Trabalho autônomo como solução: a escolha em meio ao alto desemprego

Como muitos brasileiros buscam fontes de renda alternativas por não conseguirem empregos com carteira assinada

Nos últimos anos, houve uma queda considerável no número de trabalhadores ativos no país. Dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estimam que a taxa de desemprego no país alcançou a taxa de 12,4% nos três primeiros meses do ano, um salto considerável em comparação com o índice de 11,6% do final de 2018. Em números, de 12 milhões em janeiro de 2019, para 13 milhões ao final de março.

O cenário ainda não é dos mais otimistas, pelo menos para quem busca vagas de trabalho formais. O número de trabalhadores informais ainda é alto, apesar de uma ligeira queda em comparação à última pesquisa do IBGE. Há ainda cerca de 14 milhões de pessoas que trabalham por um tempo inferior à 40 horas semanais, e que tem dificuldades para preencher seu tempo com mais trabalho.

Em meio à instabilidade na geração de empregos com carteira assinada, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) de 2018, muitos brasileiros buscam fontes de renda alternativa e conseguem um certo grau de atividade trabalhando como autônomas e às vezes tentando iniciar um pequeno empreendimento. O perfil destas pessoas pode variar, desde jovens universitários que trabalham por conta própria por terem dificuldade em encontrar vagas especializadas, até adultos que perderam seu emprego e encontram dificuldades para reentrar no mercado de trabalho.

Diego Canavarro se encaixa no perfil do jovem que tem uma ideia e a coloca em prática. Aos 22 anos, Diego começou a fabricar e vender um tipo de produto já famoso no mercado de confeitarias: as palhas italianas. Inicialmente sua ideia era obter dinheiro para pagar a mensalidade de um esporte que praticava; com o tempo, o lucro aumentou e Diego passou a também ajudar no pagamento das mensalidades da faculdade. “Eu comecei ainda no primeiro período da faculdade, mas comecei a fazer as palhas para pagar a mensalidade do Botafogo, onde eu jogava vôlei. As primeiras eu fiz com R$ 20,00, e vendia cada uma por R$ 3,00. Da primeira para a segunda semana eu consegui quadruplicar a quantidade. Aí eu comecei a investir em arte para a embalagem, fazer novos sabores e tal”.

Diego buscou também expandir seu pequeno negócio, montou uma “bike food”, chegou até a expor seus produtos em eventos de food trucks, porém não levou a ideia adiante conforme foram surgindo novas responsabilidades na faculdade. “Até o ano passado ainda vendia palhas, só que em muito menos quantidade, o negócio desandou um pouco então eu dei uma largada, mas não definitiva. Eu ainda tenho outras ideias de negócios, cheguei a organizar uma startup de gestão de mídias sociais, mas não coloquei em prática ainda”.

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Diego participou de eventos para divulgação de seus produtos. (Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal)

Diferente de Diego, que investia seu dinheiro e tempo na produção e venda de produtos, Matheus Nóboa fez um alto investimento com o objetivo de trabalhar com fotografia publicitária, mas pela escassez de vagas, se encontrou em outro ramo também muito disputado atualmente: o de fotógrafo freelancer. Matheus conta que fez um alto investimento inicial para obter os equipamentos fotográficos básicos para cobertura de eventos e realização de ensaios. Segundo eles, os materiais estão longe de ser baratos.

“É um investimento alto sim. O material é muito caro, câmeras de qualidade podem passar dos 5 mil fácil. Fora que o fotógrafo também pode buscar se aperfeiçoar, fazer cursos de fotografia, iluminação, edição. Tudo isso sai caríssimo”, conta Matheus.

Além disso, segundo ele, o mercado de fotografia está muito saturado. Porém, trabalhar por conta própria traz suas vantagens. “Eu posso ser o meu próprio patrão, faço o meu próprio preço. Isso me dá uma liberdade pra ter um certo tempo mais ou menos livre, e cobrar aquilo que eu acho justo. Mas ao mesmo tempo, tem pessoas que desvalorizam muito a profissão, cobrando preços ridículos”. O mercado que envolve o ofício da fotografia vem se fortalecendo muito na área de ensaios pessoais tematizados e cobertura de médios e grandes eventos, ao passo que empregos fixos como o de fotógrafo publicitário e fotojornalista perdem um pouco sua força.

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Exemplos de equipamentos necessários para se trabalhar com fotografia; apenas uma lente pode chegar ao valor de R$ 3 mil./ (Foto: Reprodução/Pixabay^)

O economista Fernando Pandovanni, que também é professor da Universidade Veiga de Almeida (UVA) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), afirma que a classe de trabalho informal é parte natural da pirâmide econômica de um país, mas faz ressalvas:

“O trabalho informal, autônomo, ou até mesmo terceirizado, são importantes pois movimentam serviços e produtos de base na economia, é mais dinâmico. Só que é bom atentar para a proporção entre trabalhadores formais e informais. Muito mais trabalhadores informais significa que a formação de mão de obra especializada está em baixa, ou que as empresas estão em situação difícil, em crise, e tudo mais”, afirma o economista.

Ainda assim, a preferência de muitos das pessoas ocupadas em um serviço informal/autônomo gostariam de estar trabalhando no setor formal. Isso se deve, tanto aos direitos e garantias trabalhistas previstas em lei para o trabalhador formal, tanto para a valorização da mão de obra: dados do IBGE de 2017 estimam que o informal recebia cerca de 48% dos rendimentos do trabalhador formal.

Carla Pires, de 32 anos, trabalha com revenda de produtos de uma determinada marca. Este tipo de comércio, conhecido como marketing multinível, é uma alternativa que pessoas já com pouco espaço no mercado de trabalho encontram para tentar ter uma renda extra. Carla conta que se viu obrigada a começar neste trabalho depois do nascimento de sua filha, atualmente com um ano de idade:

“Eu comecei em 2017 nesse negócio, um pouco depois que eu perdi o emprego. Basicamente comecei pra tentar ter uma melhora de vida, mas é muito puxado, exige muito. Quando soube que estava grávida, eu me motivei um pouco mais a continuar nele, pois precisava. Hoje eu ainda trabalho com isso, mas sigo procurando emprego em outra área”, diz Carla.


Victor Leal – 7º período

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