Beco dos Garranchos

Academia Brasileira de Literatura de Cordel

cordel

 

 

A jornalista Raquel Grillo conversou com o presidente da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, Gonçalo Ferreira da Silva, e revela as lições de literatura, lirismo e poesia que aprendeu. Na entrevista concedida na Academia Brasileira de Literatura de Cordel, localizada no bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, o poeta falou sobre a sua relação pessoal com a Literatura de Cordel, a evolução histórica da literatura, a fundação da Academia e o projeto Cem Cordéis Históricos patrocinado pelo Petrobras. E ainda dedicou uma mensagem especial para quem almeja trilhar a carreira literária.

 

 

 

Como surgiu a Literatura de Cordel na sua vida?

 

A Literatura de Cordel não surgiu, ela já estava na veia. E a questão de florescer foi o tempo. Como eu trabalhava em casa de família, não tinha como escrever nem produzir, até porque se produzisse ficava perdido. Produzia num papel de pão, colocava no bolso, ia para o tanque e, se molhava, jogava fora. Então compreendi que aquele não era o tempo de começar. Mas já me sabia poeta, sabia das minhas condições de poeta, era apenas uma questão de tempo para a Literatura de Cordel florescer.

 

Como começou a sua história com o cordel?

 

Em 1978, fiz uma visita à feira de São Cristóvão e vi meus irmãos trabalhando em situação subumana, debaixo de um sol escaldante e perto de caixas de som estrategicamente colocadas para suprimir o som das violas, para suprimir a propaganda dos folhetos de cordel. Então imaginei uma instituição, que no futuro seria a Academia, e me imaginei também produzindo a Literatura de Cordel que, nessa época como funcionário da Rádio MEC, eu reunia condições de pensar tanto em mim como poeta como na fundação de uma instituição.

 

Assim os acontecimentos foram paralelos, tanto começar a escrever quanto o processo de gestação da Academia — foram ao mesmo tempo. Quando eu imaginei uma coisa, imaginei outra. O motivo real foi uma visita que eu fiz à Fundação Casa de Rui Barbosa quando lá encontrei um grande amigo, o pesquisador Sebastião Nunes Batista, que depois tornou-se muito importante produzindo uma antologia que ainda hoje é referencial para todo aquele que quiser estudar, quiser conhecer a Literatura de Cordel e seus princípios, principalmente no Brasil.

 

Então nós marcamos um encontro lá na feira de São Cristóvão, quando nos reunimos e começamos a glosar[1] os grandes glosadores daquela época como Gonçalo, Apolônio, Eronides, Zé Dutra Neto, Lealbine, Passarinho e Valdomiro Felix Galvão. Eram os grandes glosadores da Literatura de Cordel naquele tempo. Nós começamos a glosar às 4 horas da tarde e só paramos à noite, porque o garçom olhou para o relógio querendo expulsar a gente e então compreendemos que ele estava querendo fechar o restaurante. Saí de lá com a ideia e, então, produzi o meu primeiro texto, um romance chamado Punhos rijos. Logo depois percebi que esse título não tinha apelo comercial e mudei. Hoje esse romance chama-se A Vitória do Amor de Valério e Violeta.

 

Como ocorreu a evolução da Literatura de Cordel?

 

A evolução do cordel se deu de maneira gradual, dentro do tempo. Quando os poetas começaram a produção, que na verdade era só a comunicação oral até a chegada da imprensa ao Brasil, em 1908, a Literatura de Cordel era só da comunicação oral. Somente autores da elite poderiam ter seus livros editados, e os livros eram editados fora do Brasil, a imprensa estava em toda a América espanhola e na Europa. E na comunicação oral ela começou em quartetos como estes:

 

Vai se vê não é ninguém.

 

Daí evoluiu para a sextilha:

 

Meu avô tinha um ditado

Meu pai dizia também

Não tenho medo do homem

Nem do ronco que ele tem

O besouro também ronca

Vai se vê não é ninguém.

 

A Literatura de Cordel não conhece fronteira na questão da estrutura das estrofes. Se você é uma cordelista significa dizer que você é um poeta completo, sua produção aborda todas as modalidades usadas tanto na Literatura de Cordel como na chamada literatura padrão.

 

Há quanto tempo foi fundada a Academia Brasileira de Literatura de Cordel?

 

Fundada no dia 7 de setembro de 1978, a Academia Brasileira de Literatura de Cordel tinha sede itinerante e há quinze anos ocupamos este prédio, doado pelo general Alberto Pelegrino.

 

A Academia funciona nos padrões das academias oficiais no mundo. Quarenta cadeiras, quarenta patronos e assim as atividades também respeitam essa disciplina. Há uma sessão plenária por mês onde são atualizados os assuntos culturais nacionais e internacionais, exibidos os textos que os poetas produziram e o colegiado ainda não conhece e assim por diante. E as novidades oriundas do Nordeste, onde estão situados os principais membros da Academia.

 

Cem cordéis históricos, o projeto

 

Os Cem Cordéis Históricos foi um projeto aprovado pela Petrobras e idealizado pela equipe de projetos da Casa. Havia vários projetos, mas a questão mais importante foi o resgate histórico dos textos antigos, escritos por autores que não tinham o trato gramatical que nós temos hoje. Então decidimos atualizar. E eles lá agradecem muito mais se corrigimos um erro, com toda certeza, e a gente acredita pois somos espiritualistas. Aliás, essa qualidade de estudante da doutrina foi muito útil, pois quando escolhemos apenas poetas falecidos foi porque justamente no céu não tem gráfica…

 

Mensagem para os futuros poetas…

 

A mensagem que eu deixo é a seguinte: quando se descobrirem cordelistas, encaminhem seus estudos para a área Humana. Hoje em dia ser cordelista é tão importante para a cultura nacional e mundial, talvez até para a latinidade, que, quando você se descobre cordelista, deve encaminhar os estudos que lhe servirão de base para ser um grande cordelista. Quando sentir que tem vocação, direcione essa vocação latente e embrionária para que ela floresça com toda a força.

 

 

 


[1] Composição poética que desenvolve um mote, em geral em tantas estrofes quantos são os versos deste e acabando cada estrofe com um deles. In: Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa, Editora Objetiva, janeiro de 2007.

Agência UVA é a agência experimental integrada de notícias do Curso de Jornalismo da Universidade Veiga de Almeida. Sua redação funciona na Rua Ibituruna 108, bloco B, sala 401, no campus Tijuca da UVA. Sua missão é contribuir para a formação de jornalistas com postura crítica, senso ético e consciente de sua responsabilidade social na defesa da liberdade de expressão.

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