundo Surreal” de Zack Snyder, quando um remix de “Army of Me” toca e embala uma cena de ação fenomenal. Aquilo abriu meus olhos para além do electropop dos anos 2010, de Katy Perry, Rihanna e Lady Gaga. 

Depois de um tempo, passei a ir atrás de seus álbuns completos, encontrando um fascínio em ir atrás de discografias completas. “Debut”, “Post”, “Homogenic”, “Vespertine” – era um universo fantástico para um adolescente de 13 anos, e ainda é para um jovem adulto de 24 anos. Comecei a ir atrás, também, pela entrada das plataformas de streaming de música na minha vida, que serviram como um crescimento da paixão musical. 

Björk abriu um portal que é uma galáxia musical e artística, que logo me fez entrar no jornalismo musical. Sem ela e sua arte, eu não estaria inserido em outros universos e não estaria dentro de música além de algoritmos. Aprendi a ir atrás da minha própria forma de escutar música, a construir minha própria curadoria. Isso era um pouco solitário para o meu círculo social, pois era incomum conhecer gente da minha idade que era inserido em Björk. Mas tudo valia a pena, pois sua música criava uma mistura de sensações e sentimentos que pareciam ser inalcançáveis. Era um senso de novidade gigante para um pré-adolescente, que se sentiu salvo, de alguma forma, de toda angústia da idade. 

Comecei, a partir disso, a ir atrás das mais diversas informações envolvendo o universo musical: reportagens, resenhas-críticas, entrevistas, documentários, biografias, etc. Gosto de pensar que, com Björk, existe a música antes e depois na minha vida. Antes, durante a minha infância, a música era quase um ruído branco. A partir desta cantora pop islandesa com voz soprano e incomparável belting, criei uma atenção e uma paixão pela música. Sem ela, não iria atrás do que seria “diferente” e fora de um padrão rítmico e nas estruturas do pop americano das rádios. Com ela, consegui me inserir em jazz, música eletrônica e experimental; de Aphex Twin à Alice Coltrane, de The Knife a A Tribe Called Quest, de Neneh Cherry a Cocteau Twins, de Itamar Assumpção à Yoko Ono. 

Sem Björk, não sei como sobreviveria ao mundo que estou em volta. Digo “sobreviveria” pois precisamos de um pouco de escapismo, devido à classe e, no meu caso, sexualidade. O escapismo torna a realidade um pouco mais palatável. Como ela disse em “Headphones”, última música do álbum “Post”, “meus headphones, eles salvaram minha vida”.

Foto de capa: Barry Marsden/Reprodução

Crônica de Vinicius Corrêa, com edição de texto de João Agner

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2 comentários em “Meus headphones salvam minha vida

  1. Avatar de Camila

    Te amooo muito nos em 2026 no front da bjork no primyyyyy

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