Cultura

Triste e denso, “Coringa” retrata a loucura de um homem em uma sociedade à beira do colapso

No 80° aniversário do Batman, é o palhaço do crime quem recebe uma nova adaptação que estreia nesta quinta (30)

É inegável que o Coringa está entre os maiores vilões de todos os tempos. O personagem deixou a figura cômica e engraçada dos anos 50 para se transformar no agente do caos que se conhece hoje. Quatro atores já ficaram responsáveis por trazer a loucura do vilão às grandes telas, mas agora é a vez de Joaquin Phoenix dar vida ao personagem, estrelando o seu filme solo.

Em “Coringa”, acompanhamos Arthur Fleck (Joaquin Phoenix) e sua dura realidade na cidade de Gotham trabalhando como um palhaço e cuidando de sua mãe doente, enquanto tenta despontar na carreira de comediante stand-up. A partir disso, Arthur tenta achar o seu lugar em um mundo no qual sempre esteve deslocado.

Arthur Fleck trabalhando como palhaço em Gotham. (Foto: Reprodução/Facebook-Warner)

O longa, embora seja sobre o maior vilão da DC, não possui qualquer relação com o universo de filmes interligados que a Warner tem produzido recentemente. Essa decisão se mostrou bastante acertada pelo diretor Todd Phillips. Aqui, não há nenhuma preocupação em encaixar a obra em uma linha cronológica que faça sentido com as outras produções, mas sim em apenas contar uma boa história.

A direção de Philips é um ponto a se destacar. Esse, sem dúvidas, é o melhor trabalho do diretor que antes já tinha realizado o ótimo “Se Beber Não Case” e o bom “Cães de Guerra”. O modo como Phillips dirige o filme é claramente inspirado no estilo de filmar de Martin Scorsese. Aliás, é possível achar em “Coringa” muitos elementos presentes em outros longas de Scorsese, como “Taxi Driver” e, em especial, “O Rei da Comédia”. Esses clássicos foram muito mais importantes na construção deste Coringa que qualquer HQ já escrita do personagem.

De um lado De Niro em “O Rei da Comédia” e do outro Phoenix em “Coringa”. (Foto: Reprodução/Twitter)

A Gotham City de “Coringa” também é uma clara inspiração da Nova York dos anos 70 e 80 vista nas obras citadas acima. Ambas as cidades convivem com altos índices de pobreza, violência e outras mazelas sociais. O povo de Gotham, assim como os nova iorquinos daquela época, se encontra insatisfeito com o rumo que a cidade tomou e clama por mudanças. O Coringa de Phoenix é o símbolo de um local que está prestes a explodir.

Mas, de todos os acertos de “Coringa”, a atuação de Phoenix é com toda a certeza a maior. O ator consegue passar em seus trejeitos e olhares toda dor e sofrimento que o protagonista teve em sua vida. Durante o filme, Arthur explica que possui uma deficiência que o faz rir de forma compulsória, então, as risadas que solta ao longo da narrativa não possuem um só sentido. Em certos momentos elas representam tristeza, em outros, nervosismo e em algumas poucas vezes alegria. As mudanças causadas por uma realidade difícil não são sentidas apenas no seu comportamento, mas no físico do personagem também. Para passar um aspecto de fragilidade, Phoenix chegou a perder 24 quilos para o papel.

Arthur tentando ensaiar uma risada, enquanto se prepara para o trabalho (Foto: Divulgação/Warner)

O elenco de apoio, ainda que com uma participação não tão grande, funciona muito bem. Zazie Beets, Frances Conroy, Brett Cullen e Robert De Niro entregam ótimas atuações e seus personagens de diferentes formas possuem uma importância na trajetória de Arthur. A presença de De Niro vale um destaque, pois em “O Rei da Comédia” o ator vivia um comediante que buscava o sucesso no ramo do stand-up e tenta de inúmeras maneiras chamar a atenção de seu ídolo. Já em “Coringa”, De Niro passa a ser a figura de sucesso que Arthur almeja alcançar.

“Coringa” não se trata apenas de um filme de origem, mas também é um estudo de personagem. Phillips mostra em sua obra a motivação de um homem que se revolta contra um sistema que não se importa com os menos favorecidos. O filme, da mesma forma, serve de alerta para a maneira como os problemas da nossa sociedade são tratados e que apenas ignorá-los ou negar a sua existência não os fará desaparecer. O surgimento do Coringa interpretado por Phoenix não é causado por uma acidente químico, mas sim por nós.

Breno Silva – 7° período

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