“Meu Anjo” não é um desastre, mas peca nos excessos

Quando estreou no Festival de Cannes, em 2017, Projeto Flórida chamou a atenção da crítica e rapidamente, passou a ser um dos filmes mais cotados ao Oscar. Em seguida, perdeu espaço e acabou concorrendo apenas em ator coadjuvante, mas não perdeu seu encanto. Entregou uma história que fala do contraste entre os desafios da vida adulta e a inocência da infância. Há notórias semelhanças em Meu Anjo, embora o foco maior seja nas consequências.

Dirigido e escrito pela estreante Vanessa Filho, o filme trata de uma mãe que por conta da vida entregue ao alcoolismo e às tentações, acaba afetando diretamente a criação da filha Elli, de apenas oito anos. A cena de abertura já nos dá um panorama de como funciona a relação delas. A menina assume o papel de cuidadora, enquanto a mãe, bêbada, se questiona se vai conseguir levantar na manhã seguinte para a cerimônia do próprio casamento.

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Marion Cottilard interpreta a mãe, Marlène Foto: Divulgação

São constantes as vezes que vemos Elli (Ayline Aksoy-Etaix) sendo simplesmente esquecida por Marlène (Marion Cottilard), como se a criança mal existisse. Cottilard, apesar de competente, acaba sendo vítima de um roteiro que torna sua personagem rasa e unidimensional. Nunca conhecemos outras facetas dela ou seu passado – tirando uma cena em que diz que já tentou se casar outras cinco vezes e todas deram errado. Esse fator contribui para uma atuação que à primeira vista se mostra convincente, mas que ao longo da projeção, só se prova estar no mesmo tom.

Esse mesmo estilo é refletido pela direção, que ao abusar de padrões introduzidos de forma prematura, acaba causando um efeito anestésico no espectador. Não houve tempo para que sentíssemos afetuosidade entre Marlène e Elli visto que, desde o primeiro ato, vemos tentativas de aproximação por parte da menina, sendo constantemente rejeitadas. Se por um lado a boa trilha instrumental traz dramaticidade em momentos pontuais, não se pode dizer o mesmo da fotografia que, ao abusar repetidamente dos planos em close e câmera na mão, parece mais desperdício do que algo de fato funcional.

Embora o filme erre em querer nos forçar a sentir o peso da história, Filho acerta quando o destaque maior passa a ser a menina. Sólida, a interpretação de Ayline Aksoy-Etaix transmite, só com olhares, toda sua tristeza, raiva e angústia nas doses certas e acaba sendo um contraponto à linearidade de Cottilard. Esse é o primeiro longa de Ayline, portanto, guarde o nome dela. Nas cenas em que Elli está sozinha são quando as sutilezas do roteiro aparecem. Como em determinados momentos em que a personagem apenas observa outras crianças ou quando, na simbólica cena da piscina, brinca sozinha, em um plano aberto, traz a ideia da solidão e de uma infância perdida em razão do abandono. Ela está reclusa em relação ao mundo que a cerca.

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A atriz mirim Ayline Aksoy-Etaix é o destaque do filme Foto: Divulgação

Ainda que consiga trabalhar sutilezas, o longa parece mais focado em soar dramático a todo instante, o que inevitavelmente se torna uma armadilha. É aceitável, por exemplo, que a exposição de Elli aos vícios da mãe gere consequências que são vistas no decorrer na história – deixe uma criança sem supervisão e ela estará livre para alimentar suas curiosidades. No entanto, Filho usa o artifício em questão exaustivamente e o que parece impactante no início, só se torna repetitivo com o decorrer do tempo. A rendição às obviedades é ainda mais explícita quando somos apresentados à figura de Julio (Alban Lenoir).

O roteiro nos dá dicas de que o personagem seria uma espécie de espelho para Elli, visto que há pequenas pistas de uma relação conturbada dele com o pai, mas não vemos o desenvolvimento disso. Sem falar no fato de Julio ser um ex-mergulhador de penhascos, fazendo com que um momento específico do filme se torne totalmente previsível. Aliás, observe como, mesmo sabendo da situação em que se encontra a menina, ele sequer toma alguma atitude de procurar quem possa ajudá-la – o conselho tutelar até chega a ser introduzido, mas é simplesmente esquecido depois.

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O personagem Julio (Alban Lenoir) é dos pontos fracos do filme  Foto: Divulgação

Ao tratar de temáticas pesadas como o abandono e a negligência materna, Meu Anjo já tem meio caminho para conseguir capturar o espectador. Para alguém que está estreando, a diretora Vanessa Filho até flerta com bons momentos, mas se rende aos excessos. O que se vê de tentativa aqui, foi feito melhor em Projeto Flórida, que consegue explorar com leveza o ponto de vista da infância, sem precisar apelar para as consequências da ausência para que nos faça senti-las. A regra do menos é mais parece se aplicar nesse caso.


Márcio Rodrigues – 7º período

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