A ficção que está na realidade

O que é ser cosplay pode estar muito claro, seja pelo simples fato do seu significado em inglês ser a união de duas palavras – costume (fantasia) e roleplay (brincadeira ou interpretação) – e principalmente por, na maioria das vezes, os homenageados serem personagens de games, animes e mangás, podendo também englobar qualquer outro tipo de caracterização que pertença à cultura pop ocidental. Entretanto, por mais fora da realidade que possa ser, alguém que adepta desta expressão artística pode utilizar a fantasia como parte de um trabalho.

Nicpool.

Nicolle Moura como “Nicpool” [foto: Arquivo Pessoal].

Ou seja, ser cosplayer também pode significar seguir uma profissão. A interatividade, a forma irreverente de interpretar o personagem trajado para alegrar outras pessoas é uma ferramenta importante para que o trabalho de se montar valha a pena. E, além disso, pode-se dizer que os profissionais da área não têm idade. “Para fazer cosplay não há restrição. Levando com respeito e considerando que muitos levam como um trabalho e se esforçam bastante para fazer algo bem feito, quanto mais pessoas entrando nessa vibe, melhor”, diz Nicolle Moura, 22, estudante de administração que pratica esta arte desde os 16 anos.

Nicolle também afirma que não tem uma preferência de seguimento. “Gosto de fazer personagens que eu admiro ou me identifico, tanto de games, animes, filmes, seriados, quadrinhos. Acho que o principal é a conectividade com o personagem”, ela declara. “Muitas pessoas se identificam com certos personagens e querem viver um pouco deles. Sem falar na interação com outros cosplayers e pessoas. É muito bom quando vemos que as pessoas gostam do nosso trabalho”.

Seguindo a mesma linha de pensamento, Soraya Feghali, comissária de bordo e estudante de jornalismo, diz que um dos pontos principais é gostar ou até mesmo se identificar com o personagem que se quer interpretar. “Sem isso uma pessoa não pode ser chamada de cosplayer, se ela não sabe como o personagem fala, gesticula ou até mesmo que expressões ele faz, descaracteriza, e isso é essencial para um bom trabalho, especialmente se fãs querem tirar fotos com você nos evento”.

Soraya tem, hoje, 28 anos, mas conta que enveredou pelos caminhos da personificação bem cedo, indo caracterizada a eventos já na adolescência, aos 14 anos. “Tudo começou na antiga TV Bandeirantes, onde eu tive contato com os primeiros animes e se intensificou quando eu vi uma reportagem especial falando do cosplay no Japão. Aí não teve mais volta, eu tive que fazer e até hoje faço”.

A comissária de bordo ainda destaca a organização dos eventos que fazem concursos para definir a melhor personificação e eventos que só liberam o uso das fantasias. “Por exemplo, em alguns eventos, certos materiais para a criação das armas dos personagens são proibidos por motivo de segurança e então não podem entrar no local, ficam retido na porta e antes mesmo de entrar em algum destes festivais, passamos por uma pequena revista dos seguranças, que inclusive expulsam pessoas que fazem filmagem ou fotos indecentes dos cosplayers ou que ficam tocando em lugares impróprios sem a permissão deste”.

Mas, engana-se quem pensa que esta forma de arte é destinada apenas às crianças e aos jovens. No entanto, esta imagem é desconstruída por Solange Nascimento, manauara de 50 anos que está neste meio a três anos. “Eu frequentava esses eventos com meus filhos, já que minha menina é cosplayer há quatro anos, um dia conversando com uma amiga fui desafiada a fazer porque ela alegava que eu não teria coragem. Não falei mais nada, escolhi um personagem, fui à costureira e no dia do evento cheguei como vovó do Piu Piu. Depois desse dia gostei do que fiz e parti para outros projetos”

Soraya

Soraya Feghali caracterizada [foto: Arquivo Pessoal].

