Vasco sente o impacto da perda de cobertura da imprensa nos últimos dez anos 

Após enfrentar três rebaixamentos, time cruzmaltino precisa aproveitar o seu potencial para mudar o panorama

A frustação no campo trouxe impactos significativos na imagem do Vasco na mídia esportiva

A frustação no campo trouxe impactos significativos na imagem do Vasco na mídia esportiva. Foto: Daniel Marenco/Agência O Globo

Principal esporte do país, o futebol atingiu um posto intocável na preferência da população. Se, no início do jornalismo esportivo no Brasil, a prática se limitava a uma coluna no canto do jornal, atualmente, conta com uma linha editorial exclusiva, jornalistas especializados e inúmeros programas esportivos. Com isso, a relação com o público estreitou e o jornalismo esportivo se tornou uma ponte importante entre os clubes e seus torcedores.

Assim como no início da editoria esportiva, a introdução do Vasco no futebol sofreu grande resistência.  Formado por jogadores portugueses, negros e brancos, da classe baixa, o time da Colina enfrentou os paradigmas sociais da época em busca do seu espaço. Com isso, o clube só teve uma aparição significativa na imprensa, em 1927, com a construção de São Januário. Depois disso, junto com o jornalismo esportivo, o Vasco cresceu gradativamente no gosto popular.

Após enfileirar anos de glórias e destaque na mídia, o Vasco vive um momento de baixa na sua história. Os últimos dez anos, mesmo com algumas conquistas importantes, como a Copa da Brasil, em 2011, foram de sofrimento para os torcedores. Uma constante crise política, graves brigas envolvendo a torcida, situação financeira complicada e três rebaixamentos, em menos de oitos anos. Com tantos acontecimentos negativos, seriam notórios os impactos na imagem do clube.

Um dos primeiros registros do time de futebol do Vasco com jogadores negros. Foto: Acervo do Vasco

Um dos primeiros registros do time de futebol do Vasco com jogadores negros. Foto: Vasco

Atualmente, com o nível de exposição nos meios de comunicação elevadíssimo, o pior acontecimento para um clube de massa é o rebaixamento para a Série B, no Campeonato Brasileiro. O acontecimento não traz consigo só as brincadeiras dos rivais, mas sérios prejuízos financeiros e técnicos. Se não bastasse enfrentar o descenso por uma vez na sua história, o Vasco lidou com a realidade por mais duas vezes. Fato que gerou um impacto forte na imagem da instituição e no ímpeto da cobertura.

“A primeira vez que um time grande cai para Série B cria uma comoção nacional. Mesmo com Vasco caindo mais de uma vez num curto prazo de tempo, a mídia continuou cobrindo com muita atenção, mas sem o holofote da primeira vez, porque não era mais tão novidade”, analisa Sidney Garambone, jornalista do SporTV.

A realidade, que se tornou banal e diminuiu o interesse popular, trouxe fortes impactos na vida financeira do clube. Em 2008, ano da primeira queda, o Vasco pertencia ao grupo de clubes (Flamengo, Corinthians e São Paulo) que ganhava a maior quantia pelos direitos de transmissão dos seus jogos. Mas com o rebaixamento, o cruzmaltino deixou de receber R$ 11 milhões. Arrecadando mais somente do que Portuguesa, Bahia e Guarani.

Em relação a 2016, ano do último rebaixamento, o Vasco perdeu espaço na mídia aberta, durante toda a disputa da Série B. Diferentemente dos outras ocasiões, nessa edição, o Gigante da Colina só teve um jogo transmitido, na principal emissora aberta do país. Fato que contrasta com a média de três jogos ou mais das outras participações.

“Quando caiu pela primeira vez, por ser notícia e ainda ter Roberto Dinamite na presidência, aconteceu uma grande visibilidade. Mas até pelo espaço que a Série B tem, nas outras duas quedas o noticiário não foi o mesmo. E com times limitados, o Vasco deixou de ser protagonista para ser coadjuvante”, analisa Rodrigo Melo, jornalista do SporTV.

