Transgêneros da vida real: jovens e especialistas falam do tema

Ivan nasceu Ivana e isso não é história de novela. Assim como na produção da Rede Globo, existem muitas pessoas que se descobrem transgêneros. Não é fácil, mas não é impossível compreender, entender e aceitar. Basta pesquisar e ler bastante sobre o assunto. Antes não se discutia muito, talvez nem se falasse sobre ele. Hoje, com a visibilidade que a personagem da novela “A força do querer” das 21 horas ganhou, a situação mudou e é possível a discussão.

Mesmo sendo ficção, a história apresentou a realidade de várias pessoas que sofrem preconceito quase todos os dias. Esse tema se tornou debate nas rodas de amigos e grupos familiares. É de grande importância o que está acontecendo, mas muitos não sabem o que falar sobre essa questão e acabam por opinar de forma equivocada e até mesmo preconceituosa, ofendendo aqueles que sentem na pele a realidade.

Carol Duarte era a Ivana da novela 'A força do querer'. Foto: Estevam Avellar/TV Globo/Divulgação

Carol Duarte era a Ivana na novela ‘A força do querer’. Foto: Estevam Avellar/TV Globo/Divulgação

O termo transgênero se refere a um indivíduo cuja identidade de gênero, ou seja, a maneira como a pessoa se identifica com seu próprio gênero, não corresponde à de seu sexo biológico, de nascimento. Uma pessoa que nasce com sexo feminino, mas se identifica como um homem é um “homem transgênero”. E uma pessoa que nasce com sexo masculino, porém se identifica como uma mulher, é uma “mulher transgênero”.

Essa identificação e esse desejo de uma pessoa em assumir um nova identidade não ocorre em uma idade específica, porém é na infância que surgem os primeiros sinais. De acordo com a psicóloga Juliana Vieira Sampaio, de 28 anos, nessa idade, ainda não dá para falar ao certo se a criança é transgênera ou não. “Muitos relatam que desde pequenos gostam de objetos e brincadeiras que socialmente pertencem ao sexo oposto”.

Um exemplo disso é o estudante João Vitor Cardoso Monteiro, de 18 anos, que quando era criança gostava de usar as roupas da cunhada e da mãe dele. “Me olhava no espelho, me sentia mais confortável e pensava: eu sou essa pessoa”. Ele fazia isso escondido para que seus familiares não o vissem. Quando eles o flagravam, diziam que era errado e pediam para tirar. “Eles nunca me bateram, mas brigavam muito comigo”. Hoje, ele adota o nome social de Carla, mas ainda não começou a transição.

Assim como João, algumas crianças podem dar esses tipos de sinais. Mas também, dependendo da idade em que isso se manifesta, pode ser apenas uma questão de fantasia e de encantamento pelo sexo oposto. Como é o caso da universitária Dandara Paiva Oliveira, de 21 anos, que quando era mais nova gostava de brincar de carrinho e soltar pipa. Os pais dela acharam que ela era lésbica, apenas pelo fato de brincar com esses brinquedos. “Sou uma mulher hétero e sempre gostei de coisas que, pela sociedade, são para meninos, como jogar bola, por exemplo”.

Sou uma mulher hétero e sempre gostei de coisas que, pela sociedade, são para meninos, como jogar bola, por exemplo”.

Nessa fase, é de grande importância que os pais levem os filhos ao psicólogo e ao psiquiatra. Não para tentar mudar o comportamento, mas para fazê-los entender o que está ocorrendo. O médico psiquiatra Alexandre Saadeh, de 56 anos, acredita que esses especialistas podem avaliar de maneira contínua a evolução da constituição da identidade de gênero delas. E reitera: “Podem fortalecer a autoestima, a autonomia e a independência desses pequenos”.

Alexandre ainda afirma que os pais devem fazer acompanhamento também. “O psicólogo pode ajudar a tirar a culpa inerente ao processo que acomete os pais”. Dessa forma, a terapia pode facilitar a explicação de tudo o que acontece e pode vir a acontecer com os filhos, facilitando a compreensão do assunto e orientando da maneira correta.

Depois que passa a fase da infância e começa a adolescência, a pessoa transgênera tende a manifestar mais os sinais. Tanto os pais quanto a própria pessoa podem não entender o que está acontecendo. Por esse motivo, o psicólogo Pedro Henrique Alves Brandão, de 41 anos, afirma que esta fase é a melhor para se procurar um especialista e fazer terapia. “É de grande importância procurar um profissional de psicologia quando o adolescente quer saber o que está acontecendo com ele, pois pode fazer diferença no futuro”.

