Comportamento Crônica

Retrato de uma jovem imigrante

Nesta crônica, Larissa Martins discorre sobre a sua ancestralidade e destaca o estudo como ferramenta de mudança social.

Por Larissa Martins

Há três anos atrás, no dia do meu aniversário, minha avó faleceu. Não sei se por karma, infortúnio do destino ou se universo queria me dar uma lição, mas naquele ano não comemorei essa data. Tenho hoje 21 anos, a mesma idade que ela tinha quando saiu de sua aldeia em Portugal para tentar a vida como imigrante no Brasil.

Ofereço um breve contexto para você compreender a situação: imagine uma Europa devastada pós Segunda Guerra Mundial. Uma vida na zona rural sem qualquer meio de comunicação de massa. Pense em temperaturas negativas, nas quais o vento é capaz de cortar seu rosto como uma navalha. No campo, os agricultores se alimentavam do que colhiam, e os que não possuíam terras… tinham a Bíblia.

Minha avó, na época uma garota, entrou em um navio sozinha para atravessar o Atlântico em busca de melhores oportunidades. Ela nunca concluiu os estudos, a educação não era uma possibilidade. Para as mulheres, o melhor cenário possível era se casar com um homem de posses, preferencialmente um comerciante. Foi isso o que ela fez, quando chegou no Brasil.

O matrimônio não ocorreu como esperado. Meu avô, um alcoólatra, gastava mais do que podia com a “família do bar” e não sobrava muito para os parentes. Antes do casamento, ela trabalhava como empregada doméstica, mas foi proibida de ganhar seu próprio dinheiro pelo recém marido. Dessa união, nasceram duas meninas: minha mãe e minha tia.

Quando eu era criança, nos almoços de domingo e feriados, a família costumava brincar com o exagero de comida da vovó, que muitas vezes era desperdiçada. Ela também fazia estoque de alimentos, muito antes da pandemia, que estragavam e iam para o lixo. Agora entendo que ela não queria que nós conhecêssemos a fome.

Minha avó sempre incentivou as duas filhas a estudarem e a conquistarem a independência financeira. Foi isso o que elas fizeram. Me entristece pensar nas gerações de mulheres que vieram antes da minha mãe e não tiveram as mesmas chances. Gostaria de poder honrar seus sacrifícios, afirmar que não foram em vão. Espero que depois de vidas tão difíceis, elas tenham encontrado o paraíso.

Agradeço a minha avó, Clarisse, por ter sido a primeira a romper o ciclo. Por ter me ensinado, desde cedo, qual é o verdadeiro caminho para a liberdade enquanto mulher. Não consigo imaginar o medo que ela sentiu ao embarcar em uma viagem sem volta, longe de casa e de tudo o que ela conhecia. A coragem dela ressoa em mim e, graças a ela, colho os frutos de sua decisão.

Foto de capa: Divulgação/HBO (“A amiga genial”)

Crônica por Larissa Martins, com edição de texto de João Agner

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16 comentários em “Retrato de uma jovem imigrante

  1. Avatar de Juliana Costa
    Juliana Costa

    Texto maravilhoso, deu vontade de ler mais!

  2. Avatar de Lucia

    Simples, verdadeiro e emocionante seu texto!

  3. Avatar de farmaceuticaadriana

    Chorei. Ela merece essa homenagem. Está feliz e orgulhosa, com certeza!

  4. Avatar de Helani Vilanova Rodrigues
    Helani Vilanova Rodrigues

    Larissa e Adriana, identifiquei de cara a possibilidade de ser sobrinha e tia. A tia Adriana q conheço. E fiquei aqui, imaginando o sentimento q essa tia estaria sentindo ao ler. Se até eu, me emocionei, imaginando vó Clarisse da Larissa e do Nick nessa trajetória. Tia Adriana nunca teceu nenhum comentário sobre sua história, mas tenho absoluta certeza q essa mãe, está e é orgulhosa dos seus descendentes. Te admiro mais ainda tia Adriana.

  5. Avatar de Renata Simões
    Renata Simões

    Texto Espetacular.
    Parabéns e muito sucesso para você.

  6. Avatar de Fernando

    Parabéns. Muito bom

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