Comportamento Saúde

Apostas online: a crescente no mercado e quais malefícios podem trazer para a saúde

A reportagem explora como o crescimento desenfreado das casas de aposta tem prejudicado a saúde mental de muitas pessoas

Quem nunca viu uma propaganda na televisão, nas suas redes sociais ou até em outdoor na rua sobre as apostas online? As chamadas Bet (“aposta” em inglês) viraram febre no mundo todo. Com a pandemia de Covid-19, as casas de apostas se popularizaram ainda mais, muito em função da facilidade de ser acessada – com o seu celular você consegue ter acesso a várias e diferentes plataformas. O presidente do Instituto Jogo Legal, Magno José Santos de Sousa, estima que existam mais de 2 mil sites de apostas esportivas em operação no Brasil atualmente.

As casas de aposta têm movimentado quantias exorbitantes. O relatório da XP cita a BNL, que é uma agregadora de plataformas de apostas. Essa empresa estimou que brasileiros apostaram entre R$ 100 bilhões e R$ 120 bilhões no ano de 2023. O valor já corresponde a cerca de 1% do PIB. Quanto mais dinheiro elas possuem, maior o investimento em publicidade e, consequentemente, mais pessoas serão afetadas.

Jogo de azar popurlamente conhecido como jogo do tigrinho
(Foto: Reprodução)

Dentro dessas plataformas, existe uma modalidade chamada cassino, onde ficam os conhecidos jogos de azar; os mais famosos são o “tigrinho” e “aviãozinho”. Enquanto as apostas esportivas permitem acompanhar os resultados e calcular lucros, os jogos de azar dependem de algoritmos desconhecidos pelos jogadores. Essas casas têm apostado na publicidade de influenciadores digitais, onde eles recebem uma quantia para fazer propaganda desses jogos e, sem responsabilidade nenhuma, eles vendem falsas promessas de renda extra e dinheiro fácil, quando na verdade estão espalhando um novo e perigoso vicio.

De acordo com nota técnica divulgada pelo Banco Central (BC), 5 milhões de pessoas pertencentes a famílias beneficiárias do Bolsa Família enviaram R$ 3 bilhões às empresas de apostas por Pix em agosto.

Uma pesquisa divulgada pelo Instituto de Psiquiatria (IPq) da Universidade de São Paulo (USP) revelou que cerca de 2 milhões de brasileiros são viciados em jogos de azar.

Jogo patológico

Diferentemente da dependência em álcool e drogas, em que os sintomas são fisicamente perceptíveis, o vício em jogos de azar apresenta sinais menos óbvios. Esse vício em apostas é chamado de jogo patológico. De acordo com a psicóloga Karina Abrahim, jogo patológico é caracterizado pelo comportamento abusivo/nocivo com jogos de azar, mesmo quando o indivíduo que joga tem consequências negativas com esse comportamento.

“Eu comecei a apostar na pandemia, logo quando fiz 18 anos. Caí na falácia de que seria uma renda extra. Comecei apostando pouco, mas ficava frustrado com minhas perdas e apostava ainda mais para tentar recuperar. No final, contraí uma dívida de 3 mil reais, tive problemas familiares e com minha ex-namorada. Cheguei a pensar em tirar minha vida, carregava uma vergonha e uma culpa enorme. Hoje faço acompanhamento psicológico e não tenho mais vontade de jogar”, relata João Vinicius, de 25 anos.

Diferente do João, temos pessoas que realizam apenas apostas esportivas e relatam nunca terem tido problema, como é o caso do Paulo Henrique, de 30 anos. Ele relata que entrou nesse mundo em 2021 e diz que aposta pelo fato de dar mais emoção ao jogo. “Às vezes você está vendo um jogo péssimo e a aposta transforma ele no jogo da vida, porque você não quer perder dinheiro”, ele conta.

Algumas pessoas afirmam ter tido um certo descontrole, mas conseguiram se afastar sem precisar de ajuda. Gabriel Ferreira, de 23 anos, conta que já perdeu mil reais em torno de uma hora com o “aviãozinho” e ainda afirma que após ver suas perdas em uma determinada plataforma, percebeu que era hora de parar e se controlar. Hoje só faz apostas baixas e de forma recreativa.

Essa emoção causada pelo jogo, de você perder ou ganhar dinheiro, é o que pode levar o indivíduo a se tornar um jogador patológico.

“O jogo patológico gera uma dependência semelhante à dependência química, como o uso abusivo de álcool e drogas. Ao se aventurar em um jogo prazeroso, são secretadas noradrenalina e dopamina, que causam a sensação de alívio e prazer. Assim, jogadores patológicos precisam jogar cada vez mais para obter o mesmo sentimento de antes.”, explica Karina.

(Foto: Reprodução)

Como identificar sinais de vício?

De acordo com Karina, pessoas com contexto social de vulnerabilidade, com baixo nível de sociabilidade e com menor renda são pessoas mais vulneráveis. “Muitas pessoas veem os jogos como uma chance de fazer dinheiro rápido, mas não percebem o quanto perdem ao longo do tempo”, ela explica.

A psicóloga traz alguns sintomas que são importantes para percebermos que existe uma patologia: preocupação frequente com jogo; esforço repetido e sem sucesso de controlar, diminuir ou parar de jogar; necessidade de aumentar os riscos ou apostas para alcançar o prazer desejado; inquietude e irritabilidade quando não está jogando; ameaçar ou perder relacionamentos significativos, oportunidades de trabalho, educação ou carreira por causa do jogo.

É fundamental buscar ajuda profissional, que pode acontecer através de psicólogos, psiquiatras, terapias específicas ou grupos de apoio. 

“A gente pode trabalhar com três linhas de ação: apoio da psiquiatria, da psicologia e de grupos como os Jogadores Anônimos”, afirma Abrahim.

*Os entrevistados João Vinicius e Paulo Henrique, pediram para não ter sua identidade revelada, e foram usados pseudônimo.

Foto de capa: Joédson Alves/Agência Brasil

Reportagem de Pedro Freitas, com edição de texto de João Agner

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