Mas a visão de um papel mais coadjuvante no campo ainda não impacta na força que o clube tem em termos jornalístico. Para Sidney Garambone, o tom do noticiário vascaíno é reflexo do momento atual e qualquer outro clube que estivesse passando por esse momento teria tratamento igual.

“Não vejo tom desanimador. Quando Flamengo, Botafogo ou Fluminense decepcionam também ganham uma cobertura mais crítica. Qualquer grande clube do Rio, São Paulo, Minas e Porto Alegre é tratado de forma semelhante. Não acho o Vasco coadjuvante, pois está sempre nos temas das mesas redondas e nos programas esportivos”, afirma.

Além da exposição da mídia, o futebol hoje vive um mercado muito particular. De grandes instituições, aos poucos, os clubes vão agregando o conceito de marca em sua administração. Diante desse novo conceito, atualmente, quanto vale a marca Vasco da Gama? Segundo o estudo realizado pela empresa de consultoria e auditoria BDO, os vascaínos são apenas a décima marca mais valiosa do futebol brasileiro.

“O Vasco está com uma receita muito menor do que os outros clubes. Não só de marca. Além disso, o clube tem uma torcida pulverizada, fato que dificulta atingir e levar o seu produto diretamente em loco. O crescimento do contrato de televisão não acompanhou o dos outros grandes clubes. Mas ainda assim ele está em um mercado muito bem desenvolvido, mas não tão desenvolvido como o de São Paulo. Nos últimos dez anos, o Vasco não acompanhou o crescimento dos seus rivais”, analisa Pedro Daniel, consultor da BDO, quinta maior rede de contabilidade mundial.


VALOR POR CLUBE

Flamengo: R$1,693 bilhões
Corinthians: R$ 1,593 bilhões
Palmeiras: R$ 1,123 bilhões
São Paulo: R$ 994 milhões
Grêmio: R$ 706 milhões
Internacional: R$ 627 milhões
Atlético-MG: R$ 502 milhões
Cruzeiro: R$ 485 milhões
Santos: R$ 402 milhões
Vasco da Gama: R$ 382 milhões

Fonte: Consultoria BDO


Apesar do resultado e do cenário delicado vivido pela instituição nos últimos dez anos, o estudo da empresa aponta que o clube tem um grande potencial de crescimento, se seguir os exemplos de sucesso já existentes.

“O Vasco tem um potencial maior de crescimento. O Palmeiras é um exemplo. Há três anos ele não competia com os três primeiros do ranking, competia com o quinto colocado. Com a nova arena, com o patrocinador, sendo campeão, ele mudou de patamar. O Vasco tem que fazer um trabalho parecido porque ele tem uma torcida grande, mas ainda não consegue converter isso para que aumente o seu consumidor”, analisa Pedro Daniel, consultor da BDO.

Mesmo diante das adversidades, o Vasco tem grandes motivos para se orgulhar e vislumbrar um novo horizonte. Dono da quinta maior torcida do Brasil, o clube atrai interesse em qualquer parte do país. Sempre que manda em seus jogos em outros estados a arquibancada fica lotada. Mesmo diante do terceiro rebaixamento, a média de público do cruzmaltino fora de casa foi o dobro dos torcedores presentes nos jogos no Rio de Janeiro.

Após 13 anos, o Vasco voltou a ser protagonista no basquete nacional. Foto: Acervo do Vasco

Após 13 anos, o Vasco voltou a ser protagonista no basquete nacional. Foto: Vasco

Fora o momento complicado vivido pelo futebol, em outros esportes o Vasco tem obtido sucessos relevantes para as modalidades. No basquete, o clube voltou a disputar a principal competição nacional depois de 13 anos e figura entre os favoritos na temporada 2017/2018.  Outro esporte que traz muitas glórias ao Gigante da Colina é o futebol de areia. Sobre a pouca divulgação desses sucessos, Sidney Garambone aposta que a questão acaba caindo na falta de interesse popular.

