Thriller nacional peca ao ignorar clichês do gênero

211017.jpg-r_1920_1080-f_jpg-q_x-xxyxxDirigido por Julio Santi, o suspense sobrenatural “O Caseiro”, chega aos cinemas na próxima quinta-feira (23) e é o novo candidato a alavancar o cinema de gênero em solo brasileiro. Com um elenco composto por nomes já conhecidos do público – como Bruno Garcia, Leopoldo Pacheco e Denise Weinberg – o longa bebe da fonte de clássicos como “O Iluminado”, “O Sexto Sentido” e “O Amigo Oculto”, porém erra ao não saber trabalhar os clichês deste estilo de filme.

Na tela, Bruno interpreta Davi, um professor universitário que dá aulas de “Psicologia do Sobrenatural” e ganhou notoriedade ao escrever um livro no qual explica de maneira científica acontecimentos ditos paranormais. Por conta disso, a jovem Renata (Malu Rodrigues), uma de suas alunas, o vê como uma esperança de ajudar sua irmã mais nova, Júlia, que, nos últimos tempos, tem apresentado hematomas inexplicáveis, além de comportamentos estranhos.

Davi encara a situação como uma chance de escrever um novo livro sobre o tema e, logo, aceita investigar o caso, seguindo para a casa no interior, à beira de um lago, onde a garota vive com o pai, Rubens – personagem de Leopoldo –, e a tia, Nora – interpretada por Denise –, além de sua irmã, Gabi e a reclusa menina Lili. Ao chegar ao local, os familiares da garota afirmam que Júlia está sendo atormentada pelo espírito do caseiro, o qual se suicidou há décadas na propriedade.

Davi logo percebe que influência que o suposto fantasma tem sobre os habitantes da casa, que não permitem que os membros mais novos entrem na habitação do antigo empregado e trancam obsessivamente as portas sempre que o sol começa a se pôr. No entanto, com o passar do tempo, o professor passa a suspeitar que Rubens e Nora escondem algo.

O ponto alto do longa é a produção. A cinematografia possui um tom acinzentado gélido que casa perfeitamente com o clima de mistério da trama e não apela para cenas muito escuras, como muitos filmes do gênero fazem. A ambientação também funciona muito bem – uma casa afastada da cidade, cercada por um bosque. Além da trilha incidental dissonante que pontua os momentos de tensão.

O principal problema de “O Caseiro” é o roteiro, o qual não foi estruturado de forma a surpreender o espectador da maneira planejada. Os dois primeiros atos – cerca de cinquenta minutos – são focados na investigação de Davi a respeito dos acontecimentos que cercam Júlia. No entanto, os roteiristas Julio e Felipe Santi optam por guardar todas as revelações para o ato final, passando uma sensação de “inchaço” da trama nas duas primeiras partes.

A principal evidência desta falha está no segundo arco, no qual o roteiro passar a lançar suspeitas em todas as direções, fazendo o espectador ter a impressão de que a história está andando em círculos. A falta de estruturação do enredo fica mais evidente com a aproximação do clímax, quando surge um novo plot twist a cada cinco minutos, sem dar ao espectador o tempo necessário para absorver as informações apresentadas. E, ao final do filme, o roteiro deixa algumas pontas soltas, ao estilo “Tire Suas Próprias Conclusões” – sem deixar claro se estas aberturas foram intencionais ou não.

Além disso, o longa apresenta um excesso de personagens secundários que não agregam nada à trama – há, pelo menos, duas figuras que são apresentadas como importantes, entretanto, não possuem função alguma dentro da proposta. E, por outro lado, o enredo subaproveita atores talentosos. Sem dúvida, o caso mais notório é o da personagem Nora, interpretada pela premiada atriz Denise Weinberg, que, apesar do esforço para extrair algo a mais material limitado que lhe foi dado, está presente por tão pouco tempo na tela que o espectador tem a clara noção de talento desperdiçado.

No quesito atuação, o protagonista Bruno Garcia tem uma performance instável. Há sequências em que o ator acerta o tom de inquietude exigido com perfeição, mas há outros instantes em que sua interpretação oscila entre afetação e apatia – oscilação esta que vem sendo apontada ao longo de sua carreira. Ademais, o resto do elenco não tem nenhuma deixa que permita um monólogo marcante ou algo do tipo, tornando seus desempenhos apenas funcionais.

No entanto, a maior problemática do roteiro foi ter a pretensão de tentar evitar ao máximo os clichês de suspense, como os controversos jump scares – técnica que foi trabalhada com louvor por Stanley Kubrick em “O Iluminado” (1980), o qual, ao contrário de “O Caseiro”, possuía um enredo denso o suficiente para dispensar tal artifício. A propósito, mais do que se levar a sério demais, o longa se prende às características erradas do gênero thriller – um exemplo é a desnecessariamente espessa névoa criada por computação gráfica que cobre o lago durante o zênite da trama.

Por fim, “O Caseiro” é um projeto ambicioso que intenta tornar o cinema de gênero no Brasil um nicho mais amplo e lucrativo, porém o longa – ao não trabalhar com os clichês, buscando inovar dentro um estilo quase inexistente em solo tupiniquim – se enxerga muito maior do que, de fato, é, fazendo com que, ao final de 1h23min de duração do filme, o público deixe a sala de cinema com a sensação de que a obra de Santi era um média metragem feito para a TV que foi “esticado” além do limite a fim de alcançar o circuito comercial cinematográfico. Mas não deixa de ser uma experiência válida para abrir novos caminhos para o cinema brasileiro, dominado por comédias de qualidade duvidosa.


Daniel Deroza – 7º período

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