Uma rebelião cercada de polêmicas

Na próxima quinta, dia 10, chega aos cinemas brasileiros o longa americano “O Nascimento de uma Nação”, estreia na direção do ator Nate Parker. O filme trata da história já quase esquecida de Nat Turner, escravo alfabetizado que se tornou pregador protestante e acabou por liderar uma revolta contra a exploração dos indivíduos negros no sul dos Estados Unidos, em 1831.

Das diversas polêmicas que cercam a produção, a primeira a ser notada é o título, que é exatamente o mesmo do “Clássico que os Americanos Querem Esquecer”, dirigido por D.W. Griffith, em 1915, que além de fazer uso da “Black Face” – quando pessoas brancas se pintam para representar pessoas negras –, ainda exalta os ideais e atividades da Ku Klux Klan, lendário grupo que prega a dita “Supremacia Branca”.

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Porém, público e crítica estadunidenses, inicialmente, não deram importância à razão conexão entre as obras. Logo após iniciar carreira no circuito de festivais de cinema – e vencer o prêmio de Melhor Filme no Festival de Sundance, “O Nascimento de uma Nação” logo foi apontado como um dos favoritos para a cerimônia de 2017 do Oscar – em especial, após a campanha #OscarSoWhite, no começo deste ano –, contudo uma nova polêmica veio a público, tornando a produção alvo de boicote.

Conforme veiculado no Brasil pela Folha de São Paulo em 27 de outubro, a revista americana Variety revelou que, em 1999, Parker e Jean Celestin – que é co-roteirista do filme – foram acusados por um crime sexual, quando ainda eram estudantes na Universidade Estadual da Pensilvânia. Todo o frisson em torno do caso, jogou um balde de água fria no que, claramente, é o projeto da vida de Nate Parker, uma vez que toda a ambição e presunção do ator/diretor/roteirista fica evidente durante todo o filme.

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Todos os parâmetros técnicos de “O Nascimento de uma Nação”, desde o roteiro até a cinematografia, almeja colocar o longa entre os grandes clássicos (antigos e recentes) do gênero, como “Amistad”, “Doze Anos de Escravidão” e até mesmo ao suprassumo dos épicos hollywoodianos, “Spartacus”. No entanto a experiência limitada de um diretor debutante torna a produção um pouco “engessada”, fazendo parecer que tudo que é visto na tela foi minuciosamente orquestrado a fim de tornar o longa memorável.

O roteiro não chega a ser per – chega perto –, mas peca ao incorporar as ambições pessoais de Parker, que ao encarnar o protagonista – sim, ele não apenas escreveu e dirigiu, mas também atuou no filme –, realmente acredita ser um “herdeiro” da personagem retratada, uma espécie de Nat Turner dos dias atuais – momento em que os Estados Unidos passam por um dos momentos mais turbulentos de sua histórica tensão racial –; e essa ambição resulta em alguns momentos de afetação.

Por fim, apesar de Parker, implicitamente, expressar a todo instante que ele quer que o longa seja lembrado pelas gerações futuras, “O Nascimento de uma Nação” é uma experiência muito válida pelos aspectos técnicos da produção – que são impecáveis –, pelo valor de entretenimento inegável e pelo fator histórico ofertado pela oportunidade de conhecer a vida é os atos de um herói negro quase esquecido pela História Americana; além da intrigante polêmica que cerca a produção, que fará com que o longa seja, de fato, lembrado – talvez, não pelos motivos que o criador esperava.


Daniel Deroza – 4 período

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