O milagre econômico foi bom ou ruim para o Brasil?

Durante o governo militar, o Brasil passou por diversas mudanças na economia. O período que mais chamou atenção foi entre os anos de 1968 e 1973. Essa parte da história brasileira é chamada de “milagre econômico”, pois ao longo desses anos a economia brasileira cresceu de maneira nunca antes vista. Isso fez com que o PIB aumentasse e a inflação sofresse uma grande queda para a época. Porém, o aumento das riquezas do país não ficou evidente em boa parte da população.

Para se ter ideia do tamanho desse crescimento basta fazer uma comparação com os anos que antecederam o “milagre”. Durante o período de 1964-1967, o PIB cresceu em média 4,2% ao ano. Entre os anos de 1968-1973 houve crescimento próximo de 11 % ao ano. De acordo com os dados do Banco Mundial, o PIB saiu de $ 30,5 bilhões em 1967 para $ 79,2 bilhões em 1973. Outra grande mudança foi a baixa da inflação que caiu de 25,5% para 15,6% entre o período de 1968 e 1973.

PIB

Crescimento do PIB brasileiro. Fonte: Banco Mundial/Google Data

Entender todos os fatores que levaram a este grande crescimento pode ser uma tarefa complicada, pois existem diversas variáveis que colaboraram para isso, mas o crescimento não foi exclusividade do Brasil. O PIB mundial era de R$ 2,2 trilhões em 1967 e fechou em R$ 4,5 trilhões ao fim de 1973.

Um ponto importante para se destacar foram os investimentos externos que chegaram ao Brasil a partir do ano de 1968. Em entrevista à TV Tupi, o Ministro da Fazenda, Delfim Netto, falou que naquele ano o país receberia aproximadamente 500 milhões de dólares vindos do Banco Mundial e Banco Interamericano. O alto valor seria investido em estradas de rodagem, projetos de energia elétrica, armazenamento e produção agrícola.

De acordo com Otaviano Canuto, diretor executivo do Banco Mundial (Washington, D.C, EUA), esse tipo de investimento é comum em bancos multilaterais. “O dinheiro de bancos multilaterais é destinado para financiamento de longo prazo de projetos específicos e todos os anos ainda vem para o país. Atualmente o fluxo é de 1 bilhão (dólares) por ano. Não se deve confundir com o dinheiro de curto prazo do FMI para ajustamento macroeconômico e de balanço de pagamentos”.

Com dinheiro em caixa foi possível realizar diversas obras de infraestrutura que são importantes até os dias atuais. Algumas construções são consideradas “faraônicas” por conta dos tamanhos impressionantes. Um exemplo disso é a Ponte Rio-Niterói, que teve as obras iniciadas em agosto de 1968 e foi concluída em 1974.

Além do dinheiro vindo de bancos multilaterais, as empresas multinacionais chegaram até o Brasil para realizar investimentos  na fabricação de automóveis. Com isso diversos empregos foram gerados, o que fez com que parte da população tivesse condições de adquirir bens de consumo duráveis.

Outro fator que colaborou com o crescimento da economia foi a política macroeconômica adotada. As empresas foram estimuladas a exportar os produtos e o governo criava facilidades para que isso acontecesse. As taxas ficaram mais baixas e as burocracias mais simples para quem quisesse se tornar um exportador.

O objetivo do governo era atingir um grande crescimento em um curto espaço de tempo. Por isso aconteceram incentivos para o crescimento das indústrias no Brasil. Alguns países chegaram a questionar a velocidade do crescimento e citaram que isso afetaria a questão ambiental. O governo ignorou essa questão, pois o objetivo era alcançar o maior nível de desenvolvimento possível em poucos anos.

Durante o período do milagre econômico o governo fez questão de criar propagandas que mostrassem o crescimento do país. Frases como “Pra frente, Brasil” e “Ninguém mais segura este país” ficaram famosas e foram muito utilizadas principalmente quando a seleção brasileira conquistou a Copa do Mundo de Futebol em 1970. Queriam passar uma visão de que o Brasil seria imbatível em todos os sentidos.

Este grande crescimento da economia nacional possibilitou o aumento do poder aquisitivo do empresariado e da classe média. Isso elevou a produção e a venda de bens de consumo como eletrodomésticos e automóveis. Mas esse aumento do poder de compra não se mostrou tão significativo para a população mais pobre ao longo dos anos.

A maneira como a economia se desenvolveu permitiu que a renda nacional crescesse, mas não para todos. A concentração de dinheiro em posse do empresariado fez com que houvesse aumento da desigualdade social. A distribuição de renda nesse modelo (privilegiando os mais ricos) estava dentro dos planos do então Ministro da Fazenda, Delfim Netto. Ele afirmava que era preciso “fazer o bolo crescer para depois reparti-lo”. De fato o “bolo” cresceu ao longo desse período, mas a repartição citada por Delfim não aconteceu. Enquanto os ricos ficavam mais ricos, os pobres não cresciam proporcionalmente.

O diretor executivo do Banco Mundial, Otaviano Canuto, citou um exemplo de erro cometido na época. “Um erro foi a aposta de superinvestimentos em alguns setores sem a devida preocupação com a obtenção de produtividade e competitividade, deixando a economia muito fechada comercialmente”. Com a falta de diversificação no mercado econômico o país fica refém de algumas atividades e quando a demanda desses setores cai a economia é afetada.

Após o período de “fartura”, que foi possível por causa dos empréstimos vindos do exterior, o Brasil passou a ter um peso para carregar: a dívida externa. Ao longo dos anos o valor se multiplicou e impediu a continuidade do progresso em ritmo acelerado. A dívida era de aproximadamente  R$ 3,3 bilhões e fechou em R$ 12,6 bilhões ao fim de 1973.  Mas o milagre econômico não é o único responsável pelo aumento da dívida ao longo dos anos. Alguns conflitos e crises colaboraram para enfraquecer a economia após esse período.

Um do eventos que abalaram a economia foi a crise do petróleo. Durante a década de 70 descobriu-se que o petróleo não é um recurso natural renovável. Após isso, quem comercializava a matéria passou a aumentar os preços no mercado. Isso fez com que os países que não tinham a própria produção de petróleo em grande escala tivessem que deixar de investir em algumas áreas. Na época o Brasil importava cerca de 70% do petróleo consumido.

É um equivoco dizer que o dinheiro vindo do exterior foi responsável pelo aumento da dívida externa após o ano de 1973. Isso porque, na teoria, ele tinha como destino o investimento na infraestrutura do país. E investimento significa basicamente gastar dinheiro para ganhar dinheiro. O que se deve questionar é onde e como esse investimento foi aplicado.

Até hoje não se sabe exatamente os valores da dívida externa do período. O que existem são cálculos estimados. O Banco Central já divulgou diversos relatórios sobre o histórico da economia brasileira, mas esses números não foram revistos de maneira efetiva. Ainda não aconteceu de fato nenhuma auditoria para contabilizar a dívida, ou ir de frente aos valores que foram apresentados até então.

No dia 4 de junho de 2018, o Juiz federal Waldemar Claudio de Carvalho determinou que o congresso nacional criasse uma comissão de auditoria para analisar a dívida externa do país (Não somente a do período do milagre, mas sim toda a dívida existente). Um dia depois o Tribunal Regional Federal da 1ª Região derrubou a decisão do juiz. Em outras palavras: ainda vai demorar para que se conheça de fato toda a dívida existente.

Felipe Borges para a disciplina Oficina Multimídia em Jornalismo

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