O Rio de todos nós

Pela primeira vez, o M.A.R. apresenta a coleção de arte sacra e itens de acervos particulares. Totalizando 700 peças, “Rio Setecentista, quando o Rio virou capital” conta com vasta documentação, objetos da época, pinturas, ilustrações e obras contemporâneas. Em homenagem aos 450 anos da cidade, a exposição, que vai até o dia 08 de maio, aborda assuntos como religião, escravidão, embelezamento da cidade e costumes da época.

Foto da capa

A mostra proporciona ao visitante um passeio pelas transformações ocorridas no século XVIII no Rio de Janeiro, desde a sua fundação até a chegada da família real portuguesa, em 1808. Uma das primeiras obras expostas é o Mapa de Lopo Homem II, de Adriana Varejão.

Mapa de Lopo Homem II, por Adriana VarejãoTrata-se de uma crítica à exploração das colônias, com base na visão dos portugueses do século XVI. O quadro apresenta rasgos na parte da África para representar o local mais sofrido no processo de colonização. Além disso, a artista tenta costurar parte da ferida deixada pelas marcas desse processo, porém mostra que não é possível recuperá-la.

Trazidos da Costa da Mina, Guiné, Luanda e até zulus do Cabo, por meio dos navios negreiros, a população de origem africana foi aquela que mais contribuiu para o perfil da cultura carioca do século XVIII. Ao desembarcar no Rio de Janeiro, eles eram conduzidos para o mercado de escravos situado na Rua do Valongo, que hoje corresponde à Rua Camerino. Na exposição há representações de como eram redigidos os cartazes que anunciavam a venda de escravos: “À rua do Carmo N°47, vende-se um escravo de cor preta, com 47 annos de edade, prendaso e sem defeitos [sic]”.

Objetos referentes aos escravosInstrumentos para tortura de escravos presentes na mostra, como algemas, cintos de ferro, “calcetas” e “vira – mundos” nos remetem à realidade da época. Além disso, Rosana Paulino faz uma Xerox transferida sobre tecido e costura com imagem de mulheres negras com partes do corpo costuradas, como os olhos, boca e testa, referindo-se à falta de liberdade do pensamento e de expressão. “Busco trazer uma reflexão aos visitantes. É importante conhecer a história da escravidão e repressão para compreender os resquícios desse período nos dias de hoje. Será que a sociedade evoluiu em relação ao racismo, à liberdade e ao respeito ao próximo?”, relata Leonardo Ricardo Silva, jornalista e educador no M.A.R.

Em meio à catástrofe, a união dos escravos se dava muitas vezes por meio da religião. Apesar do preconceito ainda enraizado, a umbanda e o candomblé influenciaram bastante a vida dos cariocas. É dedicado um espaço na exposição para tratar do culto ao São Jorge, tão venerado na cidade. Folhas da planta “Espada de Ogum”, espadas de prata, incenso e frasco para banho de descarrego representam o universo das crenças.

Junto aos objetos as fotografias da procissão do santo mostram como é a relação dos cariocas à entidade. O “Cavalo de São Jorge”, por Raimundo Rodrigues chama a atenção dos visitantes por conta do tamanho. Doado pela escola Beija Flor de Nilópolis, a obra é feita de papelão reciclado, ferro e tecidos.

Estátuas barrocasNa sociedade setecentista as igrejas funcionavam como centros de convívio e articulação da vida social. As imagens católicas chegaram ao Rio com os colonizadores portugueses. Dentre as estátuas católicas da mostra a que mais se repete é a de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, que é padroeira de Portugal. O valor atribuído à santa é evidenciado pelo fato de só ela poder ser coroada. Reis e rainhas de Portugal não poderiam ser representadas com o símbolo da coroa, pois Nossa Senhora era considerada a rainha.

Os visitantes também podem assistir ao vídeo projetado sobre o estilo barroco e rococó, presentes em diversas igrejas do Rio de Janeiro. O primeiro pode ser identificado no interior do mosteiro de São Bento, por ter o revestimento em mármore e bronze dourando.

Já o rococó, presente na igreja de Santa Rita, se caracteriza pela simplicidade e espaços claros. “Adorei a escultura ‘Anjo toucheiro’ de madeira policromada dourada. Me interesso por peças sacras e pela arte barroca. Sou de Minas Gerais e por isso já acompanhava o estilo”, afirma Daniel Araujo, mestrando em sociologia.

O Rio setecentista também passou por diversas transformações urbanas a partir do chamado “embelezamento da cidade”. O passeio público foi construído com função social de cerimônia e lazer e foram construídos os arcos da lapa. O aqueduto era responsável por canalizar a água do Rio Carioca até o Largo da Carioca, onde foi construído o primeiro chafariz público. “Vim com a minha filha e ela ficou interessada em uma planta dos arcos da lapa na época em que funcionava como aqueduto, porque está estudando o ‘caminho das águas’ na escola”, diz Maisa Miranda, gerente de vendas.

“É ótimo poder interpretar a arte, desfrutar do dinamismo das peças, compreender a realidade da época e perceber como o período setecentista nos influencia até hoje”, afirmam Carolina Botelho e Fernanda Silveira, ambas professoras de língua portuguesa.

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Luiza Esteves- 4º Período

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