“A imprensa esportiva sempre corre atrás do que o público está querendo ler e ver. Se o time do Vasco, na NBB, começar a brilhar e arrebentar, vai atrair a atenção dos jornais. O Futebol de areia é um nicho ainda, por isso a cobertura não é tão efetiva”, observa.

Independentemente dos outros esportes, é o futebol que move o coração dos brasileiros. E assim como em qualquer relacionamento, a temperatura é medida pela intensidade e rara racionalidade. Então, a crise que o Vasco enfrenta, atualmente, é reflexo do seu tamanho e da paixão que atrai. Logo que esse momento de instabilidade passe, os corações cruzmaltinos estarão elevando seu clube ao topo do mundo e dos jornais.

Vasco 2x1 Ponte Preta, em São Januário. Foto: Paulo Fernandes / Vasco.com.br

Vasco 2×1 Ponte Preta, em São Januário. Foto: Paulo Fernandes / Vasco

Eurico Miranda, o contraponto vascaíno

Apesar de muito vitorioso na diretoria vascaína, a personalidade de Eurico Miranda é um contraponto no clube. Há quem ame e quem odeie o dirigente. Com uma personalidade muito forte e conflituosa, o presidente esbanja sua autoridade e força política para impor o Vasco como uma instituição pessoal e não nacional.

Desde que retornou à presidência do clube, em 2014, o folclórico Eurico Miranda se comprometeu a levantar a imagem do Vasco. Mas a realidade foi mais complicada do que se previa. O presidente se viu envolvido em muitas confusões e não se esquiva do embate com a grande imprensa. O mandatário vive criticando a TV Globo pela disparidade nas cotas pagas ao direito de transmissão. Porém, mesmo com toda a insatisfação, a verba vinda da emissora corresponde a 78% da receita do Cruzmaltino.

No eixo Rio-São Paulo, é o clube que tem sua saúde financeira mais dependente da televisão. Mas ainda assim, a relação é conflituosa, treinos quase sempre fechados, restrições a alguns veículos e muitas críticas direcionadas em suas coletivas. Para o jornalista Sidney Garambone, da TV Globo, os empecilhos criados e a postura adotada pelo clube diante da mídia dificultam muito a relação com a grande imprensa.

“Infelizmente, a torcida acaba comprando a briga da diretoria. Não combina com o Vasco esta postura de ser perseguido, de se comparar ao Flamengo. O Vasco é gigante, tem uma cobertura gigante, mas do ponto de vista jornalístico se torna um clube de difícil acesso. Acaba tendo menos espaço na mídia pela falta de liberação de uma entrevista exclusiva ou uma reportagem especial no estádio, sem dúvidas, isso reduz o espaço”, analisa o jornalista.

Para o jornalista Rodrigo Melo, só uma mudança na direção poderia alterar a atual imagem do clube na mídia. “O Vasco é um dos clubes mais importantes do Brasil. A história é inquestionável. Mas neste período de dez anos, o clube conseguiu apenas regredir. Só uma gestão profissional, que trabalhe a história e mostre a grandeza do clube conseguirá mudar o panorama. Brigar e proibir a imprensa é medieval”, afirma Rodrigo Melo, jornalista da SporTV.

As criticas não são à toa. Em abril, o presidente proibiu a cobertura de treinos e atividades do Vasco por parte da ESPN. Tudo por conta de uma crítica feita pelo apresentador Rafael Ribeiro, após o time eliminar o Flamengo, na Taça Rio, do Campeonato Carioca. Insatisfeito com as palavras do comentarista, Eurico vetou a entrada da emissora, em São Januário, por tempo indeterminado.

Mesmo com a postura truculenta do dirigente e os conflitos, existe um lado positivo. A briga por elevar a autoestima da torcida, a folclórica rivalidade com o Flamengo e seu humor sempre sarcástico nas entrevistas. Mas como toda pimenta, as ações do presidente sempre têm seus efeitos colaterais: há quem goste e quem não suporte sua ardência.


Jorge Abel – 8º período

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