Gaymada celebra a diversidade em formato de esporte

Por Lia van Boekel

Glitter, música, fantasia, coreografia, maquiagem e esporte. Um desses não é como os outros, mas quando o assunto é a Gaymada, faz todo o sentido. Quase todo mês do ano, membros da comunidade LGBT se reúnem para celebrar a diversidade e jogar queimada em locais públicos. O evento nasceu em 2016, em Belo Horizonte, com o intuito de aproveitar e praticar o esporte em um espaço agradável e acolhedor para pessoas de diferentes gêneros e orientações sexuais.

O Brasil é um país onde a homofobia ainda está profundamente enraizada na sociedade, o que pode ser claramente observado dentro dos estádios mais populares do país, onde termos intolerantes são muitos usados visando insultar adversários. Um dos casos mais recentes envolveu o Atlético Mineiro, quando seus torcedores esbravejaram ataques ameaçando homossexuais de morte. Além das ofensas verbais, gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros também temem sofrer outros tipos de atentados apenas por existirem, afinal, segundo levantamento do Grupo Gay da Bahia, entidade que colhe dados sobre a população LGBT, o Brasil é o país que mais mata pessoas por conta da orientação sexual no mundo.

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A drag queen Kendra Karter se prepara para jogar Foto: Arquivo da Gaymada de São Paulo

Para fugir dessa realidade, foi criado o evento batizado de “Gaymada”, nome que mistura as palavras “gay” e “queimada”. Uma das organizadoras da Gaymada de São Paulo, Mayra Moraes, fala sobre a popularização do evento. “É muito gratificante saber do reconhecimento e do respeito que o evento recebe. Era uma ideia simples, misturar esporte com celebração e conseguimos criar um ambiente acolhedor e confortável para todos”.

A Gaymada foi um experimento que deu muito certo. Seu formato está sendo reproduzido em diversas regiões do Brasil, ganhou “edições especiais” em feriados, como a Gaymada Natalina, que contou com mais de 200 participantes, virou bloco de carnaval e até recebeu prêmios. O criador da Gaymada, o jornalista Lucas Galdino, comenta sobre como o evento inicialmente tomou forma.

“Me inspirei pelo que hoje eu chamo de formato rascunho da Gaymada, que veio de Belo Horizonte, onde um grupo de teatro gay encenava jogos esportivos. Daí surgiu a ideia de tornar isso realidade. No primeiro evento que criei pelo Facebook, na minha página pessoal mesmo, recebi confirmação de presença de centenas de pessoas e assim aconteceu a primeira edição da Gaymada, no dia 19 de março de 2016, com inicialmente 60 participantes, no Largo da Batata, em São Paulo. Foi um grande sucesso e já na segunda edição, várias pessoas se ofereceram para me ajudar e logo montamos uma equipe de produção. Somos quatro organizadores no total”.

Além disso, o idealizador também comenta sobre a visibilidade que ganhou no meio através de indicações como ao prêmio do site Guia Gay São Paulo, na categoria melhor evento em 2016, tendo ficado em segundo lugar, atrás apenas da Parada do Orgulho LGBT. As nomeações se repetiram em 2017 e no ano seguinte, quando concorreram ao Prêmio Papo Mix da Diversidade e participaram da Virada Cultural. “Isso é muito importante para continuarmos”, acrescenta.

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Árbitros posam com cartão vermelho e amarelo Foto: Arquivo da Gaymada de São Paulo

Já com quase três anos de existência e ocorrência quase mensal, a Gaymada se tornou essencial na vida de várias pessoas, a drag queen Kendra Karter, de 19 anos, conta o que torna o evento especial para ela:

“É difícil fazer um exercício físico recebendo olhares tortos pelo seu jeito diferente, estar constantemente sob o julgamento de terceiros pelo esporte que você pratica e como pratica. Esse é o diferencial da Gaymada, é um lugar na luz do dia, sem preconceitos, onde a gente pode se divertir e se exercitar, com pessoas que viraram amigos, que entendem e respeitam seus medos e sofrimentos”.

Presença garantida desde o primeiro jogo de queimada, Yago Nascimento, também de 19 anos, fala sobre a importância da Gaymada e convida todos a participarem:

“Eu recomendo para todo o tipo de pessoa que queira ir, se divertir, ocupar espaço sendo LGBT, sendo negra, afeminada, sendo travesti, qualquer um que queira um evento diferente, longe dos ambientes esportivos comuns, que muitas vezes podem ser tóxicos. A população LGBT acaba sendo marginalizada e forçada a apenas existir na noite, no escuro e nós buscamos acabar com isso, colocando a cara no sol, jogando bola, dançando, saindo com os amigos e ocupando um espaço que é público, que é nosso também”.


Reportagem produzida para a disciplina de 5º período Projeto Interdisciplinar em Jornalismo Impresso

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