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Empreendendo em tempos de crise

O campus Tijuca recebeu, entre os dias 24 e 26 de outubro, a Semana Salto 2016. O evento realizado pela Salto Consultoria Empresarial em parceria com a UVA, promoveu debates, palestras e oficinas. O foco dessa edição foi voltado ao empreendimento em um cenário de crise financeira, violência e falta de conhecimento. Sobretudo, tem por objetivo a transformação e a oferta de experiências através de relatos de especialistas convidados.

A programação contemplou os temas: definição de sucesso em um negócio; superação de desafios na jornada do empreendedor; a jornada do empreendedor e as oportunidades para o mercado; o empreendedorismo social como forma de mudança da sociedade; o impacto dos negócios na sociedade e o processo contínuo de inovação do mercado nacional. Para a discussão sobre empreendedorismo social como forma de mudança, foram recebidos para compor o debate a coordenadora do curso de serviço social da UVA, professora Vânia Dutra e Gabriel Mayer, professor de educação física e representante da associação sem fins lucrativos Urece Esporte e Cultura para Cegos.

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Professora Vânia Dutra durante debate. [foto: Laís de Martin].

Durante a abertura, foi enfatizado que os primeiros eventos da Semana Salto 2016 foram pautados no tema incentivo, como elemento catalisador de transformações. Para esclarecer o conteúdo da palestra ao público, a professora Vânia apresentou o conceito de inclusão produtiva, que implica na mobilização de capacidades sociais e produtivas das comunidades. O termo cunhado durante os governos dos ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, representa um programa cujo propósito é erradicar a miséria no Brasil, através de esforços de governantes, em âmbito municipal, estadual ou federal. Atualmente, à frente de todos os esforços para amenizar o problema está o Plano Brasil Sem Miséria, do Governo Federal.

Sobre as dificuldades que as pessoas à margem enfrentam diante do mercado, Vânia esclareceu aos presentes. “Para a inserção no mercado de trabalho formal, a grande barreira sempre foi a escolaridade. Para resolver isto, uma das alternativas foi empreender”. A professora revelou ainda que a cidade do Rio de Janeiro tem os setores de serviços e de turismo em constante crescimento, mas que essa percepção é diferente nas periferias e comunidades. “Nas comunidades, diferente dos grandes centros, a forma mais comum de atividade econômica envolve a produção de alimentos e a venda de roupas”.

Outro aspecto retratado durante a discussão foi a contratação dos MEIs, microempreendedores individuais pelas prefeituras. De acordo com a professora, “as pequenas prefeituras adotam a contratação dos MEIs como forma de incentivar a produtividade, porém no Rio a adesão é baixa. Não há interesse. A maioria dos microempreendedores desconhece que podem participar de licitações. É importante levar essa informação às pessoas. Os detalhes podem ser conseguidos no site da prefeitura”.

Abordando a mobilização de capacidades sociais, só que desta vez em outro contexto, Gabriel Mayer, representante da associação sem fins lucrativos Urece Esporte e Cultura Para Cegos, forneceu o panorama da população com deficiência visual no Brasil. “É um grupo de aproximadamente seis milhões e meio de pessoas, o que equivale a 3,5% da população brasileira. Para se ter uma ideia, é praticamente o dobro da população do Uruguai. Isso é muito impactante. Esses indivíduos seguem invisíveis para a sociedade. Estamos em meio a um longo processo de inclusão”.

De acordo com dados fornecidos pela ONU, crianças com deficiência têm 1,7 vezes mais chances de sofrerem algum tipo de violência. Ainda sobre esse espectro, foi identificado que 20% das pessoas mais pobres do mundo possuem algum tipo de deficiência. Isso é provocado por integrarem um grupo de muita vulnerabilidade socioeconômica, o que impacta no acesso a médicos, remédios, tratamentos, e até mesmo no desconhecimento sobre como abordar as deficiências.

Sobre a mudança de foco da Urece, Gabriel apontou alguns aspectos. “Em 2005, quando foi fundada, o nosso propósito estava em trabalhar com atletas de elite, mas com o desenvolvimento do nosso trabalho, modificamos isso. Em 2009, passamos a utilizar as atividades físicas como ferramenta para a mudança social. Antes conseguíamos atender um grupo de 15 a 20 pessoas, hoje atendemos 60”. O modelo de negócios da associação atualmente é voltado para a produção em braile de cardápios, guias e informações em geral.

Desenvolveram, também, a narração áudio-descritiva, que consiste em uma modalidade de locução esportiva criada para melhorar a experiência dos torcedores com deficiência visual. Todos os aspectos visuais do estádio e da partida são traduzidos em palavras: cores, uniformes, expressões faciais e corporais. A Urece foi a organização responsável pela implementação desse serviço durante a Copa do Mundo de Futebol de 2014 no Brasil. A narração foi oferecida em quatro cidades: Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Brasília, totalizando 26 partidas.

Oportunidades de inovação

No encerramento da Semana Salto, quatro profissionais foram chamados para falar um pouco sobre as experiências pessoais de cada um, como foco no processo evolutivo da inovação, a fim de manter o empreendimento sempre atual para que desperte o interesse do público consumidor.

Os convidados foram: os jovens Arturo Edo – CEO da Touts, uma plataforma de venda de camisas, almofadas e outros tipos de acessórios através da conexão entre os consumidores e artistas do mundo todo – e Hector Muniz – fundador da agência de comunicação Gorilla Brand –, Sérgio Sá Leitão – CEO da Escarlate Conteúdo/Experiências e diretor do Cine Odeon –, e Sabrina Ferreira – Gerente de Experiência da Ilumno. Todo o debate foi mediado por Marcio Ferreira.

