É luta, é resistência, é consciência humana, é carnaval

Um dos destaques no desfile das escolas de samba do Rio, samba-enredo da Paraíso do Tuiuti traz para a avenida temas críticos e de reflexão à sociedade

“Não sou escravo de nenhum senhor, meu Paraíso é meu bastião. Meu Tuiuti, o quilombo da favela, é sentinela na libertação. Irmão de olho claro ou da Guiné, qual será o seu valor? Pobre artigo de mercado”. Esse foi um dos trechos do enredo que fez não somente o compositor, Cláudio Russo, mas também o público, se emocionar ao relembrar o samba da Paraíso do Tuiuti, que marcou história no Desfile das Escolas de Samba do Rio de Janeiro este ano.

Com o tema que falou sobre a escravidão, a escola de samba localizada no bairro de São Cristóvão, realizou um desfile que ganhou destaque em seu segundo ano seguido desfilando no Grupo Especial. A Paraíso do Tuiuti, com o enredo 130 anos da abolição, trouxe críticas sociais sobre a libertação dos escravos, a CLT e ao atual presidente do país.

Na comissão de frente da escola havia “um grito de liberdade”, com membros interpretando escravos negros. Já o carro abre-alas “Quilombo Tuiuti” foi inspirado em fortificações das tribos africanas, com rinocerontes na frente. Outro carro fez lembrar um navio negreiro, com diversas correntes. E o último, apresentou um vampiro com uma faixa presidencial.

Além disso, a escola trouxe para a avenida uma ala que mostrava o trabalho informal, com integrantes fantasiados de ambulantes, e outra que destacava os “guerreiros da CLT”, com operários segurando uma carteira de trabalho gigante. E as baianas se enfeitaram com riquezas africanas e o primeiro tripé trouxe uma representação da Lei Áurea, documento assinado pela Princesa Isabel, em 13 de maio de 1888, e completou 130 anos em 2018.

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Os “Guerreiros da CLT” traz uma representação da classe trabalhadora sobrecarregada de múltiplas atividades, que para se proteger dos ataques à CLT, utilizam como escudo a carteira de trabalho (Foto: Ewerton Pereira / Paraíso do Tuiuti)

Para um dos compositores do samba-enredo, Cláudio Russo, a escolha do tema é uma representação do que o país vive hoje. “Eu acho que o Brasil é um país que tem uma democracia muito frágil. Nós vivemos um momento delicado e esse momento delicado refletiu nos enredos das escolas de samba”, destaca Russo.

Essa reflexão sobre o momento em que a sociedade vive atualmente, foi também um dos motivos que fez várias outras escolas já pensarem em fazer enredos críticos para o ano de 2019, além de trazer a tona uma discussão para o carnaval, que estava calada há muito tempo. É o que afirma o compositor do samba-enredo da Tuiuti, Cláudio Russo.

‘’O que é importante é que o enredo crítico trouxe a tona discussão para o carnaval, algo que estava há muito tempo calado’’ (Russo)

Outros sambas-enredo também ganharam destaque no desfile de Carnaval do Grupo Especial do Rio em 2018. A Mangueira trouxe o enredo Com dinheiro ou sem dinheiro eu brinco fazendo críticas direta ao governo do prefeito Marcelo Crivella. Enquanto a campeã Beija-Flor levou para a Sapucaí o enredo Monstro é aquele que não sabe amar. Os filhos abandonados da pátria que os pariu abordou o descaso com crianças e adolescentes pobres, referenciando a corrupção.

Apesar de muitas pessoas acharem que as três escolas fizeram críticas semelhantes, Russo, afirma que cada uma fez uma crítica social a um determinado momento. Um dos exemplos citados por ele foi a Mangueira, que fez sua crítica diretamente ao prefeito do Rio, Marcelo Crivella, pelo corte de verbas do Carnaval de 2018. ‘’O que é importante é que o enredo crítico trouxe a tona discussão para o carnaval, algo que estava há muito tempo calado.’’ salientou.

No entanto, essa falta de verba não tirou a vontade do público em pular o Carnaval. Sambas-enredo, marchinhas e até blocos de rua, tiveram grande repercussão e reconhecimento neste ano, conquistando multidões. 

A Paraíso do Tuiuti, por exemplo, fez a escola, que era pouco conhecida, ganhar destaque em outros setores que não tinham nenhuma ligação com o Carnaval. “A Tuiuti , no dia do trabalho, foi fazer um show para o movimento sem terra, coisa que ninguém imaginava quem era a Paraíso do Tuiuti”, afirma  compositor da escola.

Uma das surpresas para o público este ano, foi o segundo lugar da Tuiuti, que perdeu por um décimo para a escola de Nilópolis, a Beija-Flor. Porém, isso não desanimou os integrantes da Tuiuti. A escola, que foi uma das prejudicadas em um acidente no desfile do ano passado, já teve seu samba-enredo divulgado para o ano de 2019. Dessa vez a Paraíso do Tuiuti irá contar a história de um bode, em forma de protesto, por receber votos sem ter feito campanha e ser eleito vereador de Fortaleza.

Quando a história do Samba se mistura à nossa história

Os relatos de quem estava na Marquês de Sapucaí no momento em que as caixas de som ecoaram o samba-enredo ”Meu Deus, Meu Deus, Está Extinta a Escravidão?” são de pura emoção, afinal como não se sensibilizar com uma história presente não só nos anos passados, mas que continua vivo e latente na realidade brasileira.

“O mesmo ritmo que pode trazer alegria e paixão, tem também o dever de trazer consciência e reflexão. A música como forma de arte tem que ser livre” (Russo)

O Carnaval brasileiro é uma tradição cultural e, para a advogada L., a edição de 2018 foi diferente, digamos especial. ”Não sabia se chorava, cantava, filmava com celular para compartilhar e eternizar aquele momento. Apesar de não ser a minha escola, assumo que a emoção e o orgulho não couberam no peito, transbordou”, conta a Salgueirense que preferiu manter sua identidade em sigilo.

E a sensação de estar em um desfile especial também foi sentida pelo estudante Diego Pedroso, que se lembra de olhar para os lados e ver uma comoção geral. “Todos estavam cantando, da arquibancada ao camarote, branco ou negro, rico ou pobre. A história do Brasil é fortemente marcada pela escravidão, são anos de luta.E é lindo ver essas letras na boca no povo, esse discurso tem que estar enraizado dentro de nós”, afirmou Diego.

Mas como escrever uma letra que toca, emociona, traz a tona os mais puro e sincero sentimento de pertencimento à uma história que, infelizmente, está longe do fim, e tem muito o que ainda ser debatida? O Compositor Cláudio Russo conta com os olhos marejados como foi o processo de criação e identificação do samba-enredo que foi vice-campeã do carnaval do Rio de Janeiro 2018, trazendo uma comoção nacional que marcou a trajetória da G.R.E.S. Paraíso do Tuiuti.

Para Russo o mesmo ritmo que pode trazer alegria e paixão, tem também o dever de trazer consciência e reflexão. “A arte não tem quadrado, a música como forma de arte tem que ser livre. Cada um de nós é um porta voz do nosso povo para o mundo”, finaliza.

Reportagem de Karine Santos e Carolina Ewald para a disciplina Oficina Multimídia em Jornalismo.

 

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