Em seu novo livro, a autora de sucessos como “Babel”, “Guerra das Papoulas” e “Impostora”, retorna com “Katabasis”, lançado pela editora Intrínseca em setembro no Brasil. A narrativa conta a história da heroína Alice Law, estudante de pós-graduação em magia analítica em Cambridge, orientanda do famoso mago Jacob Grimes, conhecido por revolucionar as artes mágicas.
Alice Law inicia a história buscando Grimes no inferno, após seu trágico falecimento. O que ela não poderia imaginar é que seu principal rival, o outro orientando de Grimes, o genial, mas atrapalhado Peter Murdoch, também pensava em salvá-lo. Ambos embarcam, então, juntos na jornada ao submundo para trazer o mestre de volta.
Kuang estrutura a narrativa de modo a fundir filosofia e magia, criando uma atmosfera que borra os limites entre realidade e ficção. Tanto na trajetória geral quanto na individual de cada personagem, suas referências às ciências mescladas a livros de filosofia fazem o leitor quase acreditar que a magia é real. Envolta em teoremas, cálculos e axiomas, Kuang narra, de certa forma, a própria jornada como acadêmica.
Formada em História e Estudos da China, foi mestranda em Filosofia em Cambridge e em Estudos Chineses Contemporâneos em Oxford, atualmente cursa doutorado em Yale. Tal qual seus personagens, a autora reflete uma vasta experiência acadêmica, o que transparece em confiança e densidade intelectual.

Alice é sábia e obstinada, estudante de linguística, não temos sua descrição física até metade do livro, então lentamente se revela sua origem oriental, através de sua mágica e lógica e conhecimento, tal qual a autora. A mitologia e os dogmas chineses vão se reforçando na narrativa até mostrar o potencial máximo da protagonista como maga e pesquisadora.
Murdoch, carismático e ao mesmo tempo clichê, estudante de lógica e gênio dos números, na história, chega a confundir o leitor sobre suas reais intenções e tem sua própria narrativa e mistério que se destacam pela segunda metade. Juntamente com Alice, compõe uma carismática dupla de protagonistas. Já Grimes torna-se cada vez mais tirano ao longo da narrativa, instigando medo antes mesmo de ter uma aparição digna, trazendo a coerção que exercia sobre seus orientandos.
A construção do inferno é um dos pontos altos. O ambiente amedrontador não é mera imitação do mundo dos vivos, mas um espelho das futilidades humanas. Kuang propõe uma nova interpretação, onde as almas se contorcem na busca daquilo que em vida parecia essencial.
O vocabulário empregado percorre bases do conhecimento do pós-morte filosófico, do Egito antigo à mitologia grega, chinesa e budista. Teoremas e paradoxos evidenciam o domínio da autora, que ao longo da jornada expande a narrativa trabalhando emoções e nuances. “Katabasis” é excepcional ao retratar jornadas em bibliotecas, a construção de trabalhos acadêmicos e a defesa de teses como verdadeiros castigos do inferno.
“Começou como um romance de aventura fofo e bobo sobre, tipo, ‘Haha, a academia é o inferno.’ E então eu estava escrevendo e pensei, ‘Oh, não, a academia é o inferno’”, afirmou Kuang na turnê de promoção do livro em 2023 no Brattle Theatre.
A autora também aborda de maneira sutil o feminismo e o pertencimento da mulher no meio acadêmico, introduzindo-o como aspecto real, sem soar como um protesto genérico. Mas suas críticas ao vão além do gênero, ampliando reflexões sobre a própria lógica da construção da universidade. A narrativa termina grandiosamente, reforçando a importância do saber, mas também da jornada como um todo.
Por mais impressionante que seja a escrita e a sabedoria criativa de Kuang, a obra peca na ação. As cenas de luta são um tanto confusas, ganhando corpo apenas ao final. Em contrapartida, a autora introduz até o fim novos personagens e conceitos que se integram bem, sem excessos. Em geral, Kuang trabalha muito bem a mensagem do livro. Escrita de maneira explícita e bem fundamentada, dá profundidade a um trope já conhecido e amado, quase convencendo que a magia é o saber – e talvez esteja certa.
Foto de capa: Camila Teixeira/Agência UVA
Crítica de Camila Teixeira, com edição de texto de João Gabriel Lopes
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