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Professor Márcio Ferreira fechando palestra. [foto: Daniel Deroza].

Quem iniciou os discursos foi Arturo, que destacou a importância dos trabalhos extracurriculares e dos contatos que se estabelece dentro de uma universidade. “Eu participava da organização de eventos da faculdade e tal, e um dos caras que sempre me ajudava é meu sócio até hoje, então, a faculdade é um ótimo lugar para você encontrar gente que realmente quer trabalhar”, destaca Arturo, que também frisa que a formação profissional não deve limitar o indivíduo. “Eu fiz Engenharia, mas, hoje, eu trabalho com design, que tem muito mais a ver comigo”.

O jovem empresário também ressaltou a importância de tomar uma iniciativa. “Tem muita gente que quer começar já se inspirando em alguma empresa famosa e acaba perdendo muito tempo planejando ao invés de fazer”. Aproveitando a deixa acerca de correr o risco de dar o primeiro passo, Sérgio Sá trouxe à baila um tópico que sempre gera um conflito de gerações. “É um absurdo nós vivermos em um país onde o sonho de um jovem é fazer um concurso público, só para ter um bom salário e acabar fazendo a mesma coisa para o resto da vida”.

Sérgio prosseguiu sempre destacando a importância de arriscar e tentar criar algo novo. “Hoje em dia, o cinema é uma atividade que movimenta cerca e trinta bilhões de dólares por ano, e engloba várias áreas. O negócio de apps, que surgiu em 2007, hoje movimenta os mesmos trinta bilhões de dólares por ano. Ou seja, uma atividade que foi criada há nove anos movimenta a mesma quantia que o cinema, que foi criado há mais de cem anos”, conta diretor do Cine Odeon, um dos mais tradicionais cinemas o Rio de Janeiro, e atual sede do AnimaMundi, um dos principais eventos de projetos de animação do mundo, que acontece até o próximo domingo, dia 30.

Já o jovem Hector, de 25 anos, ressaltou o preconceito que muitas pessoas têm com a palavra “empreendedorismo” devido ao estigma criado pelas gerações passadas. “Eu cresci vendo o meu pai empreendendo e sem saber o que ia ter de comida no dia seguinte, então o meu sonho era fazer um concurso público e ficar mais rico que o Eike Batista”. O empresário também contou que sua experiência no mercado de trabalho. Quando Hector estava prestes a ser efetivado em uma empresa de consultoria e passar a ganhar o quádruplo do que ganhava, ele resolveu pedir demissão. “Eu percebi que não queria fazer aquilo, eu estava trabalhando exclusivamente com o Excel e eu odeio o Excel”.

Hector também contou que após a sua saída da empresa, na véspera de um carnaval, ele conseguiu quebrar quatro “empresas” – “na verdade, eram ideias que eu estava tentando colocar em prática”, esclarece. Depois disso, Hector ligou para um amigo que estava tão sem dinheiro quanto ele próprio e falou que eles tinham que arrumar um jeito de ganhar dinheiro. E através de dinheiro emprestado na mãe de Hector para produzir cartões de visita e muito boca-a-boca, surgiu a Gorilla Brand, a empresa de comunicação da qual Hector é CEO.

O último discurso foi o de Sabrina, que falou um pouco de sua trajetória até se tornar Gerente de Experiências da Ilumno, que mantenedora da Universidade Veiga de Almeida. “Eu sempre fui uma ‘desgarrada’, então com 15 anos eu resolvi fazer um intercâmbio na Europa e acabei passando um ano e cinco meses da Dinamarca, onde eu morei com seis famílias diferentes”, ela conta, explicando que este tipo de experiência abre muito a mente de um jovem. “Quando eu voltei, me formei em Administração e me especializei em Comércio Internacional. Com o tempo, eu percebi que, apesar de trabalhar para alguém, eu tinha muitas ideias e tinha a habilidade de coloca-las em prática, e foi assim que eu entrei na Ilumno”.

Como Gerente de Experiências, Sabrina tem que encontrar formas de fazer com que os alunos se interessem pelas atividades disponibilizadas pela UVA tanto dentro quanto fora da universidade. “Eu tenho que descobrir o que o aluno vê, o que o aluno pensa, acredita, quais são suas dores, seus sonhos, seus troféus”, ela detalha. “A gente percebeu que a UVA, na cabeça dos alunos, era sempre uma segunda opção, porque não passou na federal ou não pode bancar a PUC… Ledo engano. A UVA tem todo o potencial para ser a primeira opção, mas é aquela velha história: a grama do vizinho é sempre mais verde. Então o meu trabalho é criar esse matching entre o meu empregador e o público-alvo dele, que são os alunos. Até por isso, eu peço que a partir de hoje, vocês me passem um feedback sobre a experiência de vocês na universidade, podem falar comigo por e-mail ou me parar no corredor, mas falem”, conclui Sabrina.

Após as falas dos quatro palestrantes convidados, o mediador Marcio Ferreira, destacou a importância de eventos como a Semana Salto, que são eventos que incentivam os alunos da universidade a não esperarem ter o diploma para começar a pôr os seus conhecimentos e planos em prática, mostrando que é possível obter sucesso empreendendo. E Marcio encerrou a noite com uma fala que resume bem o objetivo daquele debate: “Espero que vocês passem a ver a universidade como um rito de passagem e uma oportunidade de empreender”.


Daniel Deroza– 4º Período
Laís De Martin – 8° Período

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