O que não falta mundo a fora são artistas emplacando hits atrás de hits nas paradas de sucesso. Mas nem tudo são flores no mundo da música e existe um grupo menos favorecido que luta e paga muito para emplacar seus sucessos e conquistar seu público. São as chamadas bandas undergrounds ou independentes, que não têm um produtor ou gravadora para guiá-los e colocá-los na mira dos holofotes. Mas apesar da aparente dificuldade, não ter alguém no comando ditando as regras também tem suas vantagens.
Guto Braga, guitarrista da banda Paradoxo Delta, afirma que ser independente dá liberdade ao grupo não só para criar suas próprias músicas, mas também tomar as próprias decisões. “Com isso você tem total controle sobre tudo que a banda faz como marcar shows, ensaios, lançamento de trabalho novo e etc”, diz ele. Entretanto, ainda falta muita coisa para que os artistas sem um patrocínio possam sobreviver.

Mesmo com a ajuda da internet, as bandas independentes ainda precisam de outras mídias como a TV e o rádio para ganhar um público muito grande. “Todo esse processo envolve gente com muito contato, o que uma gravadora pode te dar”, opina o músico. E esse é o maior problema também na visão de Renan Alexandre, o vocalista da banda TPK.
Ele afirma não ter uma gravadora implica na falta de capital para investir em equipamentos e mídias para divulgação, além da própria gravação de um CD, já que o custo é muito alto. Luciano Araújo, companheiro de banda de Renan, concorda. “Acaba sendo paradoxal, porque você consegue ter liberdade para conciliar o emprego e os estudos com a banda, mas por outro lado está sempre em busca de oportunidades para tocar, de uma boa produção para o disco e de um público caloroso. Por incrível que pareça, é assim que o mundo independente se vê”, reflete o guitarrista.
No entanto, para tudo há solução. Se não podem contar com uma gravadora ou produtor para investir na carreira, as bandas independentes contam com a sua liberdade e umas com as outras. O vocalista de uma não só se torna roadie (assistente de palco) de outra, mas também produtor. Pela dificuldade em se promoverem, as bandas independentes tendem a formar grupos para produzir eventos em parceria umas com as outras e evitar que tenham que entrar na chamada política de cotas, em que os grupos pagam uma determinada taxa para se apresentar em troca de ingressos para vender.
Por este motivo, a Paradoxo Delta adotou a política do “Faça você mesmo”, como descreve Guto. “Não que eu ache que produtor tem que pagar uma grana preta para todas as bandas, mas acho muita cara de pau chamar a banda para tocar no evento e ainda cobrar por isso”, afirma o músico deixando bem claro sua aversão a produtores independentes. “Quando mais novo, caí em muito papo de produtor independente, agora sou completamente levado pela minha filosofia. Fizemos shows muito legais não só para a gente, mas para todas as bandas que tocavam conosco. Acabou que a Paradoxo Delta chegou a trazer a banda americana Rufio junto com outras bandas que faziam o Grupo Planta”, conta ele.
Já Marcel Fernandes, produtor de eventos independentes, justifica e defende o outro lado da moeda. “As bandas iniciantes não tem apelo algum em seu nome para que um produtor ou uma casa possa realizar seu show. Além disso, a cena rock anda fraca, não por falta de bandas, mas por falta de incentivo da mídia. Com isso, eventos com bandas iniciantes não tem garantias para um produtor a não ser dos parentes e amigos dos artistas. Sem contar a falta de experiência das bandas para a divulgação do evento que é vital”, afirma.
Marcel se coloca ainda a favor da cobrança de taxa para bandas iniciantes tocarem em eventos, entretanto, para ele, a produção tem o dever de garantir aos grupos um evento de qualidade e uma boa organização, estrutura e preços justos. “No caso de produtores que simplesmente reúnem bandas, alugam uma casa e os grupos que se virem, sou totalmente contra. É preciso um conhecimento da cena, de programação, logística, marketing e outros fatores”, diz ele. Mas o que o próprio produtor vê é bem diferente.
“O que vemos é muito produtor ou banda que junta outras para realizar seu show e deixam a organização em segundo plano. O produtor que é produtor mesmo vive numa corda bamba, porque ao contrário da maioria das bandas, ele vive daquilo. Não tem outro trabalho. Então quem faz, faz por amor. Se não, nem para o almoço tem”, completa Marcel.
Ora banda, ora público. No underground, é comum a inversão de papéis dos artistas independentes
Apesar dos prós e contras constantemente colocados na balança na hora de assumir o risco de ser um artista independente, há um mal que parece não ter solução: o público. Sem uma forte divulgação, as bandas undergrounds têm seu público forte nos amigos, familiares e principalmente integrantes de bandas amigas.
“Quando se é independente você tem sempre aquele público fixo, que são seus amigos e a relação é das melhores porque eles te incentivam, ajudam e animam. Mas quando um desconhecido se identifica com a música ou com o som da banda isso é muito bom. É sempre bom ter gente nova conhecendo o trabalho”, diz Renan Alexandre.
Luciano destaca que o grande momento de uma banda independente no palco é quando ela é reconhecida arrancando aplausos e gritos dos espectadores por ter conseguido surpreender o público e causar o calor estonteante de uma banda famosa. “O feedback da plateia é o diferencial”.
“Banda independente com público fiel alto é de muito respeito na cena. Quando eu era mais novo lembro que todo fim de semana tinha um sarau ou um show numa casa pequena e sempre era muito cheio, era um point. Mas hoje em dia, se tiver cem pessoas em um show é felicidade. A cena precisa ser renovada e para isso precisa da galera de 13 ou 14 anos que é um público que está conhecendo coisas novas e consome muito quando gosta”, acrescenta Guto Braga.
E a falta de público destacada pelos músicos reflete diretamente no trabalho do produtor que, apesar de incentivar o crescimento da cena independente, enxerga a dificuldades na pouca mobilização dos fãs, principalmente de rock, para consumir algo novo. Essa resistência do público a não experimentar o que acaba de chegar no mercado é justamente o que leva as bandas independentes a abrir mão da liberdade para assinar um contrato comercial e conseguir viver da música.
Thaiane Silveira – Jornalismo Digital – 6º período.
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