Solange já personificou de diversos caracteres, como a Bruxonilda e até Muriel, a senhora do cartoon “Coragem, o cão Covarde”, e alega que foca nos que são adequados para sua idade. Ela conta que desde a primeira vez achou que teria uma rejeição enorme e que as pessoas agiriam com preconceito, entretanto, só pessoas da sua faixa etária veem sua profissão com mau olhado. “Preconceito existe, sim, mas não pelos jovens. Os mais velhos acham ridículo. Já ouvi tanto desaforo, mas não ligo, aí é que tenho mais vontade de fazer”.

Mas surge o questionamento acerca do que faz o cosplay ser cotado como profissão e se há algum retorno financeiro. Solange explica: ‘’Bem, existe a profissionalização, que são as competições em nível bem alto, o que eleva o nome do intérprete e abre portas em vários eventos. Passagem para competir fora do Brasil, e premiações em dinheiro, até carro já se tornou um dos prêmios. Tem muitos que produzem suas próprias roupas, se tornando um renomado Cosmaker, que são os que produzem as armaduras, as roupas, armas, botas e outros acessórios”.

Porém, para cada peso há duas medidas. Quando perguntada sobre a questão do apoio, Solange salienta que ainda não há suporte ao cosplay como profissão. “Na minha opinião, falta sim! Até mesmo os eventos investirem nos cosplayers, pois é por meio deles que o evento cresce, somos pouco valorizados e os eventos ganham um dinheirão”.

O cosplay como o carnaval

Por sempre soar como apenas uma diversão e pouca informação a respeito, as pessoas podem achar que cosplay é uma fanfarra que pode ser comparada ao carnaval de rua. Recentemente, o público apontou que esta arte foi mal representada na nova novela do horário nobre da Rede Globo, “A Força do Querer”, por esta colocar um personagem como cosplayer 24 horas por dia, desafiando a mãe. Esse tipo de interpretação é taxada como errada, e Nicolle, Soraya e Solange deram suas opiniões quanto a possibilidade do carnaval ser um evento cosplay e gratuito, a céu aberto.

“Carnaval não pode ser considerado um evento de cosplay por conta de seu background cultural. Evento de exposição tem tudo a ver com cultura. Essa arte é originada basicamente da cultura japonesa e adaptada à cultura geek. Já o carnaval tem a ver com bailes de rua, oriundos de cultura europeia, que são duas formas de expor dois trabalhos diferentes”, explica Nicolle. “O carnaval moderno carioca, é uma adaptação desses bailes de rua europeus. E a fantasia é mais levada para uma brincadeira do que por um trabalho sério como um evento”.

A jovem, porém, afirma não ser contra cosplays em bailes de carnaval, mas não faria. “Não vejo problema em usar, mas o problema do carnaval é que a maioria está ali para beber, dançar, e não apreciar todo o trabalho que a pessoa teve em fazer a fantasia. Sem falar que no empurra-empurra do carnaval pode acabar quebrando, rasgando ou perdendo uma peça. Então, eu, particularmente, não usaria um cosplay que levou tempo, dedicação, dinheiro e trabalho para acabar tendo algum acidente. Prefiro fazer nos eventos próprios para isso”.

Já Solange reforça o ponto da interpretação. Segundo ela, há toda uma preparação que não pode ser dispensada e é inexistente no carnaval. “Cosplay tem que interpretar o personagem, tem toda uma preparação, palco, horário de apresentação você tem que estar impecável, juízes olham cada detalhe de sua roupa”.

Soraya completa da maneira mais fidedigna o significado dos eventos e do fazer a personificação de um personagem. “Para começar, para ser considerado um evento de cosplay, há uma coisa que o carnaval de rua não tem: organização. No evento há regras a serem seguidas e no carnaval não tem isso. E tem mais, o público não quer tirar foto de você, querem tirar foto do personagem que você fez. O afeto com o personagem e o principal motivo que faz com que um cosplayer se dedique não só à roupa dele, mas também à apresentação dele na chegada do evento, pois muitos se identificam com o personagem que representam ou pela história que aquele personagem já passou”.


Roani Sento Sé – 7º Período

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