É de grande importância procurar um profissional de psicologia quando o adolescente quer saber o que está acontecendo com ele, pois pode fazer diferença no futuro”.

Muitos procuram saber de outras formas: na internet, com os amigos. O universitário Rafael Gustavo de Souza Madeira, de 21 anos, é um exemplo. Ele, quando era Camila, achava que era lésbica, pois não conhecia e nem tinha escutado falar em pessoas trans. A reviravolta se deu ao conhecer um amigo de uma namorada, que era um homem trans e que conseguiu explicar tudo. A partir desse momento, ele percebeu que não era apenas uma mulher que gostava de outra e sim um homem transgênero. “Fiquei muito feliz e assustado ao mesmo tempo”.

Ele se perguntava o que faria depois de ter descoberto esse “novo” mundo. De fato, era mesmo uma novidade. “Minha mãe não me aceitava ao achar que era lésbica. Ao contar que era um homem, quase me bateu dizendo que era do demônio”. É difícil a compreensão pelas duas partes, por esse motivo é necessário fazer terapia e conversar com os especialistas, para sanar as dúvidas existentes e acabar com os preconceitos.

Ao contrário do ocorrido com o Rafael, o pai da secretária Maria Eduarda Coutinho, de 34 anos, compreendeu o que se passava com ela. “Nunca pensei que ao falar que era uma mulher trans ele aceitaria facilmente, mas me enganei”. Alguns pais são mais abertos a entender essa diversidade, outros não. É preciso conversar e saber esperar o tempo de cada um para assimilar todas as informações, pois muitas vezes eles não sabem sobre o assunto.

Ao passar por todos esses momentos, surge um que é mais complicado: a transição de gênero. Uma situação delicada da vida dessas pessoas e que precisa de muita atenção. Antes de começar o processo, se faz necessário o acompanhamento com especialistas e também com um endocrinologista. O indivíduo deve procurar os profissionais de saúde mental para a avaliação e, talvez, até o acompanhamento neste processo de readequação de gênero.

Depois dessa primeira etapa, o psicólogo ou psiquiatra encaminha para o endocrinologista, que faz uma avaliação clínica e laboratorial antes do início do tratamento. “Procurei todas as pessoas especializadas para começar a medicação”, diz Rafael. Logo após os exames serem realizados, pôde dar procedimento à transição. Foi como Maria Eduarda agiu: “Fiz tudo que era para ser feito e então, comecei a readequação”.

Procurei todas as pessoas especializadas para começar a medicação”

O tratamento é realizado com hormônios, em geral as medicações são feitas por via oral e por aplicações na pele e podem ser feitas pelos próprios pacientes. Por outro lado, as injetáveis exigem auxílio de pessoas com experiência em injeções intramusculares. Tanto Rafael quanto Maria Eduarda já começaram o tratamento e estão reagindo bem. Após três meses de uso, já são percebidas as mudanças, tanto estéticas quanto comportamentais, e até dois anos já se pode notar resultados satisfatórios. Segundo a endocrinologista Karen Faggioni de Marca Seidel, de 39 anos, as doses hormonais podem variar de acordo com a idade e com a necessidade de cada um.

Mas nem tudo é fácil assim. Ao usar a testosterona (hormônios masculinos), por exemplo, a pessoa pode ter uma alteração de humor, como aconteceu com Rafael. Durante dois meses de uso, ele passou a ficar mais fechado e mais nervoso. “Minha mãe falava algo que eu não gostava e já ficava com raiva dela”. Esses efeitos colaterais são comuns em muitos pacientes, mas com o tempo amenizam e acabam. Tem que saber esperar e tentar reverter essa situação, sempre conversando.

O tratamento não acaba por aí. A pessoa trans que estiver usando o hormônio deve continuar indo ao endocrinologista, pois periodicamente são realizados exames para avaliação hormonal. E por último, mas não menos importante, o paciente deve ir ao psicólogo e psiquiatra para fazer o acompanhamento dessa mudança de perto. Eles poderão ser uma ajuda nesse processo, facilitanto a compreensão de tudo que possa atrapalhar a transição.

Efeitos colaterais pelo uso dos hormônios Testosterona (em doses elevadas) Estrogênios (em doses elevadas)
• Aumento da pressão arterial  

• Trombose arterial

 

 

•  Desenvolvimento de cardiopatias

 

 

•  Surgimento de doenças no fígado

 

 

• Acne pelo corpo

 

 

• Varizes de membros inferiores

 

 

• Alteração de humor

 

 

• Redução total das ereções penianas

 


Reportagem de Ramon da Silva Rangel para a disciplina Projeto Interdisciplinar de Jornalismo Impresso

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