Sociedade

Professor: profissão perigo

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Segunda-feira, dia primeiro de setembro. Dez horas da manhã. O comércio da Avenida Nossa Senhora, principal acesso ao conjunto de favelas da Penha, começa a fechar as portas. As escolas da região liberam seus alunos antes do fim da aula.

Essa é a rotina de centenas de professores que lecionam em escolas próximas a áreas carentes do município do Rio de Janeiro. E entre esses profissionais encontra-se a professora Sílvia Maria Stein da Silva, 30 anos, que leciona na classe de alfabetização do Jardim de Infância Arca de Noé, próximo à Vila Cruzeiro.

Silvia diz que essa situação de terror generalizada em que o carioca vive é reflexo do descaso das autoridades que deveriam ser competentes e da avalanche de mudanças que a sociedade vem enfrentando.

“Está acontecendo neste momento, em todo o mundo, uma mudança comportamental muito grande. As pessoas só valem aquilo que podem comprar. Esse pensamento capitalista afeta diretamente um país subdesenvolvido, que não tem a educação como base”, diz a professora que vê na educação a única solução para que ocorra qualquer progresso na nossa nação.

A linha de pensamento de Sílvia Maria é a mesmo de outros tantos professores que, além de todas as dificuldades para exercer a profissão como a falta de estrutura das escolas, a falta de incentivo à educação, entre tantos outros fatores, ainda tem que alterar a rotina pedagógica por conta da violência da cidade. Além disso, em alguns casos, as professoras ainda disputam seus alunos com o tráfico de drogas que, algumas vezes, aliciam os menores nos portões das instituições de ensino.

Quando os alunos, principalmente os adolescentes, começam a faltar aulas com freqüência e apresentar um comportamento diferente tornando-se relapsos, os professores precisam agir como psicólogos e, em alguns casos, até mesmo fazer o papel dos pais que, em alguns casos, são omissos e não participam diretamente da vida dos filhos.

Um outro caso é Maria do Nascimento*, uma professora de 42 anos de idade. Durante vinte e quatro anos de sua vida dedicou-se à arte de educar. Atualmente, trabalha num colégio público em Cascadura como professora de uma turma da quarta série (quinto ano do ciclo).

Duas vezes por semana, Maria atua como voluntária num projeto social de reforço escolar para crianças carentes de Olaria, também no subúrbio do Rio de Janeiro.

Apesar do esforço que faz para tentar manter os alunos do projeto assíduos e interessados, ela sabe que eles têm outros atrativos, às vezes até mais interessantes do que uma escola fria, com carteiras quebradas e alguns professores completamente desmotivados.

Segundo a professora, muitos alunos dizem que não precisam estudar muito, pois querem ser cantores ou jogadores de futebol.

“Essa realidade é muito triste, mas são esses valores que a televisão passa para as nossas crianças. Só que vivemos num país campeão em má distribuição de renda, e nem todos conseguirão ganhar o prêmio de um reality show, se tornando celebridade.”

A professora Maria ainda diz que muitos desses jovens terminam se decepcionando com a realidade nua e crua da sociedade e acabam se enveredando para o caminho do tráfico. Isso tudo porque, na opinião da docente, na comunidade esses jovens conseguem o respeito e a credibilidade que não conseguiriam em outro lugar.

Apesar de tudo, Maria e Sílvia pertencem ao grupo de professores que não perderam a esperança no futuro e ainda acreditam que mesmo diante da realidade que o Rio de Janeiro vive hoje, ainda há solução.

Maria afirma ainda que os governantes devem tomar medidas imediatas. “Conforme todos os professores se doarem de verdade, buscando cada vez mais conhecimentos e, juntos, integrarem escola e comunidade, nossa sociedade terá realmente ordem e progresso”.

*Maria do Nascimento é um nome fictício, já que a professora preferiu não ser identificada.

Carlos Eduardo de Lima . 5º período . Jornalismo Digital

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2 comentários em “Professor: profissão perigo

  1. Avatar de Rayane Pereira
    Rayane Pereira

    Matéria bem feita,realista.
    Mostra de uma forma delicada a situação professora-aluno-comunidade.

  2. Avatar de Sílvia

    Parabéns pelo trabalho desenvolvido.
    Sucesso!!

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