Comportamento Crônica Geral

As festas, os anos, os tantos

Na crônica, o repórter traz suas observações e reflexões em meio às luzes coloridas e lugares apertados das festas que foi

Por João Agner

Eu sento e assisto a festa de longe. Estamos no play do namorado do meu melhor amigo, as luzes estão quase todas apagadas, e as acesas estão coloridas. Todas as paredes foram decoradas, de forma criativa e medonha. Não conheço a maioria das pessoas aqui, mas o que me importa são os meus. Colocamos ponche nos copos vermelhos, me desafio a beber cerveja, dividimos salgadinhos, gritamos com todas as músicas. O saco de biscoito na minha cabeça pesa, meu irmão é uma celebridade, meu amigo veste duas fantasias ao mesmo tempo, minha amiga está irreconhecível. É Halloween. 

Me questionar sobre os corpos que estão compondo os ambientes é algo recorrente para mim, é mais instintivo que uma vontade em si. Enquanto sento, me pergunto sobre todos aqui; os que conheço uma vida inteira, os que conheço há alguns anos, os que nunca vi antes. Todos conseguiram ser o que queriam ser quando crescessem? Acaba a luz na casa deles quando chove forte? Ela prefere por cima ou de lado? Quando a festa acaba, todos eles voltam para casa? Me pergunto porque não sei se quero.

Em outra festa, em outra noite, um pouco antes, em outro lugar — recuso o cigarro de um amigo, mas aceito a conversa. Ele me pergunta sobre meu cabelo. Digo que sempre quis ficar loiro mas tinha medo. Ele pergunta se era medo do cabelo cair. Eu respondo que era medo de não gostarem. Ele me pergunta se isso não era para ser sobre mim, e eu não sei responder. Volto a me perguntar se conseguimos sair do lugar. Ouço alguém lamentar que a Lady Gaga não tem um hit solo há 12 anos e rio. Alguém mais está preso em fevereiro? Ou lamentando os últimos meses como eu? Você também vive na nostalgia de que tudo era melhor antes? 

Mais uma festa, mais uma noite — no banheiro trancado ele me disse que eu podia fazer o que quiser. Entendo que os limites da frase impõem que eu faça o que quiser desde que seja com ele. Somos os únicos ali. Mesmo assim, me encontro acompanhado do fantasma de todos que já me permitiram fazer o que quiser. Só sei o que fazer por eles. Olho no seu olho o tempo todo. Ele olha para mim também. Ele cresce na palma da minha mão. Eu posso fazer o que quiser.

Em outra festa, essa um pouco antes — estou sozinho de frente ao espelho. Falo comigo mesmo sem dizer nada. Fico nervoso e puxo fumaça, mas ela não esconde meu rosto. Eu disse muitas vezes que ia parar, mas nunca quis de verdade. Quando olho para mim, me pergunto quem é esse animal. Mas estou tão bonito. Mas não é para mim. É sempre para eles, é sempre para elas. É por isso que vim? É por isso que saio de casa? Mas volto para a festa, e é aquela música que toca. Me perco de quem chegou comigo e encontro pessoas novas. Corpos suados, tarados, anestesiados. Todos estão por ali por um motivo, às vezes o mesmo que o meu. Não me lembro mais de nada. Esse delírio que nos fixa. Eu não conheço nenhum de vocês. Eu amo todos vocês.

Na última festa (prometo) — não tenho total consciência dos meus sentidos, nem de nada, o que chega a ser hilário. Tudo nesse momento é de alguma forma hilário. A bola de futebol murcha, o brigadeiro, meu cabelo, as formigas em linha reta no chão, o condomínio. Na cozinha conversamos sobre sexo, na sala rimos de amigos que cruzaram nossa vida. Eu pergunto para onde essas pessoas vão quando não as vemos mais. O que fazemos com o que elas eram para a gente? Isso soa muito engraçado. Vem as risadas, e não conseguimos retornar ao pensamento. Rimos tanto de tudo que dá vontade de chorar. É tão bonito rir com nossos amigos.

Um poema que sei de trás pra frente diz que “é importante ir à festas. Para fazer da vida um vestido ou um drink ou sapatos que alguém calça na chuva”. A gente sai de casa para esquecer, para celebrar, para delirar. O ano está acabando. Amanhã é 2025. Ou 2012. O mundo acabou, a festa também. O táxi me leva em direção aos anos. Vem comigo.

Foto de capa: Reprodução/HBO

Crônica de João Agner, com edição de texto de Mariana Motta

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